segunda-feira, 25 de maio de 2026

MADALENA

 

MADALENA

 

 

Alexandrino largou a esposa e danou-se no mundo com uma mulher vadia e sem futuro.

A coitada da Madalena, ficou com um filho começando a falar e outro na barriga e sem saber o que fazer. Não podia entender como Alexandrino a havia deixado por uma dona ordinária, mulher de todo mundo.

Madalena, uma mulher honesta, zelosa com a casa com um filho por companhia e outro carecendo de muita ajuda. Via-se naquele instante como se estivesse caído no fundo de um poço sem ter como sair. E com a despensa vazia, sem dinheiro, sem nada, teria que correr a procura de um trabalho qualquer que lhe desse o sustento e o leite para o filho Antônio.

E logo ao amanhecer, enrolou um pano no pescoço, tomou o filho nos braços e saiu rua a fora, de casa em casa a procura de emprego.

Contava sua história, mostrava o Antônio, um coitado inocente e a barriga avolumada que já estavam sem pai. Não tinha nada pra comer e muito menos para pagar o magro aluguel do casebre onde morava. Se alguém não os socorresse, estariam perdidos.

Não queria esmolar. Era deprimente e impossível para uma mulher moça sadia e corajosa. Era mais de meio dia, quando encontrou quem se interessasse por ela. Mas teria que ir para roça, cuidar de cabras, galinhas e porcos no pequeno sítio da viúva sinhazinha. Não lhe faltaria alimentação e um pequeno salário.

Pertinho da cidade, aquilo lhe pareceu uma joia achada num palheiro. Pelo menos estaria com a alimentação assegurada e teria casa para viver. No mesmo dia foi levada para lá e assumiu a tarefa. Afinal de contas já havia vivido na roça e tinha alguma experiência, das coisas do campo.

Leite para Antônio não lhe faltava, e sobrava para ela. Aquilo tudo substituía muito a falta do caboclo Alexandrino e até não desejava que ele lhe aparecesse. Que se ficasse por onde andava com a bicha Zeferina que havia de dar-lhe a recompensa mais tarde.

Ordinária safada, que estava pelas ruas gingando o corpo e tomando o homem das outras. Viciada e sem vergonha como era não demoraria a botar as unhas de fora. E era muito bem feito. Mas, como o Alexandrino também não valia nada, talvez a abandonasse primeiro.

Madalena, com pouco tempo estava a par de tudo. Cabras, galinhas e porcos, prosperavam a olhos vistos. E Dona Sinhazinha, satisfeita, dava-lhe o que podia, assinou uma cabrita para o Antônio e deu-lhe meia dúzia de frangas. Era um começo. O que queira era que continuasse zelando o que era seu e aumentando a renda do sítio.

Do ex-marido alexandrino e a bichota Zeferina, nem queria notícias.

Só lamentava que o filho fosse filho dele. Mudou o sobrenome de Antônio para não ficar sequer a lembrança.

Alexandrino foi ficar longe, inclusive com receio de algum parente de Madalena. Arranjou trabalho pesado, alugou um casebre e meterem-se dentro. A Zeferina, profissional da gandaia, não pretendia ficar inativa. Havia de ganhar algum dinheiro com o corpo que Deus lhe dera. E Alexandrino que não achasse ruim.

Em todo caso procuraria ocultar o quanto possível os seus encontros. Começou saindo pelas ruas, exibindo o material. Tanto recebia dinheiro, quando presentinhos, o que já era de seus hábitos. Em casa, quando o tolo chegava, desdobrava-se em carinhos como se o estivesse esperando com ansiedade.

- Ora, meu amorzinho demorou tanto. Não faz isto com a tua negrinha Zeferina. Estamos casados tão novos e sou só tua.

 E tocou o andor para frente. Cabra saía, cabra no chifre. O que recebia era guardado sob mil capas.

Zeferina tinha seus planos traçados. Na hora que o bestão desconfiasse, sumiria, deixando-lhe somente uma calçola usada de presente e lembrança.

Certo dia Alexandrino retornou antes do horário habitual. Zeferina não estava. E teve a primeira suspeita. Poderia estar lhe traindo. Quando a danada chegou, vinha com um pacote na mão.

- Onde estava, Zeferina. Não gosto que saias de casa quando não estou. É bom que não me faças ciúme. Sabe que deixei a Madalena, uma mulher daquela pra me juntar contigo. Não te esqueças disto.

- Mas como é que estás assim desconfiado de tua Zeferina. Se eu quisesse outros homens, não teria fugido contigo.

- E o que é esse pacotinho aí?

- Olha lá tua desconfiança comigo. Fui comprar bolachas para tua ceia e me pagas assim?

- E de onde tirastes dinheiro? Não te dei.

- Um restinho ainda do que havia trazido.

