quinta-feira, 26 de março de 2026

CHICO E AUGUSTO

 

Psicografia de Chico Xavier em Leopoldina atribuída ao espírito de Augusto dos Anjos.

 

 

                                        

                             GRATIDÃO a LEOPOLDINA*.

 

                        Sem o vulcão de dor de hórridas lavas,

                        Beija, augusto, este solo generoso,

                        Que te guardou no seio carinhoso

                        O escafandro das células escravas.

 

                        Aqui, buscaste o campo de repouso,

                        Depois de vagas ríspidas e bravas

                        No mundo áspero e vão, que detestavas,

                        E onde sorveste o cálice amargoso.

 

                        Volta, augusto, do pó que envolve as tumbas,

                        Proclama a vida além das catacumbas,

                        Nas maravilhas dos seus resplendores.

 

                        Ajoelha-te e lembra o último abrigo,

                        Esquece o travo do tormento antigo

                        E oscula a destra de teus benfeitores.

 

·         Poesia recebida em 18 de junho de 1940, em Leopoldina, onde foi sepultado o poeta.

 

 

RECORDAÇÕES EM LEOPOLDINA (*)

Augusto dos Anjos

 

A sombra amiga destes montes calmos,

Meu pobre coração de anacoreta,

Amortalhado em fina roupa preta,

Desceu à escuridão dos sete palmos.

 

Viera o fim dos sonhos intranquilos,

Entre grandes e estranhos pesadelos,

Satisfazendo aos trágicos apelos

Da guerra inexorável dos bacilos.

 

A morte terminara o horrendo cerco,

Sufocando as moléculas madrastas...

Eram milhões de células nefastas,

Voltando à paz do túmulo de esterco.

 

Indiferente aos últimos perigos,

Meu corpo recebeu o último beijo

E comecei o lúgubre cortejo,

Sustentado nos braços dos amigos.

 

Em triste solilóquio no trajeto,

Espantado, fitando as mãos de cera,

Rememorava o tempo que perdera,

Desde as primárias convulsões do feto.

 

Porque morrer amando e haver descrido

Do Eterno Sol, do qual vivera em fuga?

Como é sombrio o pranto que se enxuga

Pelo infinito horror de haver nascido!...

 

Depois, vi-me no campo onde a dor medra,

Ao contato do chão frio e profundo,

Chegara para mim o fim do mundo,

Entre as cruzes e os dísticos de pedra.

 

Terrível comoção pintou-me a cara,

Na escabrosa cidade dos pés juntos,

Tornara-se defunta, entre os defuntos,

Toda a ciência de que me orgulhara.

 

Trêmulo e só no leito subterrâneo,

Sentia, frente à lógica dos fatos,

O pavor dos morcegos e dos ratos,

Dominar os abismos de meu crânio.

 

Meus ideais mais puros, meus lamentos,

E a minha vocação para a desgraça

Reduziam-se a mísera carcaça

Para o açougue dos vermes famulentos.

 

Em seguida o abandono, enfim, do plasma,

Os micróbios gritando independência...

E tomei nova forma de existência

Sob a fisiologia do fantasma.

 

Fugindo então ao gelo, à sombra e à ruína.

Do caos sinistro em que vivi submerso

Revelou-se-me a glória do universo,

Santificado pela Luz Divina.

 

Oh! Que ninguém perturbe os meus destroços,

Nem arranque meu corpo à última furna,

É Leopoldina a generosa urna,

Que, acolhedora, me resguarda os ossos.

 

Beije minhalma alegre o pó da rua,

Deste painel bucólico e risonho,

Onde aprendi, no derradeiro sonho,

Que o mistério da vida continua...

 

Bendita seja a Terra, augusta e forte,

Onde, através das vascas da agonia,

Encontrei em mim mesmo, em novo dia,

Pelas revelações de luz da morte.

 

(*) Espírito:  Augusto dos Anjos -Psicografia de Francisco Cândido Xavier

Recebida em 17 de julho de 1947

 

https://leopoldinense.com.br/video/75/psicografia-de-chico-xavier-em-leopoldina-atribuida-ao-espirito-de-augusto-dos-anjos

terça-feira, 17 de março de 2026

Amor é fogo que arde sem se ver

 

Amor é fogo que arde sem se ver

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor

 

Soneto de Luís Vaz de Camões (1524-1580), um dos maiores escritores portugueses de todos os tempos. O famoso poema foi publicado na segunda edição da obra Rimas, lançada em 1598.

 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O CHARUTO PSICÓLOGO

 

O CHARUTO PSICÓLOGO

 

            Estava impressa no meu semicoco uma piada que meu pai sempre contava, ainda quando eu era menino pequeno, isto é, quando piada simples tinha valor dentro do convívio familiar. Como tudo fica gravado, hoje lembrei, não sei por quê. Mas vou botar pra fora como acho que tinha acontecido num passado, lá pra trás.

