terça-feira, 7 de julho de 2026

MEU TCC APROVADO EM AGRONOMIA

SOLOS DO CARIRI PARAIBANO: CARACTERÍSTICAS, LIMITAÇÕES E POTENCIALIDADES PARA O USO AGRÍCOLA NO SEMIÁRIDO

 

Grijalva Maracajá Henriques 1; Marcos Alves de Magalhães 2

1 Acadêmico do curso de Engenharia Agronômica do Centro Universitário de Caratinga – UNEC

2 Professor do UNEC

 

RESUMO

Os solos do Cariri Paraibano desempenham papel fundamental no desenvolvimento das atividades agropecuárias da região, especialmente no contexto do semiárido brasileiro, onde as limitações edafoclimáticas influenciam diretamente a produtividade agrícola. Este estudo teve como objetivo sistematizar o conhecimento científico sobre as características, limitações e potencialidades dos solos do Cariri Paraibano para o uso agrícola. A pesquisa foi desenvolvida por meio de revisão bibliográfica de natureza qualitativa, com abordagem analítica e sistematizada, utilizando artigos científicos, dissertações e publicações técnicas disponíveis em bases como SciELO, Portal de Periódicos CAPES e EMBRAPA. Os resultados evidenciaram o predomínio de classes de solos como Neossolos, Cambissolos e Luvissolos, caracterizados, em geral, por baixa profundidade efetiva, reduzido teor de matéria orgânica, limitações de fertilidade e suscetibilidade à erosão. Verificou-se ainda que fatores como clima semiárido, relevo e material de origem condicionam a variabilidade espacial dos atributos físicos, químicos e morfológicos desses solos. A literatura consultada destaca que práticas inadequadas de manejo podem intensificar processos de degradação, enquanto estratégias conservacionistas, como cobertura vegetal, plantio em nível, rotação de culturas e manejo adequado da matéria orgânica, contribuem para a manutenção da qualidade do solo e para a sustentabilidade dos sistemas produtivos. Conclui-se que o uso agrícola sustentável dos solos do Cariri Paraibano depende da integração entre conhecimento técnico-científico e práticas de manejo adaptadas às condições ambientais da região, sendo fundamental para a conservação dos recursos naturais e para o fortalecimento da agricultura familiar no semiárido.

Palavras-chave: Solos do Cariri Paraibano; Semiárido; Uso agrícola; Manejo e conservação do solo; Agricultura familiar.

ABSTRACT

The soils of the Cariri Paraibano region play a fundamental role in the development of agricultural activities, especially within the Brazilian semi-arid environment, where edaphoclimatic constraints directly affect agricultural productivity. This study aimed to systematize the scientific knowledge regarding the characteristics, limitations, and potentialities of the soils of the Cariri Paraibano for agricultural use. The research was conducted through a qualitative and analytical literature review, based on scientific articles, dissertations, and technical publications available in databases such as SciELO, CAPES Journals Portal, and EMBRAPA. The results revealed the predominance of soil classes such as Entisols (Neossolos), Inceptisols (Cambissolos), and Luvisols (Luvissolos), which are generally characterized by shallow depth, low organic matter content, fertility limitations, and high susceptibility to erosion. Furthermore, factors such as the semi-arid climate, relief, and parent material were identified as key determinants of the spatial variability of the physical, chemical, and morphological properties of these soils. The reviewed literature indicates that inadequate management practices may intensify degradation processes, whereas conservation strategies such as permanent soil cover, contour farming, crop rotation, and proper organic matter management contribute to maintaining soil quality and promoting the sustainability of agricultural systems. It is concluded that the sustainable agricultural use of the soils of the Cariri Paraibano depends on the integration of technical and scientific knowledge with management practices adapted to local environmental conditions, being essential for the conservation of natural resources and the strengthening of family farming in the semi-arid region.

Keywords: Cariri Paraibano soils; Semi-arid region; Agricultural use; Soil management and conservation; Family farming.

1. INTRODUÇÃO

Os solos constituem um dos principais recursos naturais para o desenvolvimento das atividades agropecuárias, desempenhando papel fundamental na produção de alimentos, na regulação ambiental e na sustentabilidade dos sistemas agrícolas (LEPSCH, 2011). Em regiões semiáridas, como o Nordeste brasileiro, o conhecimento das características do solo torna-se ainda mais relevante, uma vez que as condições edafoclimáticas, marcadas por baixa disponibilidade hídrica e alta variabilidade climática, impõem limitações significativas ao uso agrícola (FAO, 2015).

Nesse contexto, o Cariri Paraibano destaca-se como uma região inserida no semiárido, caracterizada por condições ambientais específicas que influenciam diretamente a dinâmica dos solos e as práticas agrícolas. De modo geral, os solos dessa região apresentam limitações naturais, como baixa profundidade, pedregosidade, restrições de fertilidade e suscetibilidade à degradação, fatores que exigem estratégias adequadas de manejo e conservação para garantir a sustentabilidade produtiva (ARAUJO FILHO et al., 2020; CAVALCANTE, 2023; EMBRAPA, 2014).

Apesar dessas limitações, os solos do Cariri Paraibano são amplamente utilizados em atividades agropecuárias, especialmente no âmbito da agricultura familiar, desempenhando papel relevante na subsistência das populações locais e na economia regional. No entanto, as informações científicas sobre esses solos encontram-se dispersas em diferentes estudos, muitas vezes abordando aspectos isolados, o que dificulta a construção de uma visão integrada sobre suas características, potencialidades e restrições ao uso agrícola (CAVALCANTE, 2023; SARAIVA et al., 2020).

Diante desse cenário, emerge a seguinte questão de pesquisa: como o conhecimento científico disponível sobre os solos do Cariri Paraibano pode ser sistematizado, de forma a subsidiar o uso agrícola em condições de semiárido? A ausência dessa sistematização pode contribuir para a adoção de práticas inadequadas de manejo, intensificando processos de degradação e comprometendo a sustentabilidade dos sistemas produtivos.

Nesse sentido, a realização de uma revisão bibliográfica se justifica pela necessidade de estudos de revisão, capazes de integrar e sistematizar o conhecimento disponível sobre a região (GONÇALVES, 2019), reunindo, analisando e integrando os estudos existentes sobre os solos da região, possibilitando uma compreensão mais abrangente de suas características e limitações.

Além disso, a sistematização dessas informações contribuiu para a identificação de práticas de manejo mais adequadas às condições locais.

Assim, o presente estudo teve como objetivo sistematizar o conhecimento científico sobre os solos do Cariri Paraibano, com ênfase em suas características, limitações e implicações para o uso agrícola no contexto do semiárido.

2. OBJETIVO

2.1 Objetivo Geral

Sistematizar, por meio de revisão bibliográfica, o conhecimento científico que aborda as características e limitações dos solos do Cariri Paraibano, com enfoque no uso agrícola em condições de semiárido.

