quinta-feira, 26 de março de 2026

CHICO E AUGUSTO

 

Psicografia de Chico Xavier em Leopoldina atribuída ao espírito de Augusto dos Anjos.

 

 

                                        

                             GRATIDÃO a LEOPOLDINA*.

 

                        Sem o vulcão de dor de hórridas lavas,

                        Beija, augusto, este solo generoso,

                        Que te guardou no seio carinhoso

                        O escafandro das células escravas.

 

                        Aqui, buscaste o campo de repouso,

                        Depois de vagas ríspidas e bravas

                        No mundo áspero e vão, que detestavas,

                        E onde sorveste o cálice amargoso.

 

                        Volta, augusto, do pó que envolve as tumbas,

                        Proclama a vida além das catacumbas,

                        Nas maravilhas dos seus resplendores.

 

                        Ajoelha-te e lembra o último abrigo,

                        Esquece o travo do tormento antigo

                        E oscula a destra de teus benfeitores.

 

·         Poesia recebida em 18 de junho de 1940, em Leopoldina, onde foi sepultado o poeta.

 

 

RECORDAÇÕES EM LEOPOLDINA (*)

Augusto dos Anjos

 

A sombra amiga destes montes calmos,

Meu pobre coração de anacoreta,

Amortalhado em fina roupa preta,

Desceu à escuridão dos sete palmos.

 

Viera o fim dos sonhos intranquilos,

Entre grandes e estranhos pesadelos,

Satisfazendo aos trágicos apelos

Da guerra inexorável dos bacilos.

 

A morte terminara o horrendo cerco,

Sufocando as moléculas madrastas...

Eram milhões de células nefastas,

Voltando à paz do túmulo de esterco.

 

Indiferente aos últimos perigos,

Meu corpo recebeu o último beijo

E comecei o lúgubre cortejo,

Sustentado nos braços dos amigos.

 

Em triste solilóquio no trajeto,

Espantado, fitando as mãos de cera,

Rememorava o tempo que perdera,

Desde as primárias convulsões do feto.

 

Porque morrer amando e haver descrido

Do Eterno Sol, do qual vivera em fuga?

Como é sombrio o pranto que se enxuga

Pelo infinito horror de haver nascido!...

 

Depois, vi-me no campo onde a dor medra,

Ao contato do chão frio e profundo,

Chegara para mim o fim do mundo,

Entre as cruzes e os dísticos de pedra.

 

Terrível comoção pintou-me a cara,

Na escabrosa cidade dos pés juntos,

Tornara-se defunta, entre os defuntos,

Toda a ciência de que me orgulhara.

 

Trêmulo e só no leito subterrâneo,

Sentia, frente à lógica dos fatos,

O pavor dos morcegos e dos ratos,

Dominar os abismos de meu crânio.

 

Meus ideais mais puros, meus lamentos,

E a minha vocação para a desgraça

Reduziam-se a mísera carcaça

Para o açougue dos vermes famulentos.

 

Em seguida o abandono, enfim, do plasma,

Os micróbios gritando independência...

E tomei nova forma de existência

Sob a fisiologia do fantasma.

 

Fugindo então ao gelo, à sombra e à ruína.

Do caos sinistro em que vivi submerso

Revelou-se-me a glória do universo,

Santificado pela Luz Divina.

 

Oh! Que ninguém perturbe os meus destroços,

Nem arranque meu corpo à última furna,

É Leopoldina a generosa urna,

Que, acolhedora, me resguarda os ossos.

 

Beije minhalma alegre o pó da rua,

Deste painel bucólico e risonho,

Onde aprendi, no derradeiro sonho,

Que o mistério da vida continua...

 

Bendita seja a Terra, augusta e forte,

Onde, através das vascas da agonia,

Encontrei em mim mesmo, em novo dia,

Pelas revelações de luz da morte.

 

(*) Espírito:  Augusto dos Anjos -Psicografia de Francisco Cândido Xavier

Recebida em 17 de julho de 1947

 

https://leopoldinense.com.br/video/75/psicografia-de-chico-xavier-em-leopoldina-atribuida-ao-espirito-de-augusto-dos-anjos

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