            Fui pesquisar nos anos de 1950 o local onde a história, acho que tinha se passado, e achei exatamente uma que tinha as mesmas características, como meu pai tinha descrito. 

            Na grandiosa Wanamaker’s Filadélfia dos anos de 1950, conhecida pela grandiosidade, órgão monumental e luxo com múltiplos andares de mercadoria e até um salão de chá.

            Fora uma cadeia de lojas de departamento americana fundada em 1861 e extinta há, 31 anos em 1995 tinha de um tudo: roupas, calçados, utensílios domésticos, mobília, brinquedos, joias, lençóis e uma infinidade de bugigangas que os americanos gostam de gastar dinheiros em coisas fúteis.

            Era mesmo que tá vendo, grandes vitrines com vidros enormes, portas escancaradas de madeira de lei com desenhos em alto relevo, chão impecavelmente limpo e brilhante, talvez de mármore de Carrara, prateleiras de cima a baixo cheias de ilusões. Era uma parafernália dos diabos, uma armadilha inexorável para os transeuntes inocentes e pobres. Só os ricos se atreviam a subir os degraus dessa quimera.

            Nisso, vem passando descompassadamente uma singela senhora, acho que quase perdida pelo meio da avenida, como se tivesse caído de um caminhão de mudança; puxando um pirralho embirrento, quando de repente o moleque avistou na grande vitrine um velocípede vermelho com rodas brancas.  Não se fez de rogado, soltou-se da mãe e como um raio, atravessou o resto da rua, subiu os degraus, atravessou a grande porta, dirigiu-se a vitrine por dentro, puxou o sonho de todo menino daquela época, colocou o danado no salão e começou a pedalar pra cima e pra baixo, ziguezagueando entre as pessoas e as vezes barroando nas canelas dos ricaços.

            A pobre mãe aflita com aquela situação inesperada, ficou sem saber o que fazer.           O medo subjetivo e adjetivo que o pobre tem do rico, fez com que o lado materno sobrepujasse a comédia humana que havia dentro do âmago da raça tida como inferior, vencesse todas essas forças primitivas e ufanamente de peito erguido, usando de gládios imaginários como Dom Quixote, subisse atrás celeremente do seu querido filho. Amor de mãe é a maior força constrita do universo.

            Com muito afinco consegui parar o glorioso diabinho.

            - Filho desça daí. Vamos para casa. O papai está esperando.

            Cinco anos de desobediência, não era fácil acabar de repente.

            - Não desço, ele é meu!

            Vamos filhote esse brinquedo é caro, não temos dinheiro para comprar, a mamãe quando chegar em casa vai lhe dar cocada e mingau que você tanto gosta.

            - Não saio, só vou com ele.

            - Meu bem, não faça isso com a mamãe. Desça depressa daí.

            - Não desço.

            Desce não desce, choro, esperneio, rogo da mãe, pedido e promessas a todos os santos e nada. Não sabia mais o que fazer, vendo a hora chamarem as autoridades e serem expulsos vergonhosamente como cachorros sem donos.

            As pessoas entravam e saiam sempre evitando aquele alvoroço feito por gente pobre.

            Nisso aparece uma vendedora do setor de brinquedos e calmamente tenta conversar com o danado do menino; nada, irredutível.

            - Não desço ele é meu!

            Chega à supervisora do setor e não tem acordo. Chama o gerente do andar, nada de nada. De repente aparece o gerente geral da loja e vendo aquela situação, manda chamar a psicóloga.

             - A doutora Corona vai resolver ligeiro. Meia hora de conversa fiada e nada.

            A mãe queria tirar o menino a força, mas não deixaram, era contra as normas da loja e os fregueses que estavam assistindo não iriam admitir.

            De repente alguém deu uma ideia – chamem mister Thompson lá do sexto andar, ele é quem resolve as coisas impossíveis daqui.

            O gerente autorizou chamar o careca como era mais conhecido.

            Logo mais, desce do elevador um pequeno monstro de quase dois metros pesando 150 quilos, a careca reluzente, um charuto enorme no canto da boca, de paletó e gravata e pergunta: - Qual é o problema dessa vez.

            - Essa criança entrou na loja e se agradou desse velocípede e a mãe não tem condições de comprar e já fizemos tudo para convencê-lo a desmontar e até agora nada, a única esperança é você, isto é, sem usar a prorrogativa da força.

            O careca coçou a careca avermelhada, pensou um pouco, mandou que todos se afastassem do local e se aproximando da criança que ainda relutava e gritava, não desço ele é meu; abaixou-se o máximo que seu corpanzil permitisse e cochichou algumas palavras no ouvido do menino encrenqueiro.

            Como num passe de mágica o guri desceu do velocípede rapidamente, correu até a mãe e disse – vamos para casa mamãe.