2.2 Objetivos Específicos

·         Identificar, na literatura científica, os principais estudos que tratam dos solos do Cariri Paraibano;

·         Caracterizar, com base nesses estudos, as principais classes de solos presentes na região;

·         Descrever as características físicas, químicas e morfológicas dos solos do Cariri Paraibano relacionadas ao uso agrícola;

·         Analisar as limitações e as práticas de manejo e conservação do solo indicadas para as condições do semiárido no Cariri Paraibano.

3. JUSTIFICATIVA

O Cariri Paraibano está inserido em uma das regiões mais representativas do semiárido brasileiro, onde as condições climáticas e edáficas exercem forte influência sobre a produção agropecuária. Nesse contexto, o solo constitui um recurso natural estratégico para a manutenção das atividades agrícolas, especialmente da agricultura familiar, que desempenha papel fundamental na geração de renda, na produção de alimentos e na permanência das populações no meio rural (IBGE, 2017).

Entretanto, os solos da região apresentam limitações naturais que restringem seu potencial produtivo, destacando-se a baixa profundidade efetiva, a reduzida disponibilidade hídrica, as restrições de fertilidade e a suscetibilidade aos processos de degradação. Tais características exigem o emprego de práticas adequadas de manejo e conservação, visando à manutenção da qualidade do solo e à sustentabilidade dos sistemas produtivos (RESENDE et al., 2014; LEPSCH, 2011; EMBRAPA, 2014).

Embora existam diversos estudos sobre os solos do semiárido nordestino, as informações referentes ao Cariri Paraibano encontram-se dispersas em diferentes publicações, abordando aspectos específicos da pedologia, da relação solo-paisagem e do uso agrícola. Essa fragmentação dificulta a compreensão integrada das características, limitações e potencialidades dos solos da região, reduzindo a disponibilidade de informações sistematizadas que possam subsidiar ações de manejo e planejamento agrícola (CAVALCANTE, 2023; SARAIVA et al., 2020).

Dessa forma, justifica-se a realização desta revisão bibliográfica, cuja finalidade é reunir, organizar e analisar criticamente o conhecimento científico disponível sobre os solos do Cariri Paraibano. A sistematização dessas informações poderá contribuir para a compreensão das condições edáficas da região, subsidiar práticas de manejo mais adequadas ao ambiente semiárido e servir de base para futuras pesquisas relacionadas ao uso sustentável dos recursos naturais (GONÇALVES, 2019).

4. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

4.1 O Semiárido Brasileiro e o Cariri Paraibano

O semiárido brasileiro ocupa grande parte da região Nordeste e caracteriza-se por apresentar precipitações irregulares, elevadas taxas de evapotranspiração e frequentes períodos de estiagem. Essas condições influenciam diretamente os processos de formação dos solos, a disponibilidade hídrica e o desenvolvimento das atividades agropecuárias (FAO, 2015; EMBRAPA, 2023). O Cariri Paraibano está inserido nesse contexto ambiental e apresenta características climáticas e geomorfológicas particulares que condicionam a distribuição e a evolução dos solos. A combinação entre clima semiárido, relevo e material de origem resulta em elevada variabilidade pedológica, influenciando a aptidão agrícola e as estratégias de manejo adotadas na região (CAVALCANTE, 2023).

4.2 Formação e Classificação dos Solos

O solo é um corpo natural resultante da interação entre clima, organismos, relevo, material de origem e tempo. Esses fatores atuam conjuntamente nos processos pedogenéticos responsáveis pela formação e diferenciação dos solos (LEPSCH, 2011). No Brasil, a classificação dos solos é realizada por meio do Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (SiBCS), desenvolvido pela EMBRAPA. Esse sistema permite identificar e caracterizar as diferentes classes de solos a partir de atributos morfológicos, físicos, químicos e mineralógicos (EMBRAPA, 2023). No Cariri Paraibano predominam classes como Neossolos, Cambissolos e Luvissolos, cuja ocorrência está relacionada às condições climáticas e geológicas da região. Essas classes apresentam diferentes potenciais e limitações para o uso agrícola (SARAIVA et al., 2020; CAVALCANTE, 2023).

4.3 Principais Classes de Solos do Cariri Paraibano

Os Neossolos constituem uma das classes mais representativas da região, caracterizando-se pelo reduzido desenvolvimento pedogenético, pequena profundidade efetiva e frequente presença de fragmentos rochosos. Essas características limitam o armazenamento de água e o desenvolvimento radicular das culturas agrícolas (EMBRAPA, 2023). Os Cambissolos apresentam estágio intermediário de desenvolvimento, maior profundidade em relação aos Neossolos e potencial agrícola moderado, embora ainda apresentem limitações relacionadas à fertilidade e à susceptibilidade à erosão (RESENDE et al., 2014). Os Luvissolos destacam-se por apresentarem maior fertilidade natural e maior saturação por bases, sendo considerados importantes para a agricultura regional. Entretanto, podem apresentar limitações relacionadas à profundidade efetiva e à susceptibilidade à erosão quando submetidos a manejo inadequado (ARAUJO FILHO et al., 2020).

4.4 Características Físicas, Químicas e Morfológicas dos Solos

As propriedades físicas do solo influenciam diretamente a infiltração de água, a retenção de umidade e o desenvolvimento das raízes. Entre os principais atributos físicos destacam-se textura, estrutura, densidade e porosidade (LEPSCH, 2011). As propriedades químicas relacionam-se à fertilidade do solo e à disponibilidade de nutrientes para as plantas. Em ambientes semiáridos, é comum a ocorrência de baixos teores de matéria orgânica e limitações nutricionais que exigem práticas adequadas de correção e adubação (RESENDE et al., 2014). As características morfológicas compreendem aspectos observados diretamente no perfil do solo, como profundidade, cor, espessura dos horizontes e presença de material rochoso. Esses atributos auxiliam na interpretação do comportamento dos solos e de sua aptidão agrícola (EMBRAPA, 2023).

4.5 Limitações dos Solos para o Uso Agrícola no Semiárido

 Os solos do semiárido apresentam limitações relacionadas à baixa disponibilidade hídrica, reduzida profundidade efetiva, baixa fertilidade natural e elevada vulnerabilidade aos processos erosivos. Essas restrições podem comprometer a produtividade agrícola e favorecer processos de degradação ambiental quando não são adotadas práticas adequadas de manejo (FAO, 2015; EMBRAPA, 2014). Além disso, a remoção da cobertura vegetal e o uso intensivo do solo contribuem para a perda de matéria orgânica, compactação e desertificação em áreas mais vulneráveis do semiárido nordestino (SILVA et al., 2020).

4.6 Manejo e Conservação dos Solos no Semiárido

A adoção de práticas conservacionistas é fundamental para a sustentabilidade dos sistemas agrícolas em regiões semiáridas. Entre as principais estratégias destacam-se a manutenção da cobertura vegetal, o plantio em nível, a rotação de culturas, o uso de adubação orgânica e o manejo adequado dos recursos hídricos (LEPSCH, 2011). Estudos desenvolvidos no semiárido paraibano demonstram que essas práticas contribuem para aumentar a infiltração de água, reduzir a erosão e melhorar a qualidade física e química dos solos, favorecendo a sustentabilidade da produção agrícola (SOUSA et al., 2022; MACEDO et al., 2023). ## 4.7 Importância da Sistematização do Conhecimento Científico Apesar do avanço das pesquisas sobre os solos do semiárido, os estudos relacionados ao Cariri Paraibano permanecem dispersos em diferentes áreas do conhecimento. Nesse contexto, as revisões bibliográficas desempenham papel importante na organização e síntese das informações disponíveis, contribuindo para a construção de uma visão integrada sobre as características, limitações e potencialidades dos solos da região (GONÇALVES, 2019).

