quinta-feira, 11 de junho de 2026

PRECE DE CÁRITAS

 

Prece de Cáritas

Deus nosso pai, vós que sois todo poder e bondade.
Dai a força àquele que passa pela provação.
Dai a luz àquele que procura à verdade.
Ponde no coração do homem a compaixão e a caridade.

Deus,
Dai ao viajor a estrela guia,
Ao aflito a consolação,
Ao doente o repouso.

Pai,
Dai ao culpado o arrependimento,
Ao espírito a verdade,
A criança o guia
Ao órfão o pai

Senhor,
Que a vossa bondade se estenda sobre tudo que criaste.
Piedade senhor para aqueles que não vos conhecem,
A esperança para aqueles que sofrem.
Que a vossa bondade permita aos espíritos consoladores
Derramarem por toda parte a paz, a esperança e a fé.

Deus,
Um raio, uma faísca do vosso amor pode abrasar a terra.
Deixai-nos beber nas fontes esta bondade fecunda e infinita
E todas as lágrimas secaram, todas as dores acalmar-se-ão.
Uma só oração, um só pensamento subirá até vos,
Como um grito de reconhecimento e de amor.

Como moisés sobre a montanha
Nos lhe esperamos com os braços abertos
Oh bondade !
Oh beleza !
Oh perfeição !
E queremos de alguma sorte alcançar vossa misericórdia.

Deus,
Dai-nos a força de ajudar o progresso a fim de subirmos até vos.
Dai-nos a caridade pura.
Dai-nos a fé e a razão.
Dai-nos a simplicidade, que fará de nossas almas...
Um espelho onde se refletirá a vossa santa e misericordiosa imagem.

 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

MADALENA

 

MADALENA

 

 

Alexandrino largou a esposa e danou-se no mundo com uma mulher vadia e sem futuro.

A coitada da Madalena, ficou com um filho começando a falar e outro na barriga e sem saber o que fazer. Não podia entender como Alexandrino a havia deixado por uma dona ordinária, mulher de todo mundo.

Madalena, uma mulher honesta, zelosa com a casa com um filho por companhia e outro carecendo de muita ajuda. Via-se naquele instante como se estivesse caído no fundo de um poço sem ter como sair. E com a despensa vazia, sem dinheiro, sem nada, teria que correr a procura de um trabalho qualquer que lhe desse o sustento e o leite para o filho Antônio.

E logo ao amanhecer, enrolou um pano no pescoço, tomou o filho nos braços e saiu rua a fora, de casa em casa a procura de emprego.

Contava sua história, mostrava o Antônio, um coitado inocente e a barriga avolumada que já estavam sem pai. Não tinha nada pra comer e muito menos para pagar o magro aluguel do casebre onde morava. Se alguém não os socorresse, estariam perdidos.

Não queria esmolar. Era deprimente e impossível para uma mulher moça sadia e corajosa. Era mais de meio dia, quando encontrou quem se interessasse por ela. Mas teria que ir para roça, cuidar de cabras, galinhas e porcos no pequeno sítio da viúva sinhazinha. Não lhe faltaria alimentação e um pequeno salário.

Pertinho da cidade, aquilo lhe pareceu uma joia achada num palheiro. Pelo menos estaria com a alimentação assegurada e teria casa para viver. No mesmo dia foi levada para lá e assumiu a tarefa. Afinal de contas já havia vivido na roça e tinha alguma experiência, das coisas do campo.

Leite para Antônio não lhe faltava, e sobrava para ela. Aquilo tudo substituía muito a falta do caboclo Alexandrino e até não desejava que ele lhe aparecesse. Que se ficasse por onde andava com a bicha Zeferina que havia de dar-lhe a recompensa mais tarde.

Ordinária safada, que estava pelas ruas gingando o corpo e tomando o homem das outras. Viciada e sem vergonha como era não demoraria a botar as unhas de fora. E era muito bem feito. Mas, como o Alexandrino também não valia nada, talvez a abandonasse primeiro.

