MADALENA
Alexandrino largou a esposa e danou-se no mundo com uma mulher vadia
e sem futuro.
A coitada da Madalena, ficou com um filho começando a falar e
outro na barriga e sem saber o que fazer. Não podia entender como Alexandrino a
havia deixado por uma dona ordinária, mulher de todo mundo.
Madalena, uma mulher honesta, zelosa com a casa com um filho por
companhia e outro carecendo de muita ajuda. Via-se naquele instante como se
estivesse caído no fundo de um poço sem ter como sair. E com a despensa vazia,
sem dinheiro, sem nada, teria que correr a procura de um trabalho qualquer que
lhe desse o sustento e o leite para o filho Antônio.
E logo ao amanhecer, enrolou um pano no pescoço, tomou o filho nos
braços e saiu rua a fora, de casa em casa a procura de emprego.
Contava sua história, mostrava o Antônio, um coitado inocente e a
barriga avolumada que já estavam sem pai. Não tinha nada pra comer e muito
menos para pagar o magro aluguel do casebre onde morava. Se alguém não os
socorresse, estariam perdidos.
Não queria esmolar. Era deprimente e impossível para uma mulher
moça sadia e corajosa. Era mais de meio dia, quando encontrou quem se
interessasse por ela. Mas teria que ir para roça, cuidar de cabras, galinhas e
porcos no pequeno sítio da viúva sinhazinha. Não lhe faltaria alimentação e um
pequeno salário.
Pertinho da cidade, aquilo lhe pareceu uma joia achada num
palheiro. Pelo menos estaria com a alimentação assegurada e teria casa para
viver. No mesmo dia foi levada para lá e assumiu a tarefa. Afinal de contas já
havia vivido na roça e tinha alguma experiência, das coisas do campo.
Leite para Antônio não lhe faltava, e sobrava para ela. Aquilo
tudo substituía muito a falta do caboclo Alexandrino e até não desejava que ele
lhe aparecesse. Que se ficasse por onde andava com a bicha Zeferina que havia
de dar-lhe a recompensa mais tarde.
Ordinária safada, que estava pelas ruas gingando o corpo e tomando
o homem das outras. Viciada e sem vergonha como era não demoraria a botar as
unhas de fora. E era muito bem feito. Mas, como o Alexandrino também não valia
nada, talvez a abandonasse primeiro.
Madalena, com pouco tempo estava a par de tudo. Cabras, galinhas e
porcos, prosperavam a olhos vistos. E Dona Sinhazinha, satisfeita, dava-lhe o
que podia, assinou uma cabrita para o Antônio e deu-lhe meia dúzia de frangas.
Era um começo. O que queira era que continuasse zelando o que era seu e
aumentando a renda do sítio.
Do ex-marido alexandrino e a bichota Zeferina, nem queria
notícias.
Só lamentava que o filho fosse filho dele. Mudou o sobrenome de Antônio
para não ficar sequer a lembrança.
Alexandrino foi ficar longe, inclusive com receio de algum parente
de Madalena. Arranjou trabalho pesado, alugou um casebre e meterem-se dentro. A
Zeferina, profissional da gandaia, não pretendia ficar inativa. Havia de ganhar
algum dinheiro com o corpo que Deus lhe dera. E Alexandrino que não achasse
ruim.
Em todo caso procuraria ocultar o quanto possível os seus
encontros. Começou saindo pelas ruas, exibindo o material. Tanto recebia
dinheiro, quando presentinhos, o que já era de seus hábitos. Em casa, quando o
tolo chegava, desdobrava-se em carinhos como se o estivesse esperando com
ansiedade.
- Ora, meu amorzinho demorou tanto. Não faz isto com a tua
negrinha Zeferina. Estamos casados tão novos e sou só tua.
E tocou o andor para
frente. Cabra saía, cabra no chifre. O que recebia era guardado sob mil capas.
Zeferina tinha seus planos traçados. Na hora que o bestão
desconfiasse, sumiria, deixando-lhe somente uma calçola usada de presente e
lembrança.
Certo dia Alexandrino retornou antes do horário habitual. Zeferina
não estava. E teve a primeira suspeita. Poderia estar lhe traindo. Quando a danada
chegou, vinha com um pacote na mão.
- Onde estava, Zeferina. Não gosto que saias de casa quando não
estou. É bom que não me faças ciúme. Sabe que deixei a Madalena, uma mulher
daquela pra me juntar contigo. Não te esqueças disto.
- Mas como é que estás assim desconfiado de tua Zeferina. Se eu
quisesse outros homens, não teria fugido contigo.
- E o que é esse pacotinho aí?
- Olha lá tua desconfiança comigo. Fui comprar bolachas para tua
ceia e me pagas assim?
- E de onde tirastes dinheiro? Não te dei.
- Um restinho ainda do que havia trazido.