5. METODOLOGIA

A presente pesquisa caracterizou-se como uma revisão bibliográfica de natureza qualitativa, com abordagem analítica e caráter sistematizado, voltada à organização e interpretação do conhecimento científico sobre os solos do Cariri Paraibano, considerando suas características, limitações e implicações para o uso agrícola no semiárido.

A coleta de dados foi realizada por meio de levantamento em bases de dados científicas e repositórios institucionais, incluindo SciELO, Portal de Periódicos CAPES e publicações da EMBRAPA. Foram utilizados descritores combinados em português e inglês, tais como: “solos do Cariri Paraibano”, “semiárido brasileiro”, “soil management semi-arid”, “soil conservation semi-arid”, aplicando-se operadores booleanos (AND) para refinamento.

As buscas foram delimitadas ao período de 2020 a 2025, com o objetivo de priorizar estudos recentes relacionados aos solos do semiárido e ao contexto do Cariri Paraibano. Entretanto, também foram incluídas referências clássicas e documentos técnico-científicos anteriores ao recorte temporal definido, devido à sua relevância para a fundamentação teórica e consolidação conceitual.

Durante o processo de levantamento bibliográfico, foram aplicados filtros relacionados ao período de publicação, idioma e temática dos estudos. Contudo, em algumas bases de dados, especialmente na EMBRAPA, observou-se elevado número de resultados, o que exigiu a estratégia de refinamento progressivo das buscas, com aplicação de filtros adicionais por temática e palavras-chave mais específicas, de modo a reduzir o volume de publicações e aumentar a aderência ao objeto de estudo.

Na plataforma SciELO, foram encontrados 36 trabalhos relacionados aos descritores utilizados. No portal de Periódicos CAPES, utilizando o descritor “solos do Cariri AND semiárido”, foram identificados 2 trabalhos, enquanto o descritor “semiárido brasileiro” apresentou 4 resultados relacionados à temática proposta. Já na base de publicações da EMBRAPA, os descritores utilizados retornaram aproximadamente 544 resultados gerais associados aos temas “solo” e “semiárido”, sendo aplicado, diante desse volume elevado, um filtro adicional “EMBRAPA Semiárido”, o que permitiu refinar a busca e reduzir o total para 97 artigos.

A triagem dos estudos foi realizada em duas etapas sequenciais. Na primeira etapa, os trabalhos foram selecionados com base na leitura dos títulos, com o objetivo de identificar sua aderência inicial ao tema proposto. Na segunda etapa, os estudos potencialmente relevantes foram submetidos à leitura dos resumos, permitindo uma avaliação mais detalhada da sua compatibilidade com os objetivos da pesquisa, especialmente no que se refere às características dos solos do Cariri Paraibano e às condições edafoclimáticas do semiárido nordestino. Após essa etapa, os trabalhos considerados relevantes foram analisados de forma mais detalhada, permitindo a organização das informações conforme os eixos temáticos definidos no estudo.

Como critérios de inclusão, foram considerados: i) estudos publicados entre 2020 e 2025; (ii) artigos científicos disponíveis em repositórios institucionais; (iii) trabalhos que abordem diretamente os solos do Cariri Paraibano ou regiões com características edafoclimáticas semelhantes; (iv) estudos que tratem de atributos físicos, químicos, morfológicos ou práticas de manejo e conservação do solo.

Foram excluídos: (i) estudos sem rigor científico comprovado; (ii) publicações não disponíveis na íntegra; (iii) trabalhos que não apresentem relação direta com o tema proposto ou com os descritores definidos.

Os estudos selecionados foram organizados em planilha eletrônica contendo informações como: autor, ano, local de estudo, objetivos, classes de solo identificadas, atributos analisados, limitações apontadas e práticas de manejo recomendadas. Essa organização permitiu a sistematização dos dados e facilitou a análise comparativa entre os estudos. Além disso, foi realizada a verificação e exclusão de possíveis duplicidades entre as bases de dados consultadas, considerando que um mesmo artigo pode estar indexado em diferentes repositórios. Esse procedimento de remoção de duplicados garantiu maior precisão na composição do corpus final, evitando a contagem repetida de um mesmo estudo.

A análise dos dados foi conduzida por meio de leitura crítica e análise de conteúdo, com categorização das informações em eixos temáticos, tais como: classes de solos, propriedades físico-químicas, limitações ao uso agrícola e práticas de manejo. Essa abordagem permitiu identificar padrões, convergências e divergências no conhecimento científico disponível.

6. RESULTADOS E DISCUSSÃO

6.1 Processo de seleção e refinamento do corpus documental

O processo de seleção dos estudos seguiu um fluxo sistematizado de identificação, triagem e elegibilidade, com o objetivo de assegurar a aderência do corpus às finalidades da presente pesquisa. Foram identificados 36 trabalhos na base SciELO, sendo posteriormente selecionados 25 artigos considerados diretamente pertinentes após a leitura dos títulos.

No Portal de Periódicos CAPES, devido ao baixo número de estudos diretamente relacionados aos descritores aplicados, todos os trabalhos recuperados foram inicialmente considerados elegíveis para análise. Posteriormente, esses estudos foram avaliados quanto à aderência ao tema, sendo mantidos em seguida. Na base da EMBRAPA, após aplicação de refinamento adicional com o filtro “EMBRAPA Semiárido”, obteve-se um total de 97 artigos, dos quais 37 foram selecionados para a composição do corpus final. Ao final do processo de triagem e seleção, o corpus final da pesquisa foi composto por 68 estudos, reunindo as bases SciELO, CAPES e EMBRAPA.

A etapa de triagem foi conduzida prioritariamente por meio da leitura dos títulos, adotada como critério inicial de elegibilidade, uma vez que permite identificar, de forma objetiva e eficiente, a aderência temática das publicações ao escopo da pesquisa, especialmente no que se refere aos solos do Cariri Paraibano, e às condições edafoclimáticas do semiárido nordestino. Esse procedimento possibilitou a exclusão de estudos cujo foco não apresentava a relação direta com os eixos analíticos definidos, assegurando maior precisão e coerência ao conjunto final de trabalhos analisados.

A adoção do título como primeiro filtro de triagem se justifica pela sua função de síntese temática nas bases científicas consultadas, permitindo uma avaliação preliminar objetiva da pertinência dos estudos em relação ao escopo da pesquisa. Considerando o elevado volume de publicações em determinadas bases, especialmente na EMBRAPA, essa estratégia possibilitou a redução inicial do universo amostral sem comprometer a representatividade temática, garantindo que apenas os trabalhos com maior convergência com os descritores definidos fossem encaminhados para a etapa de leitura de resumos e análise detalhada. Dessa forma, o procedimento adotado assegura rigor metodológico, reprodutibilidade da busca e coerência na construção do corpus final de análise, alinhando-se aos princípios de sistematização exigidos em revisões bibliográficas de natureza qualitativa e analítica.