Madalena, com pouco tempo estava a par de tudo. Cabras, galinhas e porcos, prosperavam a olhos vistos. E Dona Sinhazinha, satisfeita, dava-lhe o que podia, assinou uma cabrita para o Antônio e deu-lhe meia dúzia de frangas. Era um começo. O que queira era que continuasse zelando o que era seu e aumentando a renda do sítio.

Do ex-marido alexandrino e a bichota Zeferina, nem queria notícias.

Só lamentava que o filho fosse filho dele. Mudou o sobrenome de Antônio para não ficar sequer a lembrança.

Alexandrino foi ficar longe, inclusive com receio de algum parente de Madalena. Arranjou trabalho pesado, alugou um casebre e meterem-se dentro. A Zeferina, profissional da gandaia, não pretendia ficar inativa. Havia de ganhar algum dinheiro com o corpo que Deus lhe dera. E Alexandrino que não achasse ruim.

Em todo caso procuraria ocultar o quanto possível os seus encontros. Começou saindo pelas ruas, exibindo o material. Tanto recebia dinheiro, quando presentinhos, o que já era de seus hábitos. Em casa, quando o tolo chegava, desdobrava-se em carinhos como se o estivesse esperando com ansiedade.

- Ora, meu amorzinho demorou tanto. Não faz isto com a tua negrinha Zeferina. Estamos casados tão novos e sou só tua.

 E tocou o andor para frente. Cabra saía, cabra no chifre. O que recebia era guardado sob mil capas.

Zeferina tinha seus planos traçados. Na hora que o bestão desconfiasse, sumiria, deixando-lhe somente uma calçola usada de presente e lembrança.

Certo dia Alexandrino retornou antes do horário habitual. Zeferina não estava. E teve a primeira suspeita. Poderia estar lhe traindo. Quando a danada chegou, vinha com um pacote na mão.

- Onde estava, Zeferina. Não gosto que saias de casa quando não estou. É bom que não me faças ciúme. Sabe que deixei a Madalena, uma mulher daquela pra me juntar contigo. Não te esqueças disto.

- Mas como é que estás assim desconfiado de tua Zeferina. Se eu quisesse outros homens, não teria fugido contigo.

- E o que é esse pacotinho aí?

- Olha lá tua desconfiança comigo. Fui comprar bolachas para tua ceia e me pagas assim?

- E de onde tirastes dinheiro? Não te dei.

- Um restinho ainda do que havia trazido.

Pois guarda teu dinheiro compras aqui quem faz sou eu, Alexandrino. Não te esqueças mais disto.

- Está certo. Poderei ir devolver.

- As bolachas foram presente do merceeiro Conrado com que havia estado dando volteios no corpo. De qualquer forma, Alexandrino ficou cismado. Sabia que onde foi casa, era tapera. Passa daí por diante, os dias todos com aqueles pensamentos infernais. Só faltava morrer de ciúmes. Não há paixão maior do que paixão por rapariga. A Zeferina era dessas ninfomaníacas que não se contentava com um homem só e não perdia oportunidade.

Alexandrino, por sua vez, já começava a ter saudades de Madalena, uma mulher tão boa e honesta que era. Nem atinava que diabo lhe havia dado no couro para abandona-la por uma safada daquela, sovada por gato e cachorro. E agora estava no prego, levando chifre e naturalmente, com os amantes da bicha zombando dele. O melhor mesmo seria largá-la, se a apanhasse em flagrante. Desconfiar somente era pouco. Talvez fossem somente ciúmes e suposição.

Zeferina estava saindo com o Pereira, cabra do oco do mundo, ainda moço e valente; um desses morenos bem claros e de boa aparência. Quando Zeferina queria voltar para esperar alexandrino em casa, ele impedia.

- Estás com medo de que?

- Só quero mesmo que aquele covarde vagabundo toque um dedo na tua pele.

E por isto chegava sempre atrasada.

- Por onde andavas Zeferina, já te falei que teu lugar é em casa?

- Achas que vou morrer dentro dessas quatro paredes, mofando como um pedaço de pão molhado, nem morta...