            Toda a plateia ficou admirada do efeito que aquelas palavras ditas no pequeno ouvido causaram.

            - Que será que seu Montanha falou, todos queriam saber, mas o homem deu meia volta e sumiu entre as grandes prateleiras.

            O gerente geral muito curioso foi procurar o Thompson.

            Meu caro amigo, conheço você há muito tempo, tem sido um bom profissional dedicado a empresa, tem resolvido todo tipo de contratempo que ocorre aqui com bons resultados, porém o de hoje, todos querem saber o que disse para aquela criança, até a psicóloga está curiosa da sua resposta.

            - Fiz o corriqueiro, dei duas baforadas no charuto até o bicho mostrar a brasa, soprei três vezes na ponta, mostrei para ele e disse: seu filhinho da puta, desça dessa merda correndo se não enfio esse charuto no seu fiofó.

Grijalva

26/11/2026

                                                                                                    

 

           

           

 

domingo, 11 de janeiro de 2026

O SANTO

 

O Santo! 

Antônio Silvino, considerado por muitos o primeiro rei do cangaço, atravessou as terras paraibanas de maneira constante, deixando pelo caminho um rastro de medo e insegurança. Por onde passava, o ambiente se transformava. A Paraíba que ele percorreu tornou-se um território instável, onde sua ânsia pelo saque crescia sem freios. Na prática, vivia-se ali um verdadeiro reino de terror, onde a única lei reconhecida era a do punhal e do bacamarte. Bastava alguém ouvir o nome Antônio Silvino para que o coração apertasse. Homens e mulheres de bem sentiam medo, angústia e apreensão. A Sombra da Morte, o Rifle de Ouro, o Terror do Sertão conhecia bem esse sentimento e sabia explorá-lo como poucos. Usava o pavor como ferramenta e, assim, conseguia sem esforço realizar suas chamadas “coletas”, receber “doações” e até obter “empréstimos”, tudo sem resistência. Na realidade, essas coletas, doações e empréstimos nada mais eram do que roubos e extorsões praticados de forma descarada, mas envoltos em um discurso quase cínico. Silvino ainda fazia questão de afirmar que não agia por gosto, mas por necessidade, alegando que o governo não lhe permitia trabalhar. Um argumento que, repetido tantas vezes, acabou encontrando eco em parte da sociedade. O mais impressionante é que esse mesmo homem, responsável por espalhar medo e violência, foi alçado por cordelistas e por setores da imprensa à condição de herói, chegando até a ser tratado como uma espécie de chefe de Estado. E, de certo modo, era mesmo: um rei, sim, mas soberano de um reino construído à base do terror. Um exemplo emblemático foi o ocorrido no povoado de São Vicente Ferrer, em Pernambuco. Ali, Antônio Silvino foi recebido com banda de música, festas e honrarias oferecidas pelos poderosos locais. Curiosamente, pouco tempo antes, o bispo de Olinda, autoridade máxima da Igreja na região, à qual o povoado pertencia, então chamado apenas de São Vicente, havia passado por ali sem receber nem de longe o mesmo tratamento. A pompa reservada ao cangaceiro dizia muito sobre o poder que ele exercia. Cenas como essa se repetiram em diversos outros pontos dos quatro estados por onde Antônio Silvino mais andou. E, para encerrar este relato, não se pode deixar de mencionar suas famosas macacas. Uma delas era conhecida como “560”, feita de couro cru, com nós nas pontas. Silvino, rindo, dizia que servia para “dar banho em gente ruim”. A outra, mais elaborada, bem trabalhada em couro e enfeitada com fitas coloridas, era usada para “enrolar gente boa”. No fim das contas, a verdade era uma só: todo mundo apanhava, fosse bom ou ruim. E ainda há a curiosa história da famosa macaca batizada de Rosa e Silva, uma homenagem ao senador pelo estado de Pernambuco Francisco de Assis Rosa e Silva. Não me perguntem agora qual foi o motivo dessa escolha, pois talvez nem o próprio Silvino soubesse explicar direito. Como dizia o eterno Tom Jobim: O Brasil não é para amadores! 

Até o próximo texto sobre Antônio Silvino. 

Autor: Julierme do Nascimento Wanderley

CRIANÇAS X PETS

 

CRIANÇAS X PETS



Até que enfim achei alguém que tem o mesmo pensamento sobre o assunto, igual ao meu. Vivo pelo meio do mundo, proclamando a desvalorização do ser humano em detrimento aos animais de estimação.       

            Movimento de proteção aos animais sensibilizam muitos segmentos da sociedade, no entanto, incontáveis pessoas permanecem indiferentes a milhões de crianças, anciãos e enfermos que morrem de fome cada ano, não por falta de alimento que o planeta fornece, mas por ausência total de compaixão e de solidariedade.