6.2 Identificação dos principais estudos sobre os solos do Cariri Paraibano

A literatura científica voltada aos solos do Cariri Paraibano evidencia um conjunto relativamente diversificado de pesquisas que buscam compreender as características pedológicas, a relação solo-paisagem e os impactos do uso agrícola em condições de semiárido. De modo geral, observa-se que os estudos existentes não se concentram em uma única abordagem, mas se distribuem entre investigações de caráter descritivo, analítico e aplicado, refletindo a complexidade ambiental da região.

Segundo Saraiva et al. (2020), os estudos desenvolvidos no semiárido paraibano demonstram que a variabilidade dos solos está diretamente associada às condições climáticas e ao material de origem, influenciando fortemente os processos de formação e evolução pedológica.

Araujo Filho et al. (2020) destacam ainda que os ambientes do Cariri Paraibano apresentam elevada diversidade de atributos físicos e mineralógicos, fator que dificulta generalizações sobre o comportamento dos solos da região.

Parte significativa da produção científica sobre a área está relacionada a estudos pedológicos e de classificação dos solos, nos quais são identificadas e descritas as principais classes presentes na região, como Neossolos, Cambissolos e Luvissolos, cujas características refletem a influência do clima semiárido, do relevo e do material de origem sobre os processos de formação dos solos da região (CAVALCANTE, 2023; ARAUJO FILHO et al., 2020; EMBRAPA, 2023).

Esses estudos evidenciam a elevada heterogeneidade espacial dos solos do Cariri Paraibano, condicionada principalmente pela interação entre material de origem, relevo, clima e processos pedogenéticos. Como consequência, ocorrem variações significativas nos atributos físicos, químicos e mineralógicos dos solos ao longo da paisagem, influenciando diretamente sua aptidão agrícola e comportamento frente ao manejo. Essa diversidade reforça a necessidade de avaliações em escala local, uma vez que solos situados em áreas relativamente próximas podem apresentar características e limitações distintas (CAVALCANTE, 2023; ARAUJO FILHO et al., 2020; ALVES et al., 2025).

Nesse contexto, Saraiva et al. (2020, p.4429), afirmam que “as alterações nos índices de precipitação foram determinantes na formação dos Luvissolos”, evidenciando a influência direta das condições climáticas sobre a constituição dos solos do semiárido paraibano. Esses autores também ressaltam que os Luvissolos presentes na Paraíba possuem elevado potencial agrícola, embora apresentem limitações relacionadas à profundidade e suscetibilidade à erosão.

Outro conjunto de pesquisas tem enfatizado a relação entre solo e paisagem, destacando a influência da posição topográfica sobre os processos de formação, desenvolvimento e distribuição dos solos no Cariri Paraibano. Estudos realizados na região demonstram que áreas situadas em posições mais elevadas e com maior declividade tendem a apresentar solos mais rasos, pedregosos e com menor grau de desenvolvimento pedogenético. Em contrapartida, posições mais baixas da paisagem favorecem o acúmulo de sedimentos mais finos e nutrientes, resultando, em determinados casos, em solos com maior profundidade e potencial agrícola (CAVALCANTE, 2023; RESENDE et al., 2014).

Essa abordagem tem contribuído para a compreensão dos processos de formação do solo na região e para a interpretação da variabilidade edáfica observada no semiárido. Araujo Filho et al. (2020) observam que a dinâmica de formação dos solos no semiárido paraibano sofre influência direta das condições do relevo e da distribuição irregular das chuvas, fatores que condicionam diferenças importantes no desenvolvimento pedogenético.

Além dos estudos pedológicos, observa-se uma produção científica expressiva voltada à avaliação dos impactos do uso da terra sobre a qualidade dos solos no semiárido. De modo geral, essas pesquisas demonstram que a substituição da vegetação nativa por sistemas agrícolas e pecuários, associada ao manejo inadequado do solo, favorece processos de degradação física, química e biológica, incluindo erosão, compactação, redução dos teores de matéria orgânica e perda da capacidade produtiva dos ambientes agrícolas (SILVA et al., 2020; MACEDO et al., 2023; LEPSCH, 2011).

Em áreas onde predomina a agricultura familiar, os impactos da degradação dos solos assumem maior relevância, uma vez que afetam diretamente a produtividade agrícola, a geração de renda e a segurança alimentar das populações rurais (IBGE, 2017). Nesse contexto, estudos desenvolvidos no semiárido nordestino indicam que a remoção da cobertura vegetal e a adoção de práticas inadequadas de manejo favorecem a intensificação dos processos erosivos, a perda de matéria orgânica e o avanço da degradação ambiental, reduzindo a capacidade produtiva dos solos ao longo do tempo (SILVA et al., 2020; EMBRAPA, 2020).

Já Saraiva et al (2021, p.159) destacam que “os teores de argila aumentaram solo da zona muito seca para a subúmida”, demonstrando como as variações ambientais e climáticas interferem diretamente nas propriedades físicas dos solos do semiárido. Essas alterações influenciam a dinâmica da água no solo, a suscetibilidade à erosão e o potencial agrícola das áreas estudadas.

De modo geral, a produção científica relacionada aos solos do Cariri Paraibano tem sido desenvolvida principalmente por instituições de ensino superior e centros de pesquisa com atuação no semiárido nordestino. Os estudos empregam diferentes abordagens metodológicas, incluindo levantamentos pedológicos de campo, análises físico-químicas e mineralógicas, estudos de relação solo-paisagem e técnicas de geoprocessamento e sensoriamento remoto. Essa diversidade metodológica tem contribuído para ampliar o conhecimento sobre a distribuição, as características e as limitações dos solos da região, fornecendo subsídios para o planejamento do uso agrícola e para a conservação dos recursos naturais (CAVALCANTE, 2023; SILVA et al., 2020; ARAUJO FILHO et al., 2020).

Conforme apontam Saraiva et al. (2020), o aprofundamento dos estudos pedológicos no semiárido é fundamental para subsidiar práticas de manejo mais adequadas às limitações ambientais da região. Nesse sentido, a integração das diferentes pesquisas produzidas entre 2020 e 2025 pode contribuir significativamente para o planejamento agrícola e para a conservação dos solos do Cariri Paraibano.

Assim, observa-se que, embora a literatura apresente contribuições relevantes para o entendimento dos solos do Cariri Paraibano, os estudos disponíveis permanecem dispersos em diferentes linhas de investigação, contemplando aspectos específicos da pedologia, da relação solo-paisagem, da degradação ambiental e do manejo agrícola. Essa fragmentação dificulta a construção de uma visão integrada sobre as características, limitações e potencialidades dos solos da região, reforçando a importância de estudos de revisão capazes de reunir, organizar e sintetizar o conhecimento científico existente para subsidiar práticas de manejo mais sustentáveis em ambientes semiáridos (CAVALCANTE, 2023; SARAIVA et al., 2020; GONÇALVES, 2019).