- Olhe, descobri, nos teus trastes um bocado de coisas. Donde tirastes, com que dinheiro comprou, será que me estás enganando?

- Deixa de besteira. Se não quisesse ser direita, não teria deixado meus amigos. Mas repara que ainda tenho corpo para voltar ao que era. E será que me queres proibir de sair. Olha, se eu quisesse já teria muitos amigos aqui. Bem sabes quem é a Zeferina. Basta sair balançando o material para ter quem me queira.

Procura ganhar mais dinheiro para me dar o que quero. E outra coisa, não ande me vigiando. O que é meu dou a quem quero. Mas não farei isto contigo.

Alexandrino, mal saiu para o trabalho, já o último amigo de Zeferina lhe estava à porta.

- Cadê o ciumento?

- Foi trabalhar. Aqui, não Pereira. O meu homem pode voltar. Anda meio desconfiado.

- Então, achas que vou perder as passadas que dei. Deixa vir. É até bom que venha e nos pegue na folia...

- Assim também é demais e dará em briga. O homem é metido a arrochado e ciúme dá coragem.

O Pereira agarrou-se logo com Zeferina que simulou certa resistência. Entregou-se no final. Pediu que era melhor esperá-la lá. Assim era demais.

- Zeferina, vem cá! Por que diabo não vais logo morar comigo. Tenho uma casinha melhor, dinheiro não nos faltará e nunca tive medo de homem nenhum. Arruma tuas coisas e deixa esse cagão pra lá. Então, vamos embora e não fique com medo.

- E a gente se muda daqui?

- Que nada. Tenho meus negócios e não posso sair assim.

Zeferina se foi deixando a porta escorada, presa com um pano velho. Pereira levou-a para casa com a maior tranquilidade. Era como se estivesse bebendo um copo d’água.

À tardinha Alexandrino chegou e toca a esperar. Desconfiado, foi verificar os trastes de Zeferina e nada encontrou. A endemoninhada havia se ido. Mas iria buscá-la. Não a perdoaria. E meteu o pé na estrada. Deveria ter voltado para onde saíra. Lá não encontrou nem notícias. Tentou saber da mulher e do filho. Quem sabe se não poderiam querê-lo de volta. Localizou-os e foi até lá.

- Dá o fora daqui – gritou-lhe Madalena. – Não quero te ver nem a sombra. E vai logo. Bateu-lhe a porta na cara e trancou-se. De lá de dentro ainda gritou.

– Vou mandar avisar ao delegado e ao meu patrão, cabra ordinário.

- Madalena, deixa ao menos olhar para o menino!

- Nada disso. Só te serve mesmo uma Zeferina! E ainda é muito pouco... Já te disse que não queremos nem ver a sombra de tua sombra. Dá o fora daqui e vai apagando o rastro. Deixaste-nos sem um pó de farinha para dar ao filho.

O arrependido Alexandrino retirou-se. A mulher tinha toda razão. Ele mesmo é que não valia nada. Até Zeferina, rapariga de ponta de rua o havia deixado. Estava pagando o que fizera. Pois não era. Abandonar Madalena e o filho por uma quenga daquela e agora nem uma nem outra. E uma das primeiras coisas que vira ao voltar, foi a crueira Zeferina emparelhada com o Pereira. Era desaforo. Botou-se para os dois.

- Vagabunda safada, vai apanhar. Tu e esse cara de pai de chiqueiro. Zeferina encostou-se em seu Pereira e esperou a pancadaria. Era capaz de morrer gente. Avançou como um cão danado. Recebeu um pontapé e um soco na marra do chocalho e esparramou-se no chão. Pereira pisou-lhe na barriga e deu-lhe uma pesada na cara.

Rolou e correu.

Havia de matar a bexiguenta Zeferina, mas ainda ia correndo. Fora da cidade ainda tinha vontade de correr.

Era melhor mudar de ideia. E foi aí que lhe veio um pensamento diabólico. Enforcar-se. Sem mulher e sem o filho, sem a cabrocha Zeferina, pra que diabo viver. E, além disso, surrado e aquela pesada na cara que não pararia de doer.