 Extraído do livro Transição Planetária de Manoel Fhilomeno de Miranda (espírito) e psicografado por Divaldo Franco.

            Vamos ver outras opiniões sobre esse triste tema.

            Visão geral criada por IA

            A tendência de preferir animais de estimação em vez de crianças é um fenômeno global, com jovens adultos optando por pets devido à busca por liberdade, estabilidade financeira e a sensação de companhia sem as grandes responsabilidades da parentalidade humana, transformando-os em "filhos de estimação", enquanto estudos sugerem que, para alguns, os pets podem ser um "passo prévio" para a paternidade, avaliando a capacidade de cuidar.

            Por Que Essa Tendência Acontece?

             Sociais e Econômicas: Menor pressão social para casar e ter filhos, preocupações econômicas e busca por flexibilidade na carreira.

            Benefícios Emocionais: Pets proporcionam companhia, amor incondicional e reduzem estresse, liberando ocitocina e melhorando o bem-estar, sem as demandas de um filho humano.

            Humanização dos Pets: Animais são cada vez mais vistos como membros da família, recebendo cuidados e mimos semelhantes aos de crianças, com produtos e serviços pet-friendly crescendo no mercado. "Filhos de Estimação" ou "Filhos de Prática"?

            Maternidade Não Convencional: Mulheres e casais veem os pets como uma forma de exercer o instinto de cuidar, como a veterinária Raiane Mantovani.

            Teste para a Paternidade: Um estudo sugere que cuidar de um cão pode ser um "efeito filho de prática", onde a experiência positiva aumenta a confiança para ter filhos humanos.

             Diferente: Pets oferecem um amor constante e uma presença que, para alguns, é mais duradoura que a de filhos que crescem e saem de casa, diz UOL Notícias.

Implicações Sociais

            Famílias Multiespécies: Casais com dupla renda (DINKWAD - Double Income, No Kids, With a Dog) adotam cães como foco central da família, sendo uma realidade crescente em cidades como Tóquio, Milão e Los Angeles, e também no Brasil e Argentina, observa Globo.

            Aumento da População Pet: O Brasil tem uma das maiores populações de pets do mundo, superando a população de crianças pequenas, e com uma demanda por produtos e serviços cada vez maior, segundo o UOL Notícias.

            Em Resumo: A escolha por pets em vez de filhos reflete uma mudança cultural, onde animais preenchem o papel de companheiros e "filhos", oferecendo afeto e satisfazendo a necessidade de cuidar, embora alguns estudos sugiram que essa experiência possa, paradoxalmente, preparar para a paternidade humana, segundo a Terra.

            Os animais de estimação estão substituindo os filhos? Um estudo sugere justamente o contrário

            Não é renúncia, é espera: o animal de estimação é sintoma de uma estabilidade econômica que não chega

            Recentemente, a onda de cachorros transportados em carrinhos de bebê tomou conta de espaços públicos, como shoppings e parques. Essa imagem se tornou símbolo de algo mais profundo: a sensação de que, em sociedades envelhecidas, os animais de estimação estão ocupando um lugar que antes pertencia aos filhos.

            Mas e se essa leitura estiver incompleta — ou diretamente errada? E se, longe de substituir os filhos, os pets estiverem desempenhando outro papel na vida familiar? Um novo estudo acadêmico põe em dúvida uma crença amplamente difundida.

            Para começar, os números ajudam a entender por que essa suspeita se instalou no debate público. Na Espanha, segundo a Rede Espanhola de Identificação de Animais de Companhia (REIAC), em 2023, havia mais de dez milhões de cães registrados, contra menos de dois milhões de crianças de 0 a 4 anos. Uma diferença tão grande que convida, quase automaticamente, a pensar em uma substituição dentro dos lares.

            Cenas que chegam de fora reforçam essa impressão. A Coreia do Sul cruzou um limiar simbólico: já se vendem mais carrinhos para cães do que para bebês. Não é exagero, é o reflexo estatístico de um país em emergência demográfica. A tendência pegou tanto que até a fé se adaptou. Em templos japoneses como o de Ichigaya Kamegaoka, o ritual milenar do Shichi-Go-San — antes exclusivo para crianças — passou a se encher de focinhos e coleiras. Na falta de crianças, os santuários abençoam animais de estimação para evitar que suas liturgias fiquem sem protagonistas.

            O Japão está ficando sem crianças, então os cachorros estão assumindo seu lugar nos rituais

            Sobre esse pano de fundo, proliferaram interpretações políticas e morais. Em 2022, o Papa Francisco classificou como “egoístas” aqueles que preferem ter animais em vez de filhos. Na Coreia do Sul, o então ministro do Trabalho, Kim Moon-soo, chegou a afirmar que os jovens “amam seus cães” em vez de formar famílias. Um diagnóstico forte, mas que se baseava mais em símbolos e percepções culturais do que em dados verificados.