6.3 Caracterização das principais classes de solos do Cariri Paraibano

A literatura pedológica referente ao Cariri Paraibano demonstra que a região apresenta elevada diversidade de classes de solos, resultante da interação entre os fatores de formação, especialmente clima semiárido, relevo, material de origem e tempo de atuação dos processos pedogenéticos. De modo geral, predominam solos jovens e pouco desenvolvidos, como os Neossolos, além de Cambissolos e, em determinadas posições da paisagem, classes com maior grau de desenvolvimento pedogenético. Essa variabilidade reflete a complexidade ambiental da região e influencia diretamente as potencialidades e limitações para o uso agrícola (CAVALCANTE, 2023; EMBRAPA, 2023; RESENDE et al., 2014).

Segundo Alves et al. (2025), a variabilidade dos atributos físicos e químicos em áreas do semiárido está diretamente associada às condições ambientais locais e ao uso da terra, especialmente relevo, fertilidade e características do material de origem, o que explica a forte heterogeneidade pedológica da região.

Os Neossolos constituem uma das classes de solos mais frequentes no Cariri Paraibano, caracterizando-se pelo reduzido desenvolvimento pedogenético, baixa profundidade efetiva e ocorrência frequente de fragmentos rochosos próximos à superfície. Essas condições limitam a capacidade de retenção de água e o aprofundamento do sistema radicular das plantas, reduzindo o potencial agrícola em condições de deficiência hídrica. Além disso, sua ocorrência em áreas de relevo mais movimentado aumenta a vulnerabilidade aos processos erosivos, sobretudo quando há remoção da cobertura vegetal e adoção de práticas inadequadas de manejo do solo (EMBRAPA, 2023; RESENDE et al., 2014; LEPSCH, 2011; SILVA et al., 2020).

Nesse sentido, Sousa et al. (2022) destacam que áreas degradadas do Cariri Paraibano apresentam redução significativa da infiltração de água no solo, aumentando o escoamento superficial e a vulnerabilidade à erosão.

Os Cambissolos constituem uma importante classe de solos no Cariri Paraibano, caracterizando-se por apresentarem estágio intermediário de desenvolvimento pedogenético. Em comparação aos Neossolos, geralmente possuem maior profundidade efetiva e melhor estruturação do perfil, podendo oferecer condições mais favoráveis ao desenvolvimento das culturas agrícolas. Contudo, ainda podem apresentar limitações relacionadas à fertilidade natural, à profundidade variável e à suscetibilidade à erosão, dependendo das condições de relevo e manejo. Sua ocorrência é frequentemente associada a áreas de relevo suave ondulado a ondulado, onde há maior acúmulo de material intemperizado e evolução mais avançada dos processos de formação do solo (EMBRAPA, 2023; RESENDE et al., 2014; CAVALCANTE, 2023).

Saraiva et al. (2021), destacam que a relação entre relevo, material de origem e distribuição de chuvas influencia diretamente o desenvolvimento pedogenético dos solos do semiárido paraibano, sendo comum a ocorrência de solos mais rasos declividade e solos mais desenvolvidos em superfícies mais estáveis da paisagem.

Em posições mais estáveis da paisagem podem ocorrer solos com maior grau de desenvolvimento pedogenético, nos quais processos como lixiviação, diferenciação de horizontes e acúmulo de argila em subsuperfície tornam-se mais evidentes. Entretanto, mesmo nesses ambientes, as limitações impostas pelo clima semiárido permanecem relevantes, destacando-se os baixos teores de matéria orgânica, a reduzida disponibilidade hídrica e a elevada variabilidade das precipitações, fatores que condicionam a fertilidade do solo e influenciam diretamente o desempenho das atividades agrícolas (EMBRAPA, 2023; RESENDE et al., 2014; FAO, 2015; MACEDO et al., 2023)

Macedo et al. (2023) observam que, mesmo em solos com diferentes usos no semiárido paraibano, a limitação hídrica e os baixos teores de matéria orgânica permanecem como fatores determinantes da produtividade agrícola.

De maneira geral, a distribuição das classes de solos no Cariri Paraibano está diretamente associada à interação entre os fatores de formação do solo, especialmente relevo, clima, material de origem, organismos e tempo de atuação dos processos pedogenéticos. Essa interação condiciona elevada variabilidade espacial dos atributos físicos, químicos e morfológicos dos solos, influenciando características como profundidade efetiva, fertilidade natural, drenagem, retenção de água e aptidão agrícola. Dessa forma, a compreensão da relação entre solo e paisagem torna-se fundamental para o planejamento do uso sustentável das terras na região semiárida (LEPSCH, 2011; RESENDE et al., 2014; CAVALCANTE, 2023).

Dessa forma, o planejamento do uso da terra deve considerar as características específicas de cada ambiente, visando à adoção de práticas de manejo compatíveis com as limitações e potencialidades de cada classe de solo (LEPSCH, 2011; CAVALCANTE, 2023; EMBRAPA, 2023).

6.4 Características físicas, químicas e morfológicas dos solos do Cariri Paraibano relacionadas ao uso agrícola

A literatura científica sobre os solos do Cariri Paraibano indica que suas características físicas, químicas e morfológicas estão diretamente relacionadas às limitações impostas pelo ambiente semiárido, influenciando de forma decisiva seu potencial de uso agrícola. Observa-se que esses solos apresentam forte variabilidade espacial, baixa profundidade efetiva em muitas áreas e elevada influência do material de origem, o que resulta em diferentes níveis de aptidão agrícola dentro da mesma região (CAVALCANTE, 2023; ARAUJO FILHO et al., 2020; EMBRAPA, 2023).

Sob o aspecto físico, os solos do Cariri Paraibano apresentam grande variabilidade textural, predominando, em diversas áreas, materiais de textura média a arenosa, especialmente associados aos Neossolos. Essas características favorecem elevada permeabilidade e rápida drenagem da água, resultando em menor capacidade de retenção hídrica, condição que representa uma importante limitação ao uso agrícola em ambientes semiáridos. Por outro lado, solos com maiores teores de argila, frequentemente associados a Cambissolos e a classes mais desenvolvidas, tendem a apresentar maior capacidade de armazenamento de água. Contudo, mesmo nesses casos, fatores como reduzida profundidade efetiva, relevo e suscetibilidade à erosão podem restringir seu potencial produtivo (EMBRAPA, 2023; RESENDE et al., 2014; SILVA et al., 2021).

Silva et al. (2021), ao analisar propriedades físicas de solos sob uso agrícola no semiárido paraibano, destaca que a estrutura do solo e sua capacidade de retenção hídrica são fortemente influenciadas pelo manejo adotado, especialmente em áreas de agricultura familiar.

