DOIDICE
Dr. Sabino, por causa de
mulher ficou com o juízo fraco. Antes disso, era um sujeito completamente
normal. Desejava as mulheres, mas, não tinha coragem de abordá-las, até que num
dia apaixonou-se desesperadamente por uma mulher casada que não lhe saia do
juízo. Moça, bonita e, sobretudo honesta. Além de não lhe dar a menor
confiança, Sabino tinha medo do marido a ponto de não querer nem o ver.
Assustava-se até quando ouvia pronunciar o seu nome.
Fincava-se
nas esquinas para vê-la passar. E como ficava só na imaginação, os pensamentos
foram se acumulando no juízo e baralhou tudo. Abestalhado, perdeu a noção do
tempo e a família preocupada mandou interna-lo para tratamento. Mas não
melhorava, mesmo porque desconheciam a causa primordial. Como não se
recuperava, mandaram-no de volta. Sabino não era propriamente um doido. Apenas
um abilolado por paixão recolhida.
Depois da volta, os amigos encarregaram-se de
fazê-lo mudar de convivência e desconfiado de que poderia ser algum problema
íntimo, algum vício depressivo, resolveu levá-lo a uma pensão de mulheres e
fazê-lo sair com uma. E depois de uma demora excessiva, Sabino apareceu calmo e
tranquilo sem qualquer sinal de perturbação mental. Lúcido, lúcido, risonho e
gratificado. Fez questão de saldar a conta, não permitindo que alguém enfiasse
a mão no bolso. – Esta não, a despesa é exclusivamente minha. Vocês me ensinaram
a viver. Pois não foi, companheiros. Andava metido no inferno de uma paixão e,
agora, estou flutuando num lago azul no meio dos cisnes. Um santo remédio.
Mas o diabo é que Sabino pensou que teria de
tomar todo o remédio do laboratório da pensão de D. Eva. E enfincou-se nele
direto. E como não era lá muito forte, foi enfraquecendo dia a dia, até quer
birutou de novo. Fiou-se apenas no gosto do remédio sem cuidar de seus efeitos
colaterais. E o pior é que não enjoava. Mudava de frasco e achava que cada um
era melhor do que o outro. De tanto usá-lo caiu numa depressão tal que já não
tinha mais força para beber.
E certo dia Sabino
desapareceu. Foi encontrá-lo em casa, espichado numa cama, pálido, magro,
desiludido.
-
O que é isto, Sabino!
-
Doente, muito doente, completamente leso.
-
Foi alguma comida?
-
Foi e não foi, pois tomei como remédio. Creio que exagerei na dosagem. Era um
frasco por dia e até dois e três.
-
E qual?
-
Saúde da mulher, vidro grande. Mas o bicho caiu na fraqueza. Também o diabo
desses laboratórios fabrica um remédio saboroso de mais, que dá vontade de
engolir o frasco. Queixo-me também da D. Eva. Todos os dias me apresentavam com
embalagens diferentes. E assim, em vez de me fortificar, caí nessa leseira que
nem me deixa ficar em pé.
-
Pois muda de regime, companheiro. Não vás mais a farmácia de D. Eva. Ela
negocia com esses artigos e quer é faturar.
-
Mas, como, se já estou viciado até a raiz.
-
Pois isto é um vício perigoso. Estás vendo o resultado. Caso voltes ou escapes
desta, passa a tomar de 15 em 15 dias e olhe lá! O remédio que estás tomando é
mesmo que sanguessuga. Chupa o sangue e todas as vitaminas.
-
Então foi isto que aconteceu. Também fui me confiar na D. Eva. Nem me lembrei
que não era médica. Mas é engraçado. Nas primeiras garrafadinhas a reação foi
positiva. Eu acho que trocaram o rótulo, ou o conteúdo e por isto passou a
fazer efeito negativo. Mulher é uma coisa misteriosa. Cura e mata, dependendo
da dosagem. E sabem de uma coisa, todo remédio deveria ser amargo.
Sabino,
aos poucos se recuperou e percebeu que deveria ficar no meio termo. Ser
cauteloso. Nada demais, nada de menos. Os amigos, então o aconselharam a
casar-se, ter um lar próprio e uma companheira ao seu lado.
-
Quem, eu. Deus que me livre. Basta ao meu lado uma garrafa de remédio. Bebo em
vinte e quatro horas... E cairei nesta novamente.
-
Olha, casa-te com uma mulher feia, sem atrativos. Assim não excederás.
-
Assim, não. Passaria a tomar um purgativo. Remédio que pelo menos tenha um bom
rótulo. Tenho alergia à mulher feia. Aliás, quem as fez, ou tinha muito mau
gosto ou era burro e perverso. Feiura é um castigo. E por que castigar uma
mulher. Isto não se irá entender nunca, nunca. Deve ter sido um péssimo
pedreiro, sem imaginação. Ruindade também, porque não havia justificativa
honesta para modelar feiura. Quanto não sofre uma mulher feia, diante das
graciosas. Eu, que sou um boboca, não teria cometido semelhante barbaridade. Já
pensaram se o mundo fosse feito só de mulheres bonitas e homens fortes. Mas
não. A engenharia desses fabricantes de gente chega ao cúmulo de mandar para o
mundo, um desmilinguido de minha marca. Da nisto. Fraco, meio abilolado, a fazer
besteiras à vida toda. Se o material não prestava, atirasse no lixo e não o
aproveitar para engendra uma peça desparafusada como eu e tantos outros que
andam por aí a sofrer amargas desilusões. Quando o corpo é fraco, a mente
também o é. E fazem isto com a maior tranquilidade, como se estivessem fazendo
uma obrar prima...
-
Também não é tanto assim não. Praticamente não existem mulheres feias. Deus fez
mulheres para todos os gostos. Quem ama o feio bonito lhe parece. É um velho
conceito. Há tanta gente casada com mulher feia e vive tão feliz. Além disso, é
o tipo de mulher para homem ciumento. Pode deixá-la em casa, solta-la na rua,
sem perigo de ser atraída. Vai e volta intacta...
-
Mas, mesmo assim, há exceções. Olha aí a D. F... Cara de bugre, mas o corpo é
um desafio e tem pintado o diabo.
-
Mas isto é um caso ou outro e mesmo assim o marido não acredita. Considera
impossível. É conversa do povo...
-
De qualquer forma, mulher somente bonita.
-
E se se bandear. Todo mundo anda de olho nela. E há muito sujeito atrevido...
-
Comigo é na dureza. Ou anda na linha ou irei para a cadeia.
-
Ora, quando vier, a saber, meu Deus, já estará ornamentado...
-
Sei que irei morrer muito cedo. O veneno das mulheres acabará comigo. São umas
sanguessugas. Não há sangue que chegue.
-
Morrer nada, Sabino. Mulher nem tem veneno, nem mata ninguém. A gente é que
morrer por gosto, pelo menos de paixão. E o remédio é não se apaixonar. Cria
juízo, modera o rojão e terás vida longa.
-
Sabes de uma coisa curta e certa. Não irei mais atrás desses demônios. Já estou
quase um frasco vazio. Só tem de mim a casca. E foram elas...
Em 23.7.86 (1986)
João Henriques da Silva (meu pai)
(In Memoriam – 20/09/1901 – 16/04/2003)
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