            A ideia de que os animais de estimação substituem os filhos acaba de ser desmentida pela pesquisa acadêmica. O estudo Cats, Dogs, and Babies, liderado pelos pesquisadores Kuan-Ming Chen e Ming-Jen Lin, da Universidade Nacional de Taiwan, analisou por mais de uma década o comportamento de milhões de lares.

            A pesquisa chegou à conclusão de que pessoas que adotam um cachorro têm até 33% mais probabilidade de ter um filho do que aquelas que não o fazem. Longe de deslocar a paternidade, o animal parece atuar como um passo prévio. É o que os autores chamam de “efeito filho de prática”. Segundo Chen e Lin, muitos casais usam a experiência de cuidar de um cachorro para avaliar sua disposição de assumir responsabilidades — rotinas, gastos e vínculos afetivos. Se a experiência é positiva, aumenta a confiança para dar o próximo passo rumo à paternidade humana.

             Entanto, não há uma mudança à vista. Nem o estudo taiwanês nem os especialistas que analisam o inverno demográfico sustentam que o aumento de animais de estimação vá se traduzir, por si só, em uma recuperação da natalidade. O próprio trabalho acadêmico alerta que se trata de uma análise centrada em um país específico e que os padrões podem variar conforme o contexto cultural, econômico e social.

            O estudo não propõe os animais de estimação como resposta ao declínio demográfico, mas como uma pista sobre como hoje se adiam as decisões de cuidado em um contexto de incerteza econômica e existencial. A queda da natalidade responde a fatores estruturais amplamente documentados: precariedade no trabalho, encarecimento da moradia, dificuldades de conciliação, atraso na saída da casa dos pais e uma maternidade cada vez mais tardia. Nesse cenário, os pets não substituem os filhos; ocupam o espaço deixado por um projeto de vida adiado.

            Japão encontrou o número ideal de filhos por mulher para evitar a extinção demográfica: dois terços do planeta estão muito longe disso

            Por isso, a imagem do cachorro no carrinho resume bem essa ambiguidade. Como explica o Dr. Jerry Klein, veterinário-chefe do American Kennel Club, esses carrinhos podem ter uma função prática em certos casos: “Oferecem a cães idosos, com artrite ou problemas de mobilidade, uma forma de aproveitar o ar livre sem se esforçar”. Plataformas veterinárias como Dialvet e ToeGrips concordam que eles podem ajudar a proteger as patas do asfalto quente ou auxiliar cães pequenos que não conseguem acompanhar longas caminhadas.

            No entanto, outros especialistas pedem cautela. Carlos Carrasco, da DOS Adiestramiento, alerta que “um cachorro não é uma criança com pelos” e que levar um animal saudável em um carrinho pode ser uma “humilhação” que o desnatura. Na mesma linha, a etóloga Isabel Jiménez, diretora da La Manada de Iris, afirma na IM Veterinária que a humanização excessiva “anula o cachorro como espécie e o adoece emocionalmente”. Um estudo publicado na revista Animals (MDPI) reforça essa ideia, alertando que o antropomorfismo pode gerar ansiedade e estresse no animal ao não respeitar suas necessidades biológicas básicas, como farejar e caminhar.

            Por fim, o auge dos animais de estimação não explica por si só o inverno demográfico, mas revela como as formas de afeto e responsabilidade estão sendo reconfiguradas em sociedades onde ter filhos se tornou mais complexo. O estudo taiwanês não oferece soluções milagrosas, mas traz um alerta claro: colocar pets e filhos como se fossem opções excludentes simplifica demais uma realidade muito mais matizada.

https://www.xataka.com.br/ciencia/os-animais-estimacao-estao-substituindo-os-filhos-um-estudo-sugere-justamente-contrario




quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

VANDALISMO

 

O MAIOR POETA DO MUNDO

 

VANDALISMO

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas,
Cintilações de lâmpadas suspensas,
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais,
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos…

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a Imagem dos meus próprios sonhos!

Pau d'Arco – 1904.
Augusto dos Anjos
            Vamos ver o que a inteligência artificial tem a dizer desse poema, considerado um dos mais belos e significativos, que uma mente humana pode externar um sentimento em tão poucas palavras...

            "Vandalismo" é um famoso poema de Augusto dos Anjos, inserido no Pré-Modernismo, que descreve a destruição de ideais e sentimentos puros (as "catedrais" e "sonhos") por uma força avassaladora, como a paixão ou o desejo, personificada por um "nume de amor" que se torna um "iconoclasta", quebrando suas próprias ilusões e confraternizando com a realidade cruel e desiludida, refletindo a complexidade da alma humana e a desilusão.