Em relação aos atributos químicos, os solos do Cariri Paraibano tendem a apresentar limitações associadas aos baixos teores de matéria orgânica e à reduzida disponibilidade de nutrientes essenciais ao desenvolvimento vegetal. Essas características estão relacionadas às condições climáticas do semiárido, marcadas por elevadas temperaturas e irregularidade das precipitações, fatores que reduzem o acúmulo de resíduos orgânicos no solo e favorecem a rápida mineralização da matéria orgânica. Em consequência, a manutenção da produtividade agrícola frequentemente requer práticas de correção da fertilidade e manejo nutricional adequadas, especialmente em sistemas de cultivo mais intensivos (RESENDE et al., 2014; EMBRAPA, 2014; FAO, 2015; MACEDO et al., 2023).

Estudos de Macedo et al. (2023) evidenciam que a baixa fertilidade dos solos do Cariri Paraibano está relacionada principalmente aos baixos teores de carbono orgânico e à limitada disponibilidade de nutrientes como fósforo e nitrogênio.

As características morfológicas também desempenham papel importante na compreensão do comportamento desses solos. Em muitos casos, observa-se a presença de perfis pouco desenvolvidos, com horizontes rasos e transições pouco definidas, principalmente em áreas de relevo mais acidentado. A proximidade do material rochoso em alguns perfis limita o desenvolvimento radicular e restringe o armazenamento de água, impactando diretamente o crescimento das culturas agrícolas. (EMBRAPA, 2020).

A análise integrada dos atributos físicos, químicos e morfológicos evidencia que o uso agrícola dos solos do Cariri Paraibano deve considerar suas limitações naturais e sua vulnerabilidade aos processos de degradação. Estudos indicam que práticas inadequadas de manejo podem intensificar fenômenos como erosão, compactação, perda de nutrientes e redução da matéria orgânica, comprometendo progressivamente a qualidade e a capacidade produtiva dos solos. Em contrapartida, a adoção de práticas conservacionistas e de manejo adequado favorece a manutenção da fertilidade, da estrutura do solo e da disponibilidade hídrica, possibilitando a sustentabilidade das atividades agrícolas, especialmente nos sistemas de agricultura familiar predominantes na região semiárida (LEPSCH, 2011; EMBRAPA, 2022; SOUSA et al., 2022; IBGE, 2017).

Observa-se na literatura que a compreensão integrada dessas características é fundamental para orientar o uso sustentável dos solos na região semiárida. Nesse sentido, autores da área de ciências do solo destacam que a avaliação conjunta dos atributos físicos, químicos e morfológicos é essencial para a definição do potencial agrícola e das limitações de uso, especialmente em ambientes com elevada fragilidade ambiental, como o semiárido nordestino (RESENDE et al., 2014; LEPSCH, 2011; EMBRAPA, 2023).

A Embrapa (2022) reforça que a qualidade do solo deve ser analisada de forma sistemática, considerando a interação entre propriedades físicas, químicas e biológicas, uma vez que esses fatores influenciam diretamente a produtividade e a sustentabilidade dos sistemas agrícolas.

6.5 Análise das limitações e práticas de manejo e conservação dos solos do semiárido no Cariri Paraibano

A literatura científica sobre os solos do semiárido brasileiro demonstra que a sustentabilidade dos sistemas agrícolas depende diretamente do conhecimento das limitações edafoclimáticas e da adoção de estratégias de manejo compatíveis com as condições ambientais da região. Fatores como irregularidade das precipitações, elevada evapotranspiração, baixa fertilidade natural e susceptibilidade à degradação tornam indispensável a utilização de práticas conservacionistas voltadas à manutenção da qualidade do solo e da produtividade agrícola ao longo do tempo (FAO, 2015; LEPSCH, 2011; EMBRAPA, 2014).

No contexto do Cariri Paraibano, essas limitações tornam-se mais evidentes devido à combinação entre baixa pluviosidade, elevada evapotranspiração e predominância de solos rasos e de baixa fertilidade natural. Nesse sentido, Macedo et al (2021) destacam que a fragilidade ambiental do semiárido está diretamente associada à baixa capacidade de suporte dos solos e à elevada vulnerabilidade dos sistemas produtivos frente ao uso agrícola contínuo.

A literatura evidencia que uma das principais limitações ao uso agrícola dos solos do semiárido está relacionada à elevada suscetibilidade à erosão hídrica. Esse processo é intensificado pela remoção da cobertura vegetal, pela exposição da superfície do solo e pela adoção de práticas de manejo inadequadas, fatores que favorecem o escoamento superficial, a perda de partículas do solo e a redução progressiva da sua capacidade produtiva (LEPSCH, 2011; SILVA et al., 2020; SOUSA et al., 2022).

Segundo a Embrapa (2022), ambientes semiáridos apresentam alta suscetibilidade à degradação quando submetidos ao uso intensivo sem práticas conservacionistas, o que pode levar à perda progressiva de matéria orgânica e redução da capacidade produtiva do solo. Silva et al. (2020) reforçam que a retirada da cobertura vegetal em áreas do semiárido intensifica significativamente os processos erosivos, favorecendo a degradação física do solo e a perda de sua funcionalidade agrícola.

Nesse contexto, a literatura especializada recomenda a adoção de práticas conservacionistas como plantio em nível, manutenção de cobertura vegetal permanente, utilização de adubação orgânica e manejo adequado dos resíduos culturais como estratégias essenciais para a conservação dos solos em ambientes semiáridos. A cobertura do solo desempenha papel fundamental na redução do impacto das gotas de chuva sobre a superfície, contribuindo para a diminuição do escoamento superficial, da erosão hídrica e da perda de nutrientes, além de favorecer a infiltração e o armazenamento de água no perfil do solo (LEPSCH, 2011; EMBRAPA, 2022; SOUSA et al., 2022).

Sousa et al. (2022) evidenciam que áreas com maior cobertura superficial no Cariri Paraibano apresentam melhor infiltração de água e menor suscetibilidade ao escoamento superficial, contribuindo para a conservação dos solos.

Além disso, pesquisas recentes desenvolvidas em ambientes semiáridos demonstram que sistemas de manejo integrados, envolvendo práticas como rotação de culturas, diversificação de espécies e utilização de plantas adaptadas às condições edafoclimáticas locais, favorecem a melhoria da estrutura física do solo, aumentam a infiltração e retenção de água e promovem maior estabilidade dos sistemas produtivos frente às variações climáticas. Essas estratégias contribuem para o aumento da resiliência agrícola e para a sustentabilidade da produção em regiões sujeitas à escassez hídrica (SILVA et al., 2021; EMBRAPA, 2022; LEPSCH, 2011).

A literatura também aponta que a ausência de manejo adequado pode intensificar processos de desertificação em áreas mais suscetíveis, comprometendo não apenas a produtividade agrícola, mas também a estabilidade ambiental local. Macedo et al. (2021) observam que sistemas de uso intensivo sem práticas conservacionistas podem levar ao aumento da compactação do solo e à redução da sua capacidade produtiva ao longo do tempo por conta da desertificação.

