quarta-feira, 22 de abril de 2026

O RUGIDO DO LEÃO

 

O RUGIDO DO LEÃO

 

Dr. José Peregrino de Carvalho Costa de Medeiros Neto, descendente do coronel da Guarda Nacional, do mesmo nome. Afamado caçador das beiras das matas do nosso Brasilzão, caçou e pescou por todos os cantos possíveis. Pertencia a alta sociedade. Médico Ginecologista famoso, as mulheres os adoravam, principalmente quando contava suas aventuras de caça e pesca. Era um bom proseador. De estatura mediana, mais baixo do que alto, muito elegante. Só se apresentava de calça branca, camisas variadas, paletó gravata sempre combinado com a moda atual e por sobre todo esse aparato um xale, echarpe, adquirido nas regiões das suas caçadas, sempre com cores que representavam o estado das suas aventuras. Sapatos de verniz das marcas Bertelli, Schiarelli com verniz brilhante, recortes e bico quadrado, sempre escolhia os que tivesse o salto tipo cavalo de aço. Fazia parece um pouco mais alto.

Cançado de fazer essas aventuras na sua terra e com animais de pequeno porte, resolveu se aventurar num safári pela África, escolheu o parque nacional kruger, tanto pela grande quantidade de leões como pela bela história da origem da raça humana.

Como sempre fazia, não contava a ninguém para onde ia realizar suas caçadas. No regresso marcava um sarau num dos bons clubes sociais, convidava seus admiradores, principalmente senhoras suas clientes, que eram muitas e lá no meio do salão fazia uma narrativa mais natural possível de tudo que acontecera.

Boa noite caros convidados. Estou de volta sã e salvo.

- O que foi que aconteceu de tão perigoso?

- Ave Maria nos conte logo, doutor Carvalho.

- Minha gente, vamos devagar. Passei quase trinta dias fazendo incursões e caçadas pela velha África, atirando e as vezes matando rinocerontes, búfalos, elefantes, hienas, leopardos, crocodilos, javalis, impalas, kudus, antílopes, Avestruzes, gnus, zebras, babuínos, e tantos ouros animais que apareciam pela frente. No último dia do meu safari, o guia nos convidou para fazermos a última caçada no território dos leões. Era o troféu de todo caçador. Partimos logo cedo a procura do famigerado e rei das selvas africanas.

O guia na frente sempre com cautela e muito atento a qualquer barulho, sinalizava com as mãos e a cabeça nossos caminhos. Cada um seguia paralelo pelas trilhas vizinhas. Cada qual com as ouças e os olhos mais do que abertos. O medo era imenso, cada touceira de arbusto, a gente via um leão. Eu com minha espingarda 375 H&H, não tinha nenhum receio, pois já tinha abatido todos os dias com a velha 375. Tiro e queda. De vez enquanto o guia levantava a mão e dava um assobio para a gente parar. Ficávamos literalmente paralisados, era o combinado. Outro sinal, a gente continuava sempre para frente aguardando o cabeçudo aparecer. Eu como era o mais baixo, passava com mais facilidade entre os galhos, e, logicamente estava sempre a frente dos outros. De repente surge no meu caminho, frente a frente, o resmungão, o estrangulador, o senhor do deserto, o devorador de Homens, a besta fera. O bicho tinha uma juba do tamanho do mundo, o hálito de sangue podre, antecipando a decomposição física de uma carniça podre.

Quando me viu, parou e eu também. Nós olhamos. O medo é uma condição inevitável da vida do ser humano. Independentemente de quem sejamos, em algum momento de nossa vida sentiremos a sensação causada pelo medo, que é definido pelo dicionário como sendo estado afetivo suscitado pela consciência do perigo ou que, ao contrário, suscita essa consciência, tudo isso me veio na lembrança dos meus estudos da faculdade de medicina. O medo é, inclusive, uma forma de preservação da vida porque permite que tenhamos mais cautela ao fazermos as atividades do cotidiano, de modo geral. Minhas senhoras, tudo isso se passou tão de repente que não sabia se corria – para onde, se morria e assim, estava salvo ou então atirava e matava como fizera várias vezes, mas a situação era diferente, eu e ele.

Para surpresa minha ele tomou a iniciativa, virou a cabeça para um lado e outro e enchendo os pulmões fortemente urrou desse jeito: rrauuuaaarr, rooooaaarr...

Minhas destintas senhoras, obrei-me todo.

- Mas doutor, numa hora dessas é normal.

- Se fosse eu teria morrido.

- Ave maria, não sei nem como seria se tivesse perto.

- Entendemos perfeitamente sua situação numa hora dessa. É apavorante, compreendemos perfeitamente sua coragem de estar vivo entre nós.

- Mas, minhas digníssimas senhoras, Obrei-me todo foi agora...

 

 

 

 

 

 

 

 

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