Resumo do Poema:

            As Catedrais Internas: O eu lírico descreve seu coração como catedrais imensas, cheias de crenças e luzes, um lugar de amor e pureza.

            A Entrada do Vandalismo: Ele entra nesses templos como um Templário medieval, com espadas (gládios) e lanças, um ato de destruição iconoclasta.

A Destruição dos Sonhos: Ele quebra as imagens dos próprios sonhos, representando a ruptura com o idealismo e a aceitação de uma realidade mais sombria e visceral.

            Conflito Interno: O poema explora o conflito entre o amor idealizado e a paixão arrebatadora, onde o desejo destrói a pureza, e o eu lírico se torna o agente dessa própria destruição, um ato de auto-vandalismo.”

            Agora vamos ouvi o Chico Viana, professor e doutor em letras, com tese sobre o poeta.

            Vandalismo” é o único poema com características simbolistas que aparece no “Eu”. Os outros o poeta deixou de lado, e os críticos hoje lhe dão razão: embora tecnicamente bem-feitos, eles pouco acrescentam à obra do paraibano. Refletem uma temática comum à época e apresentam um estoque de imagens que estão longe de caracterizar o Augusto dos Anjos que viríamos a conhecer e admirar.

            O tema de “Vandalismo” é a perda da crença. É a “mágoa” subsequente ao desencanto que a descrença traz. Lembremos os versos, muito conhecidos por sinal:
            O soneto reflete um estado de espírito típico do final do século 19, quando as ideias científicas advindas do Positivismo ameaçavam os anseios de transcendência e espiritualidade. Augusto voltaria a tema semelhante em “A ilha de Cipango”, mas com uma dicção pré-moderna.

            Por que o poeta manteve “Vandalismo” no “Eu” apesar do seu claro acento simbolista, que se evidencia no léxico raro, precioso, próximo da “estética da sugestão”? Esse léxico, afinal, está muito distante do vocabulário prosaico e “científico” que lhe permeia a obra.

            Talvez a escolha tenha mesmo um valor... simbólico. Se “Monólogo de uma Sombra” antecipa alguns dos temas caros ao poeta (como a culpa melancólica, a contestação do Positivismo e a rejeição à sexualidade), “Vandalismo” é um momento de ruptura. Há também nele, graças sobretudo à força das aliterações, uma rispidez expressionista que vai se constituir numa das marcas do seu estilo. Uma rispidez que faz lembrar a “poética por estampidos” apontada por Manuel Bandeira.
            A iconoclastia que o eu lírico refere no último terceiro se reforça, fonicamente, nos “gládios” e “hastas” que se “erguem” para destruir um ideal. Um ideal não religioso, mas estético, representado pela concepção da poesia como pura música, evanescência que tranquiliza o espírito.

            Os versos do último terceto constituem uma antítese à estrofe imediatamente anterior, na qual se fala em “templos claros risonhos”, e soam como o anúncio de uma nova opção estética. Uma opção que fará com que no “Eu” prevaleça não a claridade, mas a Sombra. E se nele algum riso houver, será de ironia ou sarcasmo.

 

 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

COMER CARNEIRO COM RESPONSABILIDADE

 

COMER CARNEIRO, COM RESPONSABILIDADE

 

                      João José da Silva Carneiro, vulgo João Ligeirinho, era homem do eito, trabalhava em tudo que aparecesse fosse onde fosse. Não tinha lugar certo para viver. Dizia – que o mundo era sua casa. Já caminhava para os trinta anos e dez convivência com Maria Vitória, mulher parideira das boas, nunca perdeu um amarelinho, como chamava seus rebentos. Nos dez anos de amancebamento tinha colocado no mundo onze crianças, saudáveis, bonitas e da cor do sertão na seca braba, tudo acinzentado. Era uma danada para saber tirar leite de pedra e fazer uma boa alimentação para seus nazarenos. Eram umas máquinas para trabalhar sem descanso. Ele no meio do mundo trazendo o de-comer e ela nos afazeres domésticos em benefícios da grande prole sempre limpas, coradas, bem vestidas e educadas. Mãe exemplar.

                      João Ligeirinho, a outra parte da engrenagem, era a peça mágica para que tudo isso pudesse acontecer. Trabalhava sem pantim, fazia o diabo a quatro para os bichinhos não passarem necessidades. Não fumava, não bebia e não jogava, o dinheiro suado não dava para enganação.  

                      Um dia o destino o chamou para as bandas dos engenhos e dos coronéis. Tudo verde e se chovia, tinha trabalho e fartura. Danou-se de estrada a fora com sua cambada de meninos e sua velha companheira. De banda levava um jumento com suas tralhas e um cachorro a tira colo, bom todo na caça, cada latido avisava qual bicho estava acuando.