Pois guarda teu dinheiro compras aqui quem faz sou eu,
Alexandrino. Não te esqueças mais disto.
- Está certo. Poderei ir devolver.
- As bolachas foram presente do merceeiro Conrado com que havia
estado dando volteios no corpo. De qualquer forma, Alexandrino ficou cismado.
Sabia que onde foi casa, era tapera. Passa daí por diante, os dias todos com
aqueles pensamentos infernais. Só faltava morrer de ciúmes. Não há paixão maior
do que paixão por rapariga. A Zeferina era dessas ninfomaníacas que não se
contentava com um homem só e não perdia oportunidade.
Alexandrino, por sua vez, já começava a ter saudades de Madalena,
uma mulher tão boa e honesta que era. Nem atinava que diabo lhe havia dado no
couro para abandona-la por uma safada daquela, sovada por gato e cachorro. E
agora estava no prego, levando chifre e naturalmente, com os amantes da bicha
zombando dele. O melhor mesmo seria largá-la, se a apanhasse em flagrante.
Desconfiar somente era pouco. Talvez fossem somente ciúmes e suposição.
Zeferina estava saindo com o Pereira, cabra do oco do mundo, ainda
moço e valente; um desses morenos bem claros e de boa aparência. Quando
Zeferina queria voltar para esperar alexandrino em casa, ele impedia.
- Estás com medo de que?
- Só quero mesmo que aquele covarde vagabundo toque um dedo na tua
pele.
E por isto chegava sempre atrasada.
- Por onde andavas Zeferina, já te falei que teu lugar é em casa?
- Achas que vou morrer dentro dessas quatro paredes, mofando como
um pedaço de pão molhado, nem morta...
- Olhe, descobri, nos teus trastes um bocado de coisas. Donde
tirastes, com que dinheiro comprou, será que me estás enganando?
- Deixa de besteira. Se não quisesse ser direita, não teria
deixado meus amigos. Mas repara que ainda tenho corpo para voltar ao que era. E
será que me queres proibir de sair. Olha, se eu quisesse já teria muitos amigos
aqui. Bem sabes quem é a Zeferina. Basta sair balançando o material para ter
quem me queira.
Procura ganhar mais dinheiro para me dar o que quero. E outra
coisa, não ande me vigiando. O que é meu dou a quem quero. Mas não farei isto
contigo.
Alexandrino, mal saiu para o trabalho, já o último amigo de
Zeferina lhe estava à porta.
- Cadê o ciumento?
- Foi trabalhar. Aqui, não Pereira. O meu homem pode voltar. Anda
meio desconfiado.
- Então, achas que vou perder as passadas que dei. Deixa vir. É
até bom que venha e nos pegue na folia...
- Assim também é demais e dará em briga. O homem é metido a
arrochado e ciúme dá coragem.
O Pereira agarrou-se logo com Zeferina que simulou certa
resistência. Entregou-se no final. Pediu que era melhor esperá-la lá. Assim era
demais.
- Zeferina, vem cá! Por que diabo não vais logo morar comigo.
Tenho uma casinha melhor, dinheiro não nos faltará e nunca tive medo de homem
nenhum. Arruma tuas coisas e deixa esse cagão pra lá. Então, vamos embora e não
fique com medo.
- E a gente se muda daqui?
- Que nada. Tenho meus negócios e não posso sair assim.
Zeferina se foi deixando a porta escorada, presa com um pano
velho. Pereira levou-a para casa com a maior tranquilidade. Era como se
estivesse bebendo um copo d’água.
À tardinha Alexandrino chegou e toca a esperar. Desconfiado, foi
verificar os trastes de Zeferina e nada encontrou. A endemoninhada havia se
ido. Mas iria buscá-la. Não a perdoaria. E meteu o pé na estrada. Deveria ter
voltado para onde saíra. Lá não encontrou nem notícias. Tentou saber da mulher
e do filho. Quem sabe se não poderiam querê-lo de volta. Localizou-os e foi até
lá.
- Dá o fora
daqui – gritou-lhe Madalena. – Não quero te ver nem a sombra. E vai logo.
Bateu-lhe a porta na cara e trancou-se. De lá de dentro ainda gritou.
– Vou mandar
avisar ao delegado e ao meu patrão, cabra ordinário.
- Madalena, deixa ao menos olhar para o menino!
- Nada disso. Só te serve mesmo uma Zeferina! E ainda é muito
pouco... Já te disse que não queremos nem ver a sombra de tua sombra. Dá o fora
daqui e vai apagando o rastro. Deixaste-nos sem um pó de farinha para dar ao
filho.
O arrependido Alexandrino retirou-se. A mulher tinha toda razão.
Ele mesmo é que não valia nada. Até Zeferina, rapariga de ponta de rua o havia
deixado. Estava pagando o que fizera. Pois não era. Abandonar Madalena e o
filho por uma quenga daquela e agora nem uma nem outra. E uma das primeiras
coisas que vira ao voltar, foi a crueira Zeferina emparelhada com o Pereira.