Entra pela caatinga, corta um cipó de mucunã, procurou um galho apropriado e dependurou-se. Quando se soltou e o cipó apertou-lhe a garganta, quis arrepende-se, mas foi tarde demais.

Antes de começar a feder, chegaram os primeiros urubus. Dos galhos da velha catingueira, espiavam para baixo e lamentavam-se.

- Como diabo iria almoçar aquele espantalho safado. Por que não morrera no chão.

Um urubu sentara-se no ombro e começara o trabalho difícil, aliás, carne péssima, companheiros. Adocicada e desgostosa. Além disso, numa posição incomoda danada desta. Só muita fome, aguenta essa porcaria. Este peste deveria ter sido enterrado. Somente os vermes da terra podem suportá-lo.

- Urubu debaixo da catingueira, Ambrósio. Vai depressa lá. Deve ter morrido alguma rês ou outro bicho qualquer.

Ambrósio voltou às carreiras.

- O que foi Ambrósio?

- Nem lhe digo, patão. Um homem enforcado. Pendurado num galho de catingueira.

- Logo nos meus pastos. Vão lá, cavem um buraco debaixo do bicho, cortem a corda e enterrem.

- Parece que os urubus não estão gostando.

- Mas, patrão, não seria melhor chamar o delegado. Pelo menos poderia saber quem era.

- Tens razão. Manda avisar.

E entre os curiosos que foram ver o enforcado, estava a quenga Zeferina. E lá estava o sinal de identificação, um dedo dos pés sem unha.

– Será alexandrino? – E a Zeferina rezou um pouco pela sua alma desfigurada. Havia sido um alívio. E foi avisar a mulher legítima.

- Madalena, o teu marido morreu enforcado dentro da caatinga da fazenda Tabuleiro. Perdoa-me haver fugido com ele. Não se perdeu nada. Deves dar graças a Deus. Desta vez o vaso ruim quebrou-se. Casa-te com outro.

Madalena nem chorou e nem riu. Vivo ou morto não lhe faria falta. Em todo caso, Deus sabia o que fazia. Havia se conservado honesta e não seria a morte do alexandrino que iria concorrer para uma aventura qualquer. Poderia casasse isto sim, mas não seria mais com um cabra da marca de alexandrino.

Conservava ainda os traços de uma mulher atraente.

- Também não iria sair correndo a procura de homem. Alguns que já a haviam tentado; descartava-os todos. Homem que vai atrás de mulher casada, não tinha vergonha e não lhe merecia confiança. Não era nenhuma Zeferina.

Agora que já sabia que estava viúva e desimpedida e ninguém teria o que dizer dela.

Numa festa da padroeira da cidade, um rapaz de certa idade, bem fornido, começou a cercá-la. Falaram-se. Solteiro e trabalhador de fazenda. Queria casar-se com ela.

Está certo, mas antes de qualquer coisa, preciso saber vosmecê quem é. Já caí numa e quero estar livre de outra. Não tenho pressa.

- Fale com meu patrão. Ele lhe dirá quem sou. Trabalho lá desde meninote.

- Tem uma coisa ainda, não sairei de onde estou. Lá é como se tivesse pai, mãe e um bom marido. Nada me tem faltado. E só sairia se me mandasse embora. Devo até minha alma a patroa.

Diante das boas informações, Madalena casou-se.

- Madalena você tomará conta da casa, das galinhas e dos porcos. O resto será comigo. E ainda ajudarei em tudo. Teu filho, quando crescer mais, irá para a escola. O novinho, no tempo irá também. Não aprendi a ler, mas me faz muita falta. Assino mal o nome.

E se fosse o caso... ainda hoje, encontraríamos o casal no mesmo lugar, velhinhos, talvez, mas ainda brincando de se esconder!

Em – 6.7.1986.

João Henriques da Silva

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

SEMPRE AUGUSTO DOS ANJOS

 

...E dizer que o Augusto não tinha crença, que era ateu e que não tinha religiosidade, vejam na visão geral criada por IA, sem nenhuma paixão humana.