Dessa forma, a análise das práticas de manejo e conservação demonstra que a sustentabilidade dos solos do Cariri Paraibano está diretamente associada à integração entre conhecimento técnico-científico e adoção de estratégias conservacionistas compatíveis com as condições edafoclimáticas do semiárido. A implementação dessas práticas contribui para a manutenção da fertilidade, da estrutura e da capacidade produtiva dos solos, além de reduzir a ocorrência de processos erosivos e outras formas de degradação ambiental. Nesse sentido, o manejo sustentável do solo constitui um elemento fundamental para a conservação dos recursos naturais e para a viabilidade dos sistemas agrícolas da região (LEPSCH, 2011; EMBRAPA, 2022; FAO, 2015).

7. CONCLUSÃO

O presente estudo, desenvolvido por meio de revisão bibliográfica, permitiu sistematizar o conhecimento científico disponível sobre os solos do Cariri Paraibano, com ênfase em suas características, limitações e implicações para o uso agrícola em condições de semiárido. A análise da literatura evidenciou que os solos da região apresentam elevada variabilidade espacial, resultante da interação entre fatores de formação como clima, relevo e material de origem, que condicionam a distribuição das diferentes classes de solos e influenciam diretamente sua aptidão agrícola.

Entre as principais classes identificadas destacam-se os Neossolos, Cambissolos e Luvissolos, que apresentam características físicas, químicas e morfológicas distintas. De modo geral, observou-se o predomínio de solos pouco desenvolvidos, frequentemente associados à baixa profundidade efetiva, reduzidos teores de matéria orgânica, limitações de fertilidade natural e baixa capacidade de retenção de água. Essas características, somadas às condições climáticas do semiárido, contribuem para a elevada suscetibilidade à degradação, especialmente em áreas submetidas ao uso inadequado do solo e à remoção da cobertura vegetal.

A revisão também demonstrou que práticas inadequadas de manejo podem intensificar processos como erosão hídrica, perda de matéria orgânica, compactação e redução progressiva da capacidade produtiva dos solos. Em contrapartida, estratégias conservacionistas, como manutenção da cobertura vegetal, plantio em nível, rotação de culturas, uso de espécies adaptadas às condições locais e manejo adequado da matéria orgânica, apresentam potencial para minimizar os impactos da degradação e promover a sustentabilidade dos sistemas agrícolas.

Além disso, verificou-se que os estudos sobre os solos do Cariri Paraibano encontram-se distribuídos em diferentes abordagens temáticas, contemplando aspectos relacionados à pedologia, à relação solo-paisagem, à degradação ambiental e ao manejo agrícola. Essa dispersão reforça a importância da sistematização do conhecimento científico, permitindo integrar informações relevantes sobre as potencialidades e limitações dos solos da região e subsidiar práticas de manejo mais adequadas às condições do semiárido.

Dessa forma, conclui-se que o uso sustentável dos solos do Cariri Paraibano depende diretamente da integração entre conhecimento técnico-científico e adoção de práticas conservacionistas compatíveis com as condições ambientais locais. A compreensão das características e limitações desses solos constitui elemento fundamental para a conservação dos recursos naturais, a manutenção da capacidade produtiva das áreas agrícolas e o fortalecimento da agricultura familiar, contribuindo para o desenvolvimento sustentável da região semiárida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ARAUJO FILHO, José Coelho de; FRAGA, Vânia da Silva; SARAIVA, Sebastiana Maely et al. Mineralogia de luvissolos formados sob gradiente pluviométrico no semiárido paraibano. Brazilian Journal of Animal and Environmental Research, Curitiba, v. 3, n. 4, p. 4416-4433, 2020.

CAVALCANTE, Emanuel da Costa. Relação solo-paisagem em três topossequências sob diferentes materiais de origem na microrregião do Cariri Ocidental da Paraíba. 2023. Dissertação (Mestrado em Ciência do Solo) – Universidade Federal da Paraíba, Areia, 2023.

EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA (EMBRAPA). Solos do Nordeste: características, potencialidades e limitações. Brasília, DF: Embrapa, 2014.

EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA (EMBRAPA). Luvissolos e solos do semiárido brasileiro: características e limitações de uso agrícola. Brasília, DF: Embrapa Solos, 2020.

EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA (EMBRAPA). Qualidade do solo e sustentabilidade dos sistemas agrícolas. Brasília, DF: Embrapa, 2022.

EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA (EMBRAPA). Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. 6. ed. Brasília, DF: Embrapa, 2023.

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GONÇALVES, Jonas Rodrigo. Como escrever um artigo de revisão de literatura. Revista JRG de Estudos Acadêmicos, Brasília, v. 2, n. 5, p. 29-55, 2019.

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LEPSCH, Igo F. Formação e conservação dos solos. 2. ed. São Paulo: Oficina de Textos, 2011.

MACEDO, Rodrigo Santana; MORO, Letícia; ALVES CARNEIRO, Kalline de Almeida et al. Efeitos da degradação sobre atributos do solo sob Caatinga no semiárido brasileiro. Revista Árvore, v. 47, 2023.

RESENDE, Mauro; CURI, Nilton; REZENDE, Sebastião Barreiros; CORRÊA, Geraldo Fernandes. Pedologia: base para distinção de ambientes. 6. ed. Lavras: UFLA, 2014.

SARAIVA, Sebastiana Maely; FRAGA, Vânia da Silva; ARAUJO FILHO, José Coelho de et al. Mineralogia de luvissolos formados sob gradiente pluviométrico no semiárido paraibano. Brazilian Journal of Animal and Environmental Research, Curitiba, v. 3, n. 4, p. 4416-4433, 2020.

SARAIVA, Sebastiana Maely; FRAGA, Vânia da Silva; ARAUJO FILHO, José Coelho. Characterization of Neossolos Regolíticos (Psamments) through a pluviometric gradient in Brazilian semiarid. In: CATAPAN, E. A. (org.). Tecnologias aplicadas nas ciências agrárias. São José dos Pinhais: Brazilian Journals Editora, 2021. v. 1, cap. 7, p. 147-165.

SILVA, Jhon Lennon Bezerra da et al. Monitoramento espaço-temporal do risco de degradação ambiental e desertificação por sensoriamento remoto em região semiárida. Revista Brasileira de Geografia Física, Recife, v. 13, n. 2, p. 544-563, 2020.

SILVA, P. L. F. da; OLIVEIRA, F. P. de; PEREIRA, W. E.; MARTINS, A. F.; ZONTA, J. H.; AMARAL, A. J. do; SILVA, A. J. da. Qualidade física de solo arenoso em ambiente semiárido sob sistema de integração lavoura-pecuária. Revista Brasileira de Engenharia de Biossistemas, v. 15, n. 4, p. 598-616, 2021.

SOUSA, V. D. et al. Soil hydrodynamics in a degraded area in the Cariri region of Paraíba. Research, Society and Development, v. 11, n. 4, 2022.