Era desaforo. Botou-se para os dois.
- Vagabunda safada, vai apanhar. Tu e esse cara de pai de
chiqueiro. Zeferina encostou-se em seu Pereira e esperou a pancadaria. Era
capaz de morrer gente. Avançou como um cão danado. Recebeu um pontapé e um soco
na marra do chocalho e esparramou-se no chão. Pereira pisou-lhe na barriga e
deu-lhe uma pesada na cara.
Rolou e correu.
Havia de matar a bexiguenta Zeferina, mas ainda ia correndo. Fora
da cidade ainda tinha vontade de correr.
Era melhor mudar de ideia. E foi aí que lhe veio um pensamento
diabólico. Enforcar-se. Sem mulher e sem o filho, sem a cabrocha Zeferina, pra
que diabo viver. E, além disso, surrado e aquela pesada na cara que não pararia
de doer.
Entra pela caatinga, corta um cipó de mucunã, procurou um galho
apropriado e dependurou-se. Quando se soltou e o cipó apertou-lhe a garganta,
quis arrepende-se, mas foi tarde demais.
Antes de começar a feder, chegaram os primeiros urubus. Dos galhos
da velha catingueira, espiavam para baixo e lamentavam-se.
- Como diabo iria almoçar aquele espantalho safado. Por que não
morrera no chão.
Um urubu sentara-se no ombro e começara o trabalho difícil, aliás,
carne péssima, companheiros. Adocicada e desgostosa. Além disso, numa posição
incomoda danada desta. Só muita fome, aguenta essa porcaria. Este peste deveria
ter sido enterrado. Somente os vermes da terra podem suportá-lo.
- Urubu debaixo da catingueira, Ambrósio. Vai depressa lá. Deve
ter morrido alguma rês ou outro bicho qualquer.
Ambrósio voltou às carreiras.
- O que foi Ambrósio?
- Nem lhe digo, patão. Um homem enforcado. Pendurado num galho de
catingueira.
- Logo nos meus pastos. Vão lá, cavem um buraco debaixo do bicho,
cortem a corda e enterrem.
- Parece que os urubus não estão gostando.
- Mas, patrão, não seria melhor chamar o delegado. Pelo menos
poderia saber quem era.
- Tens razão. Manda avisar.
E entre os curiosos que foram ver o enforcado, estava a quenga
Zeferina. E lá estava o sinal de identificação, um dedo dos pés sem unha.
– Será alexandrino? – E a Zeferina rezou um pouco pela sua alma desfigurada.
Havia sido um alívio. E foi avisar a mulher legítima.
- Madalena, o teu marido morreu enforcado dentro da caatinga da
fazenda Tabuleiro. Perdoa-me haver fugido com ele. Não se perdeu nada. Deves
dar graças a Deus. Desta vez o vaso ruim quebrou-se. Casa-te com outro.
Madalena nem chorou e nem riu. Vivo ou morto não lhe faria falta.
Em todo caso, Deus sabia o que fazia. Havia se conservado honesta e não seria a
morte do alexandrino que iria concorrer para uma aventura qualquer. Poderia
casasse isto sim, mas não seria mais com um cabra da marca de alexandrino.
Conservava ainda os traços de uma mulher atraente.
- Também não iria sair correndo a procura de homem. Alguns que já
a haviam tentado; descartava-os todos. Homem que vai atrás de mulher casada,
não tinha vergonha e não lhe merecia confiança. Não era nenhuma Zeferina.
Agora que já sabia que estava viúva e desimpedida e ninguém teria
o que dizer dela.
Numa festa da padroeira da cidade, um rapaz de certa idade, bem
fornido, começou a cercá-la. Falaram-se. Solteiro e trabalhador de fazenda.
Queria casar-se com ela.
Está certo, mas antes de qualquer coisa, preciso saber vosmecê
quem é. Já caí numa e quero estar livre de outra. Não tenho pressa.
- Fale com meu patrão. Ele lhe dirá quem sou. Trabalho lá desde
meninote.
- Tem uma coisa ainda, não sairei de onde estou. Lá é como se
tivesse pai, mãe e um bom marido. Nada me tem faltado. E só sairia se me
mandasse embora. Devo até minha alma a patroa.
Diante das boas informações, Madalena casou-se.
- Madalena você tomará conta da casa, das galinhas e dos porcos. O
resto será comigo. E ainda ajudarei em tudo. Teu filho, quando crescer mais,
irá para a escola. O novinho, no tempo irá também. Não aprendi a ler, mas me
faz muita falta. Assino mal o nome.
E se fosse o caso... ainda hoje, encontraríamos o casal no mesmo
lugar, velhinhos, talvez, mas ainda brincando de se esconder!
Em – 6.7.1986.
João Henriques da Silva
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