O ENCANGAMENTO DE PREQUETÉ COM A BELINHA
- História sem pé e nem cabeça -
Zé Pandora chegou em casa abufelado,
emburrado, contrariado, indignado, bufando pelas ventas, chutando o que via
pela frente.
- Mariquinha abra a danada desta porta que
hoje não estou de brincadeira. Como pode se viver numa terra dessa, sem lei e
sem dono. Todo cafajeste agora quer mandar e desmandar, um bando de mulheres
que em invés de tomar conta de casa fica pelas calçadas donde opinião do que não
sabe. Colocando ordem e lei do que não entendem. Um bando de despreparadas.
Magote de fuinha. Bando de cabra de peia. O mundo está perdido. Bem que meu
velho avô dizia que a roda grande, um dia ia passar por dentro da roda pequena.
O diabo que desconjure. Dá vontade de me socar aqui no mato e nunca mais botar
as fuças na rua.
- Mas, Doba, o que foi que aconteceu, mataram
algum parente seu ou lhe roubaram?
- Roubar o quê? O que diabo tenho para ser
tirado, só tenho você e este pedaço de chão com essa velha casa amarela que
herdamos do meu pai e que meu pai herdou do meu avô. Mesmo assim numa situação
de cai não cai. Entra governo e sai governo e nada muda. Tudo conversa de miolo
de pote. As vezes penso em desaparecer, cair no oco do mundo, evaporar, me
escafeder para não ver tanta falta de vergonha, safadeza. Às vezes acho que
Deus saiu dessa terra sem lei.
- Meu nego, entre para dentro de casa, venha
tomar um gole d’água, uma garapa. Você pode ter um faniquito se não desabafar.
Entrou, sentou-se na sua espreguiçadeira,
desabotoou a camisa e recebeu um caneco de alumínio com uma garapa bem docinha.
Com o tempo acalmou-se.
- Pois não é Mariquinha que a presepada que
vi hoje na rua é do cabra não se conter.
- Desabafe tudo.
- Sabe o filho de compadre Izodoro, aquele
que é meio abestalhado, cismou de alugar uma bicicleta do seu Basto, aquele da
borracharia, que vive explorando as crianças, alugando bicicletas por minutos.
O velho safado sabia que o menino não tem a cachola boa e mesmo assim permitiu
que saísse na danada.
Toinho que de doido só tinha a
metade, saiu empurrando até sair da visão do seu Basto. Encostou a bicha numa
calçada, subiu, enganchou os cambitos nos pedais e num impulso medonho
conseguiu dar partida.
- Eu assisti tudo, pois estava
ajeitado a frente da casa de dona margarida, mesmo onde aconteceu a queda.
A cidade de Macaíba era pequena.
Talvez uns três mil habitantes. Situada no meio da Paraíba. Nem era Litoral,
nem Zona da Mata, nem Agreste, nem Curimataú, nem Cariri e muito menos Sertão.
Lugar esquisito. Da estrada principal até a cidade dava uns trinta km. De lá
não tinha para onde ir, era só voltar de onde veio. O povo vivia de uma maneira
corriqueira como em muitas cidades do interior. Prefeito, vice, vereadores,
secretários, a metade dos funcionários era babões (eleitores) do atual governo.
Alguns comerciantes lutando para sobreviver, pouco fazendeiros e o resto da
população, ficava entre o bolsa família e trabalhadores de aluguel que tinha
perdido a ajuda governamental por ser do candidato derrotado. A vida corria
mansa.
Macaíba só tinha uma rua principal
dividida por um canteiro plantado com algaroba, e umas pequenas ruelas
adjacentes.
Não sei por que o prefeito tinha colocado
diversos quebra-molas nesta bendita avenida.
Toinho, desembestado na bicicleta, partiu em
direção ao maldito quebra-molas, sentindo pela primeira vez o ar batendo na sua
cara de alegria, olhando para os lados como se dissesse estou voando minha
gente. De repente passou sobre o desacelerador de velocidade perdeu o controle
da máquina terrível.
Neste
momento, por ironia do destino ia passando a cachorra da professora Ida, filha
natural da cidade de Macaíba que ia chegando do trabalho. Que tempos atrás
tinha ido estudar na capital para professora e no término do curso trouxera
dois diplomas, um enrolado nas mãos e outro dentro do bucho.
Edileusa, desse tempo para cá, nunca mais
gostou de criança. Sofreu que só bode embarcado. Perdeu a criança, talvez pelo sofrimento que
a sociedade lhe impingiu. Vivia com a mãe e uma cachorra que parecia com uma
Pequinês, aquela que só vive rindo, troço mais feio do mundo, cruzamento talvez
com timbu.
