quinta-feira, 30 de abril de 2026

SEMPRE AUGUSTO DOS ANJOS

 

...E dizer que o Augusto não tinha crença, que era ateu e que não tinha religiosidade, vejam na visão geral criada por IA, sem nenhuma paixão humana.

“A religiosidade de Augusto dos Anjos (1884-1914) é complexa e paradoxal, misturando um profundo pessimismo materialista com elementos de espiritualidade. Embora marcado pela ciência positivista e pela angústia existencial, sua obra dialoga com o espiritismo (sendo relatado como simpático a reuniões mediúnicas), a filosofia budista e um fundo de formação católica

Principais Facetas da Religiosidade de Augusto dos Anjos:

Simpatia pelo Espiritismo/Espiritualismo: Relatos indicam que o poeta não apenas conhecia, mas teria participado de reuniões mediúnicas e possuía afinidade com o espiritismo, o que se reflete na imaterialidade de alguns de seus versos.

Influência Budista: Estudos apontam que a filosofia do sofrimento e a negação da existência material presentes no livro Eu dialogam com o budismo, mostrando a influência de Schopenhauer na sua poética.

Herança Católica e Crítica: Apesar de sua obra ser muitas vezes vista como uma desconstrução dos temas religiosos tradicionais, análises sugerem uma "teopoesia" que reinterpreta o sagrado, muitas vezes aproximando a figura divina da natureza ou do sofrimento (como a figura do carneiro).

Pessimismo e Morte: Sua poesia reflete uma angústia existencial profunda, onde a religiosidade é frequentemente tensionada pelo materialismo científico de sua época, focando na putrefação e no fim biológico, mas sem abandonar a busca pelo sentido metafísico

A obra de Augusto dos Anjos não se limita a um ateísmo simples, mas a uma angústia espiritual que navega entre a fé tradicional e a descrença científica”.

Vejamos também a pergunta que Kardec fez aos espíritos sobre Deus.

“1. Que é Deus?

“Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas” *

2. Que se deve entender por infinito?

“O que não tem começo nem fim; o desconhecido; tudo que é desconhecido é infinito.”

3. Poder-se-ia dizer que Deus é o infinito?

“Definição incompleta. Pobreza da linguagem dos homens, insuficiente para definir o que está acima de sua inteligência.”

Deus é infinito em suas perfeições, mas o infinito é uma abstração. Dizer que Deus é o infinito é tomar o atributo de uma coisa pela coisa mesma, é definir uma coisa que não é conhecida por uma outra que não o é mais do que a primeira.”

 

Amor e crença

Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo

Ser que preside e rege os outros seres,

Que os encantos e a força dos poderes

Reúne tudo em si, num só encanto?

 

Esse mistério eterno e sacrossanto,

Essa sublime adoração do crente,

Esse manto de amor doce e clemente

Que lava as dores e que enxuga o pranto?!

 

Ah! Se queres saber a sua grandeza,

Estende o teu olhar à Natureza,

Fita a cúp’la do Céu santa e infinita!

 

Deus é o templo do Bem. Na altura Imensa,

O amor é a hóstia que bendiz a Crença,

ama, pois, crê em Deus, e... Sê bendita!

 

Augusto dos Anjos

quarta-feira, 22 de abril de 2026

O RUGIDO DO LEÃO

 

O RUGIDO DO LEÃO

 

Dr. José Peregrino de Carvalho Costa de Medeiros Neto, descendente do coronel da Guarda Nacional, do mesmo nome. Afamado caçador das beiras das matas do nosso Brasilzão, caçou e pescou por todos os cantos possíveis. Pertencia a alta sociedade. Médico Ginecologista famoso, as mulheres os adoravam, principalmente quando contava suas aventuras de caça e pesca. Era um bom proseador. De estatura mediana, mais baixo do que alto, muito elegante. Só se apresentava de calça branca, camisas variadas, paletó gravata sempre combinado com a moda atual e por sobre todo esse aparato um xale, echarpe, adquirido nas regiões das suas caçadas, sempre com cores que representavam o estado das suas aventuras. Sapatos de verniz das marcas Bertelli, Schiarelli com verniz brilhante, recortes e bico quadrado, sempre escolhia os que tivesse o salto tipo cavalo de aço. Fazia parece um pouco mais alto.