SOUZA, Marcela Tavares de; SILVA, Michelly Dias da; CARVALHO, Rachel de. Revisão integrativa: o que é e como fazer. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 44, n. 4, p. 1020-1026, 2010.


quinta-feira, 2 de julho de 2026

DOIDICE

 

DOIDICE

 

 

Dr. Sabino, por causa de mulher ficou com o juízo fraco. Antes disso, era um sujeito completamente normal. Desejava as mulheres, mas, não tinha coragem de abordá-las, até que num dia apaixonou-se desesperadamente por uma mulher casada que não lhe saia do juízo. Moça, bonita e, sobretudo honesta. Além de não lhe dar a menor confiança, Sabino tinha medo do marido a ponto de não querer nem o ver. Assustava-se até quando ouvia pronunciar o seu nome.

            Fincava-se nas esquinas para vê-la passar. E como ficava só na imaginação, os pensamentos foram se acumulando no juízo e baralhou tudo. Abestalhado, perdeu a noção do tempo e a família preocupada mandou interna-lo para tratamento. Mas não melhorava, mesmo porque desconheciam a causa primordial. Como não se recuperava, mandaram-no de volta. Sabino não era propriamente um doido. Apenas um abilolado por paixão recolhida.

 Depois da volta, os amigos encarregaram-se de fazê-lo mudar de convivência e desconfiado de que poderia ser algum problema íntimo, algum vício depressivo, resolveu levá-lo a uma pensão de mulheres e fazê-lo sair com uma. E depois de uma demora excessiva, Sabino apareceu calmo e tranquilo sem qualquer sinal de perturbação mental. Lúcido, lúcido, risonho e gratificado. Fez questão de saldar a conta, não permitindo que alguém enfiasse a mão no bolso. – Esta não, a despesa é exclusivamente minha. Vocês me ensinaram a viver. Pois não foi, companheiros. Andava metido no inferno de uma paixão e, agora, estou flutuando num lago azul no meio dos cisnes. Um santo remédio.

 Mas o diabo é que Sabino pensou que teria de tomar todo o remédio do laboratório da pensão de D. Eva. E enfincou-se nele direto. E como não era lá muito forte, foi enfraquecendo dia a dia, até quer birutou de novo. Fiou-se apenas no gosto do remédio sem cuidar de seus efeitos colaterais. E o pior é que não enjoava. Mudava de frasco e achava que cada um era melhor do que o outro. De tanto usá-lo caiu numa depressão tal que já não tinha mais força para beber.

E certo dia Sabino desapareceu. Foi encontrá-lo em casa, espichado numa cama, pálido, magro, desiludido.

            - O que é isto, Sabino!

            - Doente, muito doente, completamente leso.

            - Foi alguma comida?

            - Foi e não foi, pois tomei como remédio. Creio que exagerei na dosagem. Era um frasco por dia e até dois e três.

            - E qual?

            - Saúde da mulher, vidro grande. Mas o bicho caiu na fraqueza. Também o diabo desses laboratórios fabrica um remédio saboroso de mais, que dá vontade de engolir o frasco. Queixo-me também da D. Eva. Todos os dias me apresentavam com embalagens diferentes. E assim, em vez de me fortificar, caí nessa leseira que nem me deixa ficar em pé.

            - Pois muda de regime, companheiro. Não vás mais a farmácia de D. Eva. Ela negocia com esses artigos e quer é faturar.

            - Mas, como, se já estou viciado até a raiz.

            - Pois isto é um vício perigoso. Estás vendo o resultado. Caso voltes ou escapes desta, passa a tomar de 15 em 15 dias e olhe lá! O remédio que estás tomando é mesmo que sanguessuga. Chupa o sangue e todas as vitaminas.

            - Então foi isto que aconteceu. Também fui me confiar na D. Eva. Nem me lembrei que não era médica. Mas é engraçado. Nas primeiras garrafadinhas a reação foi positiva. Eu acho que trocaram o rótulo, ou o conteúdo e por isto passou a fazer efeito negativo. Mulher é uma coisa misteriosa. Cura e mata, dependendo da dosagem. E sabem de uma coisa, todo remédio deveria ser amargo.

            Sabino, aos poucos se recuperou e percebeu que deveria ficar no meio termo. Ser cauteloso. Nada demais, nada de menos. Os amigos, então o aconselharam a casar-se, ter um lar próprio e uma companheira ao seu lado.

            - Quem, eu. Deus que me livre. Basta ao meu lado uma garrafa de remédio. Bebo em vinte e quatro horas... E cairei nesta novamente.

            - Olha, casa-te com uma mulher feia, sem atrativos. Assim não excederás.

            - Assim, não. Passaria a tomar um purgativo. Remédio que pelo menos tenha um bom rótulo. Tenho alergia à mulher feia. Aliás, quem as fez, ou tinha muito mau gosto ou era burro e perverso. Feiura é um castigo. E por que castigar uma mulher. Isto não se irá entender nunca, nunca. Deve ter sido um péssimo pedreiro, sem imaginação. Ruindade também, porque não havia justificativa honesta para modelar feiura. Quanto não sofre uma mulher feia, diante das graciosas. Eu, que sou um boboca, não teria cometido semelhante barbaridade. Já pensaram se o mundo fosse feito só de mulheres bonitas e homens fortes. Mas não. A engenharia desses fabricantes de gente chega ao cúmulo de mandar para o mundo, um desmilinguido de minha marca. Da nisto. Fraco, meio abilolado, a fazer besteiras à vida toda. Se o material não prestava, atirasse no lixo e não o aproveitar para engendra uma peça desparafusada como eu e tantos outros que andam por aí a sofrer amargas desilusões. Quando o corpo é fraco, a mente também o é. E fazem isto com a maior tranquilidade, como se estivessem fazendo uma obrar prima...

            - Também não é tanto assim não. Praticamente não existem mulheres feias. Deus fez mulheres para todos os gostos. Quem ama o feio bonito lhe parece. É um velho conceito. Há tanta gente casada com mulher feia e vive tão feliz. Além disso, é o tipo de mulher para homem ciumento. Pode deixá-la em casa, solta-la na rua, sem perigo de ser atraída. Vai e volta intacta...

            - Mas, mesmo assim, há exceções. Olha aí a D. F... Cara de bugre, mas o corpo é um desafio e tem pintado o diabo.

            - Mas isto é um caso ou outro e mesmo assim o marido não acredita. Considera impossível. É conversa do povo...

            - De qualquer forma, mulher somente bonita.

            - E se se bandear. Todo mundo anda de olho nela. E há muito sujeito atrevido...

            - Comigo é na dureza. Ou anda na linha ou irei para a cadeia.

            - Ora, quando vier, a saber, meu Deus, já estará ornamentado...

            - Sei que irei morrer muito cedo. O veneno das mulheres acabará comigo. São umas sanguessugas. Não há sangue que chegue.

            - Morrer nada, Sabino. Mulher nem tem veneno, nem mata ninguém. A gente é que morrer por gosto, pelo menos de paixão. E o remédio é não se apaixonar. Cria juízo, modera o rojão e terás vida longa.

            - Sabes de uma coisa curta e certa. Não irei mais atrás desses demônios. Já estou quase um frasco vazio. Só tem de mim a casca. E foram elas...

           

Em 23.7.86 (1986)

João Henriques da Silva (meu pai)

(In Memoriam – 20/09/1901 – 16/04/2003)