                      Estrada demorada, parecia que o destino lhe engana, mas quase sem esperar aparece lá no finzinho do poente uma porteira pintada de azul e em cima num portal a inscrição - Engenho Carga D’Água. Não pesou duas vezes, emburacou sem medo nas terras estranhas, sempre fora desaforado.

                      - Menino meu não passa fome!

                      Andou um bom pedaço, meio receoso, mas confiante no Padim Cíço, foi em frente até que se descortinou numa curva um casarão pintado todo de branco com portas e janelas pintadas de um azul celeste.

                      - Casa de gente importante pensou, Deve ser coronel.

                      Ninguém nos aceiros e nem na casa. Um silencio danado. Hora da madorna dos ricos e pobres não devia se atrever a perturbar. Arreou seus mangaios debaixo de uma quixabeira e cautelosamente se acomodaram na sombra, a espera que aparecesse algum vivente.

                     De repente, ouviu-se um tinido repetidamente, vindo da casa. Ligeirinho levantou a cabeça e avistou um homem vestido de terno branco, chapéu tipo Panama esparramado na cabeça branca, batendo num pedaço de trilho no alto da varanda.

                      O coronel vendo aquela arrumação, debaixo da quixabeira, mandou seu Aprígio saber do que se travava.

                      - Coronel, é um povo de fora, muita gente, família grande e quer trabalho, pelo visto, são do eito.

                      - Volte e traga o cabra, conheço gente pelo cheiro e pelo pisar no chão, se presta ou se não vale um peido de uma gata.

                      - Bom dia coronel, entrei sem permissão nas suas terras, por atrevimento de uma família atrás de trabalho para não ver os meninos chorando com fome, coisa muito triste de se ver. Mas se mandar volto em cima da bucha pra trás.

                      - Vem de onde, gosta de trabalhar com quê?

                      - Cidadão pra dizer a verdade, sou de todo canto, faço de um tudo, menos roubar e matar um cristão.

                      - Pois bem, estou precisando de gente para um adjutório nas novas roças. Aprígio vai levar vocês para se arrancharem lá no cercado dos Angicos, casa aconchegante. Converse com ele das suas precisões. Passe no barracão e pegue o necessário para começar.

                      O tempo foi andando sem cobrar juros e nem dar prazo. A luta no campo não para, é um core corre da gota serena.

                      Se João José pudesse perguntar como faria para parar o tempo ao Platão ele diria “tempo é uma cópia imperfeita e fluida do mundo eterno e imóvel das Ideias, um receptáculo vazio, para os eventos”; ao  Aristóteles seria assim: “O tempo não é o movimento em si, mas sua medida, a quantidade de antes e depois nos eventos, exigindo uma mente que possa mensurar”; ao Heráclito, falaria desse jeito: “Uma força dinâmica de constante mudança e impermanência, onde tudo flui"; Kant responderia mais ou menos assim: “O tempo é uma intuição pura da nossa sensibilidade, uma estrutura mental que organiza as experiências, não algo em si fora de nós”; O Leibniz afirmaria categoricamente que: “tempo não existe independentemente dos fenômenos; é a ordem sucessiva das coisas e sua mensuração depende do referencial do observador, como na Teoria da Relatividade”; Já Zé Cachorro, sorrindo falava que “Todos os momentos (passado, presente e futuro) são igualmente reais, e o fluxo do tempo é uma ilusão ou projeção da consciência, não uma propriedade fundamental da realidade”.

                      - O que tá pensando Joca, - perguntou sua mulher.

                      - Pensando besteiras e como poderia parar o tempo, bicho danado que não espera por ninguém e aguardando que o jumento do coronel diga o tempo de me levantar e cair no mundo, pois o galo de campina já avisou que passa das cinco da manhã. Correr atrás do de-comer dos meninos.

                      O tempo foi passando e os meses correndo até que um dia...

                      - Bom dia coronel – falou o capataz Aprígio.

                      - O que foi que houve para vir dar bom dia tão cedo?

                      - Não queria nem dizer, mas se é pra falar vou contar. Os carneiros gordos do senhor estão desaparecendo, só os mais gordos. Faz dias que desconfio e andei no rastro e nada. Nem sinal. Nada de nada. É como tivessem se envultados.

                      - Bando de cabras safados e molengas, como já se viu, carneiro não voa e nem se encanta. Vou cuspir no chão para vocês descobrirem o furto dos meus bichinhos.

                      Não deu outra. A cambada caiu em campo dia e noite e nada. Chamaram um rastejador vizinho e com três dias, desencantou o mistério.

                      - Boa noite patrão, trago notícias dos carneirinhos desaparecidos.

                      - Diga logo homem, estou sem dormi há dias com saudades dos meu estimados animais.

                      - Foram comidos pelo João José, o amarelo lá do sertão.

                      - Não acredito. Vão buscar imediatamente esse desaforado, traga de todo jeito.

                      - Pronto coronel, o homem veio sem arrodeio.