“A religiosidade de Augusto dos Anjos (1884-1914) é complexa e paradoxal, misturando um profundo pessimismo materialista com elementos de espiritualidade. Embora marcado pela ciência positivista e pela angústia existencial, sua obra dialoga com o espiritismo (sendo relatado como simpático a reuniões mediúnicas), a filosofia budista e um fundo de formação católica

Principais Facetas da Religiosidade de Augusto dos Anjos:

Simpatia pelo Espiritismo/Espiritualismo: Relatos indicam que o poeta não apenas conhecia, mas teria participado de reuniões mediúnicas e possuía afinidade com o espiritismo, o que se reflete na imaterialidade de alguns de seus versos.

Influência Budista: Estudos apontam que a filosofia do sofrimento e a negação da existência material presentes no livro Eu dialogam com o budismo, mostrando a influência de Schopenhauer na sua poética.

Herança Católica e Crítica: Apesar de sua obra ser muitas vezes vista como uma desconstrução dos temas religiosos tradicionais, análises sugerem uma "teopoesia" que reinterpreta o sagrado, muitas vezes aproximando a figura divina da natureza ou do sofrimento (como a figura do carneiro).

Pessimismo e Morte: Sua poesia reflete uma angústia existencial profunda, onde a religiosidade é frequentemente tensionada pelo materialismo científico de sua época, focando na putrefação e no fim biológico, mas sem abandonar a busca pelo sentido metafísico

A obra de Augusto dos Anjos não se limita a um ateísmo simples, mas a uma angústia espiritual que navega entre a fé tradicional e a descrença científica”.

Vejamos também a pergunta que Kardec fez aos espíritos sobre Deus.

“1. Que é Deus?

“Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas” *

2. Que se deve entender por infinito?

“O que não tem começo nem fim; o desconhecido; tudo que é desconhecido é infinito.”

3. Poder-se-ia dizer que Deus é o infinito?

“Definição incompleta. Pobreza da linguagem dos homens, insuficiente para definir o que está acima de sua inteligência.”

Deus é infinito em suas perfeições, mas o infinito é uma abstração. Dizer que Deus é o infinito é tomar o atributo de uma coisa pela coisa mesma, é definir uma coisa que não é conhecida por uma outra que não o é mais do que a primeira.”

 

Amor e crença

Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo

Ser que preside e rege os outros seres,

Que os encantos e a força dos poderes

Reúne tudo em si, num só encanto?

 

Esse mistério eterno e sacrossanto,

Essa sublime adoração do crente,

Esse manto de amor doce e clemente

Que lava as dores e que enxuga o pranto?!

 

Ah! Se queres saber a sua grandeza,

Estende o teu olhar à Natureza,

Fita a cúp’la do Céu santa e infinita!

 

Deus é o templo do Bem. Na altura Imensa,

O amor é a hóstia que bendiz a Crença,

ama, pois, crê em Deus, e... Sê bendita!

 

Augusto dos Anjos

quarta-feira, 22 de abril de 2026

O RUGIDO DO LEÃO

 

O RUGIDO DO LEÃO

 

Dr. José Peregrino de Carvalho Costa de Medeiros Neto, descendente do coronel da Guarda Nacional, do mesmo nome. Afamado caçador das beiras das matas do nosso Brasilzão, caçou e pescou por todos os cantos possíveis. Pertencia a alta sociedade. Médico Ginecologista famoso, as mulheres os adoravam, principalmente quando contava suas aventuras de caça e pesca. Era um bom proseador. De estatura mediana, mais baixo do que alto, muito elegante. Só se apresentava de calça branca, camisas variadas, paletó gravata sempre combinado com a moda atual e por sobre todo esse aparato um xale, echarpe, adquirido nas regiões das suas caçadas, sempre com cores que representavam o estado das suas aventuras. Sapatos de verniz das marcas Bertelli, Schiarelli com verniz brilhante, recortes e bico quadrado, sempre escolhia os que tivesse o salto tipo cavalo de aço. Fazia parece um pouco mais alto.