Cançado de fazer essas aventuras na sua terra e com animais de pequeno porte, resolveu se aventurar num safári pela África, escolheu o parque nacional kruger, tanto pela grande quantidade de leões como pela bela história da origem da raça humana.

Como sempre fazia, não contava a ninguém para onde ia realizar suas caçadas. No regresso marcava um sarau num dos bons clubes sociais, convidava seus admiradores, principalmente senhoras suas clientes, que eram muitas e lá no meio do salão fazia uma narrativa mais natural possível de tudo que acontecera.

Boa noite caros convidados. Estou de volta sã e salvo.

- O que foi que aconteceu de tão perigoso?

- Ave Maria nos conte logo, doutor Carvalho.

- Minha gente, vamos devagar. Passei quase trinta dias fazendo incursões e caçadas pela velha África, atirando e as vezes matando rinocerontes, búfalos, elefantes, hienas, leopardos, crocodilos, javalis, impalas, kudus, antílopes, Avestruzes, gnus, zebras, babuínos, e tantos ouros animais que apareciam pela frente. No último dia do meu safari, o guia nos convidou para fazermos a última caçada no território dos leões. Era o troféu de todo caçador. Partimos logo cedo a procura do famigerado e rei das selvas africanas.

O guia na frente sempre com cautela e muito atento a qualquer barulho, sinalizava com as mãos e a cabeça nossos caminhos. Cada um seguia paralelo pelas trilhas vizinhas. Cada qual com as ouças e os olhos mais do que abertos. O medo era imenso, cada touceira de arbusto, a gente via um leão. Eu com minha espingarda 375 H&H, não tinha nenhum receio, pois já tinha abatido todos os dias com a velha 375. Tiro e queda. De vez enquanto o guia levantava a mão e dava um assobio para a gente parar. Ficávamos literalmente paralisados, era o combinado. Outro sinal, a gente continuava sempre para frente aguardando o cabeçudo aparecer. Eu como era o mais baixo, passava com mais facilidade entre os galhos, e, logicamente estava sempre a frente dos outros. De repente surge no meu caminho, frente a frente, o resmungão, o estrangulador, o senhor do deserto, o devorador de Homens, a besta fera. O bicho tinha uma juba do tamanho do mundo, o hálito de sangue podre, antecipando a decomposição física de uma carniça podre.

Quando me viu, parou e eu também. Nós olhamos. O medo é uma condição inevitável da vida do ser humano. Independentemente de quem sejamos, em algum momento de nossa vida sentiremos a sensação causada pelo medo, que é definido pelo dicionário como sendo estado afetivo suscitado pela consciência do perigo ou que, ao contrário, suscita essa consciência, tudo isso me veio na lembrança dos meus estudos da faculdade de medicina. O medo é, inclusive, uma forma de preservação da vida porque permite que tenhamos mais cautela ao fazermos as atividades do cotidiano, de modo geral. Minhas senhoras, tudo isso se passou tão de repente que não sabia se corria – para onde, se morria e assim, estava salvo ou então atirava e matava como fizera várias vezes, mas a situação era diferente, eu e ele.

Para surpresa minha ele tomou a iniciativa, virou a cabeça para um lado e outro e enchendo os pulmões fortemente urrou desse jeito: rrauuuaaarr, rooooaaarr...

Minhas destintas senhoras, obrei-me todo.

- Mas doutor, numa hora dessas é normal.

- Se fosse eu teria morrido.

- Ave maria, não sei nem como seria se tivesse perto.

- Entendemos perfeitamente sua situação numa hora dessa. É apavorante, compreendemos perfeitamente sua coragem de estar vivo entre nós.

- Mas, minhas digníssimas senhoras, Obrei-me todo foi agora...