                      - Subam e sente ele nessa espreguiçadeira e não saiam de perto.

                      - Hermenegilda, traga a macaca de couro cru que está atras da porta da sala.

                      - Mas homem, fiz tudo por você e sua família e vosmecê apronta essa comigo, onde você estava com a cabeça, pra fazer uma desgraça dessa, você é doido ou tem um irmão que comer bosta. Chegou com essa carinha de besta, inocente se fazendo de sonso, coberto com uma manta de cordeiro, mas debaixo era uma raposa doida de atirar pedra. Veio do inferno das cuias desaforar um coronel, fazendeiro, honesto, respeitador da ordem, religioso, bom pagador do que deve, mas, contudo, não guardo desaforo de fela da puta nenhum.

                      Tá vendo essa macaca aqui, nunca negou fogo. É melhor do que muitos padres, pois na confissão o cabra conta tudo direitinho, o que não fez, o que fez e o que ia fazer.

                      Vou pedir uma explicação, mesmo sabendo que não tem, do absurdo que você fez na minha cara e diante desse magote de cabra mole que vive as minhas custas e não vê um safado comer meus melhores animais como num passe de mágica.

                     - Primeiramente coronel, bom dia para o senhor e sua dignifica família. Sou analfabeto de pai e de mãe. Estou errado como o senhor mesmo falou. Mas tem uma coisa, que não vai explicar e nem me defender dos meus erros.

                     - A fome doutor é um bicho que não espera, tem pressa, provoca uma agonia danada no cabra, tira toda vontade de trabalhar, a preguiça toma conta da gente, os pensamentos na cachola só levam para o ruim da vida, menino chorando por falta de comida, doutor, dói demais. Ver o fogo acesso e nada nas panelas, até as lombrigas arengam dentro das tripas dos meninos, coisa triste seu coronel. Que Deus, Nosso Senhor e as Onze Mil Virgens nunca permita que isso aconteça na sua santa família.

                     O dinheiro da semana trabalhada fica todo no barracão, por mais que a gente se limite, no feijãozinho de corda, farinha, rapadura para adoçar o café, milho para o cuscuz, não sobra para a carne ou peixe salgado. É triste a gente ver onze meninos seminu choramingar todos os dias pela mistura que nunca chega. É melhor morrer na faca peixeira, no cassete, numa picada de cobra, duma caganeira, de uma doença braba, de vergonha do que morrer de fome.

                     - Toinho, meu filho mais taludinho, olhou pra mim um dia desse e falou, pai – pia os urubus comendo carne daquele carneiro que a cobra matou, porque a gente também não come? Quase chorei de dor coronel.

                     - Deixe de converseira besta, de lenga, lenga e confesse como era feito o furto, coisa que ninguém desconfiava; não pense que vai se livrar da Maria Bonita, toda ensebada e com saudade de trabalhar no espinhaço de ladrão.

                     - Noite triste sem lua e mais um dia a gente ia dormir desconsolados com o bucho oco. Danei-me com os meninos mais crescidos para o curral de cima. Coisa que sabia que era o satanás que mandava fazer uma asneira dessa. Entramos com muito cuidado para não espantar os pobrezinhos que estavam sossegados. Cercamos o primeiro que tava no meio do rebanho, era o mais pesado por sinal.  Jogamos uma toalha velha na cabeça e caímos todos em cima dele, até o bicho não se mexer mais. Levamos para casa, tiramos o couro e enterramos dentro do quarto junto com os miúdos, cabeça e as patas.

                     - Cabra velho safado, como teve a audácia de fazer um desmantelo desse dentro da minha fazenda centenária, nunca antes desmoralizada. Vem agora um amarelo safado do meio do mundo, ensinar como se furta.

                     - Zequinha levante esse danado, amarre as mãos e os pés e o prepare para apanhar até pagar todos os quilos dos meus sevados carneiros. Faça a conta de quantos bichos ele devorou e transforme em quilos. Cada quilo é uma lamborada com vontade, dessa que levante o lombo. Guardando meus carneiros para comer nos meus oitenta e três anos e vem esse desaforado e me tira o gosto da boca.

                     Outra coisa que não entendi ainda, seu salafrário, cabra de peia, descomungado, patife, velhaco, tratante, vigarista, canalha, ordinário. Como foi que você comeu meus carneiros?

                     - Homem de Deus, a gente fazia um foguinho com madeira de angico, para não mostrar fumaça, depois que o mundo tivesse calado, assava o danadinho e comia os pedacinhos com farinha; nunca mais os meninos dormiram com fome.

                     - Cabra de coragem, se você tivesse comido meus carneiros cozidos ou de outro jeito, ia apanhar até dizer basta. Solte o homem ele sabe realmente como se come carne de carneiro.

         

Campina Grande, 22/12/2025

Grijalva