O RUGIDO DO LEÃO
Dr. José Peregrino de Carvalho Costa de
Medeiros Neto, descendente do coronel da Guarda Nacional, do mesmo nome.
Afamado caçador das beiras das matas do nosso Brasilzão, caçou e pescou por
todos os cantos possíveis. Pertencia a alta sociedade. Médico Ginecologista famoso,
as mulheres os adoravam, principalmente quando contava suas aventuras de caça e
pesca. Era um bom proseador. De estatura mediana, mais baixo do que alto, muito
elegante. Só se apresentava de calça branca, camisas variadas, paletó gravata
sempre combinado com a moda atual e por sobre todo esse aparato um xale,
echarpe, adquirido nas regiões das suas caçadas, sempre com cores que
representavam o estado das suas aventuras. Sapatos de verniz das marcas
Bertelli, Schiarelli com verniz brilhante, recortes e bico quadrado, sempre
escolhia os que tivesse o salto tipo cavalo de aço. Fazia parece um pouco mais
alto.
Cançado de fazer essas aventuras na sua
terra e com animais de pequeno porte, resolveu se aventurar num safári pela África,
escolheu o parque nacional kruger, tanto pela grande quantidade de leões como
pela bela história da origem da raça humana.
Como sempre fazia, não contava a ninguém
para onde ia realizar suas caçadas. No regresso marcava um sarau num dos bons
clubes sociais, convidava seus admiradores, principalmente senhoras suas
clientes, que eram muitas e lá no meio do salão fazia uma narrativa mais
natural possível de tudo que acontecera.
Boa noite caros convidados. Estou de volta
sã e salvo.
- O que foi que aconteceu de tão perigoso?
- Ave Maria nos conte logo, doutor
Carvalho.
- Minha gente, vamos devagar. Passei quase
trinta dias fazendo incursões e caçadas pela velha África, atirando e as vezes
matando rinocerontes, búfalos, elefantes, hienas, leopardos, crocodilos,
javalis, impalas, kudus, antílopes, Avestruzes, gnus, zebras, babuínos, e
tantos ouros animais que apareciam pela frente. No último dia do meu safari, o
guia nos convidou para fazermos a última caçada no território dos leões. Era o
troféu de todo caçador. Partimos logo cedo a procura do famigerado e rei das
selvas africanas.
O guia na frente sempre com cautela e
muito atento a qualquer barulho, sinalizava com as mãos e a cabeça nossos
caminhos. Cada um seguia paralelo pelas trilhas vizinhas. Cada qual com as
ouças e os olhos mais do que abertos. O medo era imenso, cada touceira de
arbusto, a gente via um leão. Eu com minha espingarda 375 H&H, não tinha
nenhum receio, pois já tinha abatido todos os dias com a velha 375. Tiro e
queda. De vez enquanto o guia levantava a mão e dava um assobio para a gente
parar. Ficávamos literalmente paralisados, era o combinado. Outro sinal, a
gente continuava sempre para frente aguardando o cabeçudo aparecer. Eu como era
o mais baixo, passava com mais facilidade entre os galhos, e, logicamente
estava sempre a frente dos outros. De repente surge no meu caminho, frente a
frente, o resmungão, o estrangulador, o senhor do deserto, o devorador
de Homens, a besta fera. O bicho tinha uma juba do tamanho do mundo, o hálito
de sangue podre, antecipando a decomposição física de uma carniça podre.
Quando me viu, parou e eu também. Nós olhamos. O medo é uma
condição inevitável da vida do ser humano. Independentemente de quem sejamos,
em algum momento de nossa vida sentiremos a sensação causada pelo medo, que é
definido pelo dicionário como sendo estado afetivo suscitado pela consciência
do perigo ou que, ao contrário, suscita essa consciência, tudo isso me veio na
lembrança dos meus estudos da faculdade de medicina. O medo é, inclusive, uma
forma de preservação da vida porque permite que tenhamos mais cautela ao
fazermos as atividades do cotidiano, de modo geral. Minhas senhoras, tudo isso
se passou tão de repente que não sabia se corria – para onde, se morria e
assim, estava salvo ou então atirava e matava como fizera várias vezes, mas a
situação era diferente, eu e ele.
Para surpresa minha ele tomou a iniciativa, virou a cabeça
para um lado e outro e enchendo os pulmões fortemente urrou desse jeito:
rrauuuaaarr, rooooaaarr...
Minhas destintas senhoras, obrei-me todo.
- Mas doutor, numa hora dessas é normal.
- Se fosse eu teria morrido.
- Ave maria, não sei nem como seria se tivesse perto.
- Entendemos perfeitamente sua situação numa hora dessa. É
apavorante, compreendemos perfeitamente sua coragem de estar vivo entre nós.
- Mas, minhas digníssimas senhoras, Obrei-me todo foi
agora...
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