Cançado de fazer essas aventuras na sua terra e com animais de pequeno porte, resolveu se aventurar num safári pela África, escolheu o parque nacional kruger, tanto pela grande quantidade de leões como pela bela história da origem da raça humana.

Como sempre fazia, não contava a ninguém para onde ia realizar suas caçadas. No regresso marcava um sarau num dos bons clubes sociais, convidava seus admiradores, principalmente senhoras suas clientes, que eram muitas e lá no meio do salão fazia uma narrativa mais natural possível de tudo que acontecera.

Boa noite caros convidados. Estou de volta sã e salvo.

- O que foi que aconteceu de tão perigoso?

- Ave Maria nos conte logo, doutor Carvalho.

- Minha gente, vamos devagar. Passei quase trinta dias fazendo incursões e caçadas pela velha África, atirando e as vezes matando rinocerontes, búfalos, elefantes, hienas, leopardos, crocodilos, javalis, impalas, kudus, antílopes, Avestruzes, gnus, zebras, babuínos, e tantos ouros animais que apareciam pela frente. No último dia do meu safari, o guia nos convidou para fazermos a última caçada no território dos leões. Era o troféu de todo caçador. Partimos logo cedo a procura do famigerado e rei das selvas africanas.

O guia na frente sempre com cautela e muito atento a qualquer barulho, sinalizava com as mãos e a cabeça nossos caminhos. Cada um seguia paralelo pelas trilhas vizinhas. Cada qual com as ouças e os olhos mais do que abertos. O medo era imenso, cada touceira de arbusto, a gente via um leão. Eu com minha espingarda 375 H&H, não tinha nenhum receio, pois já tinha abatido todos os dias com a velha 375. Tiro e queda. De vez enquanto o guia levantava a mão e dava um assobio para a gente parar. Ficávamos literalmente paralisados, era o combinado. Outro sinal, a gente continuava sempre para frente aguardando o cabeçudo aparecer. Eu como era o mais baixo, passava com mais facilidade entre os galhos, e, logicamente estava sempre a frente dos outros. De repente surge no meu caminho, frente a frente, o resmungão, o estrangulador, o senhor do deserto, o devorador de Homens, a besta fera. O bicho tinha uma juba do tamanho do mundo, o hálito de sangue podre, antecipando a decomposição física de uma carniça podre.

Quando me viu, parou e eu também. Nós olhamos. O medo é uma condição inevitável da vida do ser humano. Independentemente de quem sejamos, em algum momento de nossa vida sentiremos a sensação causada pelo medo, que é definido pelo dicionário como sendo estado afetivo suscitado pela consciência do perigo ou que, ao contrário, suscita essa consciência, tudo isso me veio na lembrança dos meus estudos da faculdade de medicina. O medo é, inclusive, uma forma de preservação da vida porque permite que tenhamos mais cautela ao fazermos as atividades do cotidiano, de modo geral. Minhas senhoras, tudo isso se passou tão de repente que não sabia se corria – para onde, se morria e assim, estava salvo ou então atirava e matava como fizera várias vezes, mas a situação era diferente, eu e ele.

Para surpresa minha ele tomou a iniciativa, virou a cabeça para um lado e outro e enchendo os pulmões fortemente urrou desse jeito: rrauuuaaarr, rooooaaarr...

Minhas destintas senhoras, obrei-me todo.

- Mas doutor, numa hora dessas é normal.

- Se fosse eu teria morrido.

- Ave maria, não sei nem como seria se tivesse perto.

- Entendemos perfeitamente sua situação numa hora dessa. É apavorante, compreendemos perfeitamente sua coragem de estar vivo entre nós.

- Mas, minhas digníssimas senhoras, Obrei-me todo foi agora...

 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 26 de março de 2026

CHICO E AUGUSTO

 

Psicografia de Chico Xavier em Leopoldina atribuída ao espírito de Augusto dos Anjos.

 

 

                                        

                             GRATIDÃO a LEOPOLDINA*.

 

                        Sem o vulcão de dor de hórridas lavas,

                        Beija, augusto, este solo generoso,

                        Que te guardou no seio carinhoso

                        O escafandro das células escravas.

