Psicografia de Chico Xavier em
Leopoldina atribuída ao espírito de Augusto dos Anjos.
GRATIDÃO a
LEOPOLDINA*.
Sem o vulcão de dor de
hórridas lavas,
Beija, augusto, este
solo generoso,
Que te guardou no seio
carinhoso
O escafandro das
células escravas.
Aqui, buscaste o campo
de repouso,
Depois de vagas
ríspidas e bravas
No mundo áspero e vão,
que detestavas,
E onde sorveste o
cálice amargoso.
Volta, augusto, do pó
que envolve as tumbas,
Proclama a vida além
das catacumbas,
Nas maravilhas dos seus
resplendores.
Ajoelha-te e lembra o
último abrigo,
Esquece o travo do
tormento antigo
E oscula a destra de
teus benfeitores.
·
Poesia recebida em 18 de junho de 1940, em Leopoldina, onde foi
sepultado o poeta.
RECORDAÇÕES EM LEOPOLDINA (*)
Augusto dos Anjos
A sombra amiga destes montes calmos,
Meu pobre coração de anacoreta,
Amortalhado em fina roupa preta,
Desceu à escuridão dos sete palmos.
Viera o fim dos sonhos intranquilos,
Entre grandes e estranhos pesadelos,
Satisfazendo aos trágicos apelos
Da guerra inexorável dos bacilos.
A morte terminara o horrendo cerco,
Sufocando as moléculas madrastas...
Eram milhões de células nefastas,
Voltando à paz do túmulo de esterco.
Indiferente aos últimos perigos,
Meu corpo recebeu o último beijo
E comecei o lúgubre cortejo,
Sustentado nos braços dos amigos.
Em triste solilóquio no trajeto,
Espantado, fitando as mãos de cera,
Rememorava o tempo que perdera,
Desde as primárias convulsões do feto.
Porque morrer amando e haver descrido
Do Eterno Sol, do qual vivera em fuga?
Como é sombrio o pranto que se enxuga
Pelo infinito horror de haver nascido!...
Depois, vi-me no campo onde a dor medra,
Ao contato do chão frio e profundo,
Chegara para mim o fim do mundo,
Entre as cruzes e os dísticos de pedra.
Terrível comoção pintou-me a cara,
Na escabrosa cidade dos pés juntos,
Tornara-se defunta, entre os defuntos,
Toda a ciência de que me orgulhara.
Trêmulo e só no leito subterrâneo,
Sentia, frente à lógica dos fatos,
O pavor dos morcegos e dos ratos,
Dominar os abismos de meu crânio.
Meus ideais mais puros, meus lamentos,
E a minha vocação para a desgraça
Reduziam-se a mísera carcaça
Para o açougue dos vermes famulentos.
Em seguida o abandono, enfim, do plasma,
Os micróbios gritando independência...
E tomei nova forma de existência
Sob a fisiologia do fantasma.
Fugindo então ao gelo, à sombra e à ruína.
Do caos sinistro em que vivi submerso
Revelou-se-me a glória do universo,
Santificado pela Luz Divina.
Oh! Que ninguém perturbe os meus destroços,
Nem arranque meu corpo à última furna,
É Leopoldina a generosa urna,
Que, acolhedora, me resguarda os ossos.
Beije minhalma alegre o pó da rua,
Deste painel bucólico e risonho,
Onde aprendi, no derradeiro sonho,
Que o mistério da vida continua...
Bendita seja a Terra, augusta e forte,
Onde, através das vascas da agonia,
Encontrei em mim mesmo, em novo dia,
Pelas revelações de luz da morte.
(*) Espírito:
Augusto dos Anjos -Psicografia de Francisco Cândido Xavier
Recebida em 17 de julho de 1947
https://leopoldinense.com.br/video/75/psicografia-de-chico-xavier-em-leopoldina-atribuida-ao-espirito-de-augusto-dos-anjos
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