Pois guarda teu dinheiro compras aqui quem faz sou eu, Alexandrino. Não te esqueças mais disto.

- Está certo. Poderei ir devolver.

- As bolachas foram presente do merceeiro Conrado com que havia estado dando volteios no corpo. De qualquer forma, Alexandrino ficou cismado. Sabia que onde foi casa, era tapera. Passa daí por diante, os dias todos com aqueles pensamentos infernais. Só faltava morrer de ciúmes. Não há paixão maior do que paixão por rapariga. A Zeferina era dessas ninfomaníacas que não se contentava com um homem só e não perdia oportunidade.

Alexandrino, por sua vez, já começava a ter saudades de Madalena, uma mulher tão boa e honesta que era. Nem atinava que diabo lhe havia dado no couro para abandona-la por uma safada daquela, sovada por gato e cachorro. E agora estava no prego, levando chifre e naturalmente, com os amantes da bicha zombando dele. O melhor mesmo seria largá-la, se a apanhasse em flagrante. Desconfiar somente era pouco. Talvez fossem somente ciúmes e suposição.

Zeferina estava saindo com o Pereira, cabra do oco do mundo, ainda moço e valente; um desses morenos bem claros e de boa aparência. Quando Zeferina queria voltar para esperar alexandrino em casa, ele impedia.

- Estás com medo de que?

- Só quero mesmo que aquele covarde vagabundo toque um dedo na tua pele.

E por isto chegava sempre atrasada.

- Por onde andavas Zeferina, já te falei que teu lugar é em casa?

- Achas que vou morrer dentro dessas quatro paredes, mofando como um pedaço de pão molhado, nem morta...

- Olhe, descobri, nos teus trastes um bocado de coisas. Donde tirastes, com que dinheiro comprou, será que me estás enganando?

- Deixa de besteira. Se não quisesse ser direita, não teria deixado meus amigos. Mas repara que ainda tenho corpo para voltar ao que era. E será que me queres proibir de sair. Olha, se eu quisesse já teria muitos amigos aqui. Bem sabes quem é a Zeferina. Basta sair balançando o material para ter quem me queira.

Procura ganhar mais dinheiro para me dar o que quero. E outra coisa, não ande me vigiando. O que é meu dou a quem quero. Mas não farei isto contigo.

Alexandrino, mal saiu para o trabalho, já o último amigo de Zeferina lhe estava à porta.

- Cadê o ciumento?

- Foi trabalhar. Aqui, não Pereira. O meu homem pode voltar. Anda meio desconfiado.

- Então, achas que vou perder as passadas que dei. Deixa vir. É até bom que venha e nos pegue na folia...

- Assim também é demais e dará em briga. O homem é metido a arrochado e ciúme dá coragem.

O Pereira agarrou-se logo com Zeferina que simulou certa resistência. Entregou-se no final. Pediu que era melhor esperá-la lá. Assim era demais.

- Zeferina, vem cá! Por que diabo não vais logo morar comigo. Tenho uma casinha melhor, dinheiro não nos faltará e nunca tive medo de homem nenhum. Arruma tuas coisas e deixa esse cagão pra lá. Então, vamos embora e não fique com medo.

- E a gente se muda daqui?

- Que nada. Tenho meus negócios e não posso sair assim.

Zeferina se foi deixando a porta escorada, presa com um pano velho. Pereira levou-a para casa com a maior tranquilidade. Era como se estivesse bebendo um copo d’água.

À tardinha Alexandrino chegou e toca a esperar. Desconfiado, foi verificar os trastes de Zeferina e nada encontrou. A endemoninhada havia se ido. Mas iria buscá-la. Não a perdoaria. E meteu o pé na estrada. Deveria ter voltado para onde saíra. Lá não encontrou nem notícias. Tentou saber da mulher e do filho. Quem sabe se não poderiam querê-lo de volta. Localizou-os e foi até lá.

- Dá o fora daqui – gritou-lhe Madalena. – Não quero te ver nem a sombra. E vai logo. Bateu-lhe a porta na cara e trancou-se. De lá de dentro ainda gritou.

– Vou mandar avisar ao delegado e ao meu patrão, cabra ordinário.

- Madalena, deixa ao menos olhar para o menino!

- Nada disso. Só te serve mesmo uma Zeferina! E ainda é muito pouco... Já te disse que não queremos nem ver a sombra de tua sombra. Dá o fora daqui e vai apagando o rastro. Deixaste-nos sem um pó de farinha para dar ao filho.

O arrependido Alexandrino retirou-se. A mulher tinha toda razão. Ele mesmo é que não valia nada. Até Zeferina, rapariga de ponta de rua o havia deixado. Estava pagando o que fizera. Pois não era. Abandonar Madalena e o filho por uma quenga daquela e agora nem uma nem outra. E uma das primeiras coisas que vira ao voltar, foi a crueira Zeferina emparelhada com o Pereira. Era desaforo. Botou-se para os dois.