 

                        Aqui, buscaste o campo de repouso,

                        Depois de vagas ríspidas e bravas

                        No mundo áspero e vão, que detestavas,

                        E onde sorveste o cálice amargoso.

 

                        Volta, augusto, do pó que envolve as tumbas,

                        Proclama a vida além das catacumbas,

                        Nas maravilhas dos seus resplendores.

 

                        Ajoelha-te e lembra o último abrigo,

                        Esquece o travo do tormento antigo

                        E oscula a destra de teus benfeitores.

 

·         Poesia recebida em 18 de junho de 1940, em Leopoldina, onde foi sepultado o poeta.

 

 

RECORDAÇÕES EM LEOPOLDINA (*)

Augusto dos Anjos

 

A sombra amiga destes montes calmos,

Meu pobre coração de anacoreta,

Amortalhado em fina roupa preta,

Desceu à escuridão dos sete palmos.

 

Viera o fim dos sonhos intranquilos,

Entre grandes e estranhos pesadelos,

Satisfazendo aos trágicos apelos

Da guerra inexorável dos bacilos.

 

A morte terminara o horrendo cerco,

Sufocando as moléculas madrastas...

Eram milhões de células nefastas,

Voltando à paz do túmulo de esterco.

 

Indiferente aos últimos perigos,

Meu corpo recebeu o último beijo

E comecei o lúgubre cortejo,

Sustentado nos braços dos amigos.

 

Em triste solilóquio no trajeto,

Espantado, fitando as mãos de cera,

Rememorava o tempo que perdera,

Desde as primárias convulsões do feto.

 

Porque morrer amando e haver descrido

Do Eterno Sol, do qual vivera em fuga?

Como é sombrio o pranto que se enxuga

Pelo infinito horror de haver nascido!...

 

Depois, vi-me no campo onde a dor medra,

Ao contato do chão frio e profundo,

Chegara para mim o fim do mundo,

Entre as cruzes e os dísticos de pedra.

 

Terrível comoção pintou-me a cara,

Na escabrosa cidade dos pés juntos,

Tornara-se defunta, entre os defuntos,

Toda a ciência de que me orgulhara.

 

Trêmulo e só no leito subterrâneo,

Sentia, frente à lógica dos fatos,

O pavor dos morcegos e dos ratos,

Dominar os abismos de meu crânio.

 

Meus ideais mais puros, meus lamentos,

E a minha vocação para a desgraça

Reduziam-se a mísera carcaça

Para o açougue dos vermes famulentos.

 

Em seguida o abandono, enfim, do plasma,

Os micróbios gritando independência...

E tomei nova forma de existência

Sob a fisiologia do fantasma.

 

Fugindo então ao gelo, à sombra e à ruína.

Do caos sinistro em que vivi submerso

Revelou-se-me a glória do universo,

Santificado pela Luz Divina.

 

Oh! Que ninguém perturbe os meus destroços,

Nem arranque meu corpo à última furna,

É Leopoldina a generosa urna,

Que, acolhedora, me resguarda os ossos.

 

Beije minhalma alegre o pó da rua,

Deste painel bucólico e risonho,

Onde aprendi, no derradeiro sonho,

Que o mistério da vida continua...

 

Bendita seja a Terra, augusta e forte,

Onde, através das vascas da agonia,

Encontrei em mim mesmo, em novo dia,

Pelas revelações de luz da morte.

 

(*) Espírito:  Augusto dos Anjos -Psicografia de Francisco Cândido Xavier

Recebida em 17 de julho de 1947

 

https://leopoldinense.com.br/video/75/psicografia-de-chico-xavier-em-leopoldina-atribuida-ao-espirito-de-augusto-dos-anjos

terça-feira, 17 de março de 2026

Amor é fogo que arde sem se ver

 

Amor é fogo que arde sem se ver

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor

 

Soneto de Luís Vaz de Camões (1524-1580), um dos maiores escritores portugueses de todos os tempos. O famoso poema foi publicado na segunda edição da obra Rimas, lançada em 1598.