- Vagabunda safada, vai apanhar. Tu e esse cara de pai de chiqueiro. Zeferina encostou-se em seu Pereira e esperou a pancadaria. Era capaz de morrer gente. Avançou como um cão danado. Recebeu um pontapé e um soco na marra do chocalho e esparramou-se no chão. Pereira pisou-lhe na barriga e deu-lhe uma pesada na cara.

Rolou e correu.

Havia de matar a bexiguenta Zeferina, mas ainda ia correndo. Fora da cidade ainda tinha vontade de correr.

Era melhor mudar de ideia. E foi aí que lhe veio um pensamento diabólico. Enforcar-se. Sem mulher e sem o filho, sem a cabrocha Zeferina, pra que diabo viver. E, além disso, surrado e aquela pesada na cara que não pararia de doer.

Entra pela caatinga, corta um cipó de mucunã, procurou um galho apropriado e dependurou-se. Quando se soltou e o cipó apertou-lhe a garganta, quis arrepende-se, mas foi tarde demais.

Antes de começar a feder, chegaram os primeiros urubus. Dos galhos da velha catingueira, espiavam para baixo e lamentavam-se.

- Como diabo iria almoçar aquele espantalho safado. Por que não morrera no chão.

Um urubu sentara-se no ombro e começara o trabalho difícil, aliás, carne péssima, companheiros. Adocicada e desgostosa. Além disso, numa posição incomoda danada desta. Só muita fome, aguenta essa porcaria. Este peste deveria ter sido enterrado. Somente os vermes da terra podem suportá-lo.

- Urubu debaixo da catingueira, Ambrósio. Vai depressa lá. Deve ter morrido alguma rês ou outro bicho qualquer.

Ambrósio voltou às carreiras.

- O que foi Ambrósio?

- Nem lhe digo, patão. Um homem enforcado. Pendurado num galho de catingueira.

- Logo nos meus pastos. Vão lá, cavem um buraco debaixo do bicho, cortem a corda e enterrem.

- Parece que os urubus não estão gostando.

- Mas, patrão, não seria melhor chamar o delegado. Pelo menos poderia saber quem era.

- Tens razão. Manda avisar.

E entre os curiosos que foram ver o enforcado, estava a quenga Zeferina. E lá estava o sinal de identificação, um dedo dos pés sem unha.

– Será alexandrino? – E a Zeferina rezou um pouco pela sua alma desfigurada. Havia sido um alívio. E foi avisar a mulher legítima.

- Madalena, o teu marido morreu enforcado dentro da caatinga da fazenda Tabuleiro. Perdoa-me haver fugido com ele. Não se perdeu nada. Deves dar graças a Deus. Desta vez o vaso ruim quebrou-se. Casa-te com outro.

Madalena nem chorou e nem riu. Vivo ou morto não lhe faria falta. Em todo caso, Deus sabia o que fazia. Havia se conservado honesta e não seria a morte do alexandrino que iria concorrer para uma aventura qualquer. Poderia casasse isto sim, mas não seria mais com um cabra da marca de alexandrino.

Conservava ainda os traços de uma mulher atraente.

- Também não iria sair correndo a procura de homem. Alguns que já a haviam tentado; descartava-os todos. Homem que vai atrás de mulher casada, não tinha vergonha e não lhe merecia confiança. Não era nenhuma Zeferina.

Agora que já sabia que estava viúva e desimpedida e ninguém teria o que dizer dela.

Numa festa da padroeira da cidade, um rapaz de certa idade, bem fornido, começou a cercá-la. Falaram-se. Solteiro e trabalhador de fazenda. Queria casar-se com ela.

Está certo, mas antes de qualquer coisa, preciso saber vosmecê quem é. Já caí numa e quero estar livre de outra. Não tenho pressa.

- Fale com meu patrão. Ele lhe dirá quem sou. Trabalho lá desde meninote.

- Tem uma coisa ainda, não sairei de onde estou. Lá é como se tivesse pai, mãe e um bom marido. Nada me tem faltado. E só sairia se me mandasse embora. Devo até minha alma a patroa.

Diante das boas informações, Madalena casou-se.

- Madalena você tomará conta da casa, das galinhas e dos porcos. O resto será comigo. E ainda ajudarei em tudo. Teu filho, quando crescer mais, irá para a escola. O novinho, no tempo irá também. Não aprendi a ler, mas me faz muita falta. Assino mal o nome.

E se fosse o caso... ainda hoje, encontraríamos o casal no mesmo lugar, velhinhos, talvez, mas ainda brincando de se esconder!

Em – 6.7.1986.

João Henriques da Silva