Dormia na cama dela, tinha tigela para água e
comida de louça. Roupa para as noites frias. Era a xodó dela. Belinha!
A condenada, toda vez que a mãe ia chegando
perto da casa, corria feito uma louca para receber os carinhos costumeiros.
Nesse exato momento, o desgovernado ciclista
– como sempre acontece, parece que o obstáculo à frente atrai quem vem
pilotando; partiu diretamente em direção a abestada da Belinha.
Bicicleta para um lado, a abestalhada para
outro, o berreiro da professora e a plateia que viviam sentada nas calçadas, falando
da vida alheia, gritando impropérios contra o pobre do Toinho, que sem saber de
nada, choramingava com as dores nos joelhos e cotovelos sangrando e um galo na
testa, camisa rasgada e o medo da zoada de que o seu basto ia fazer quando
visse a bicicleta naquele estado.
A que mais latomia fazia era dona Bertina,
gorda, solteirona, feia e desengonçada e dona de um gato chamado Prequeté amarelado
e manhoso que só vivia nos braços da reporte da vida alheia.
- Fez de propósito, eu vi com meus próprios
olhos de que a terra há de comer. O moleque botou por cima mesmo. Foi de
vontade própria, o bicho é ruim, só vive fazendo o que não presta pelo meio da
rua.
- Chame o cabo Tenório e mande prender esse
danado.
- Isso mesmo, se faz de doido para maltratar
os animais da gente. Tem que ser punido.
- Segurem ele se não foge. Outro dia eu o vi
dar um chute num cachorro que correu para morder as canelas dele. Menino dos
diabos.
- Parece que não tem nem pai e nem mãe, só
vive perambulando pelo meio do mundo.
Nisso, agarraram o pobre, levaram para a
calçada à espera das autoridades.
De repente, grita lá do outro lado da rua o
sacristão Eubório – Deixem esse menino em paz bando de carola pecadoras. Eu vi
tudo, o menino não teve culpa, a danada da cachorra da professora, que não pode
ver ninguém na rua que corre atrás e o gato veio de dona Bertina, que nem rato
sabe caçar, foram os causadores da queda da criança. Pegou o menino e o levou
para sua casa onde prestou os primeiros curativos.
O barulho foi desfeito, cada um para suas
cadeiras nas calçadas e o Toinho, com muita dificuldade apanhou a bicicleta e
se danou para entregar a magrela ao dono.
- Pois é mulher, me dá na cabeça a vontade de
fazer uma presepada com aquela gente metida a besta que só valoriza animais em
vez de parir e tomar uma criança nos braços, vivem agarradas e cheirando o mixo
e o coco dos bichos. Vejam só o que que iam fazer com o pobre do doidinho do
compadre.
Os dias se passaram, a turma da fuxicaria foi
esquecendo, o doidinho nunca mais passou pela rua. Porém seu Zé Pandora não
tinha, ainda, tirado da cachola o nefasto acontecimento. A noite, os miolos
catucavam sussurrando como preparar uma vingança.
- Já sei! -Disse ao se levantar.
- O que danado tu já sabes homem,
estás sonhando, ainda não despertou?
- Aquela história da cachorra lá na
rua. Nunca mais saiu da minha mente. Arranjei um jeito de me vingar daquelas detetives
da vida alheia. Vou combinar com o comadre e pôr em prática meu plano.
Certo dia, na mesma rua, as mesmas
personagens, encamisoladas, descontroladas, e ao nascer do sol, as donas do
gato e do cachorro nas portas das suas casas gritam uma para a outra
- Mulher, pela o amor de Deus, você
viu meu bichano? Acordei e não estava como sempre na minha cama. Já procurei
por todo canto e nada.
- Oxente. Saí para ver se minha
paixão tinha saído às escondidas. Dorme agarradinho comigo e ao me virar na
cama para me levantar, senti um vazio.
Nesse vai e vem, procura e não acha.
Sobe e desce rua. Acusa todo mundo. O mato abriu e fechou.
Lá pelo meio-dia, onde quase todos
tiram uma madorna depois de encherem o bucho, alguém gritou.
- Meu Deus, venham ver a desgraça.
Quem foi o miserável que fez isso. Coisa de gente doida mesmo. Aí foram botando
a cara de fora, os poucos transeuntes foram se juntando e a zuada parecia com
um enxame de abelhas.
No meio da rua em frente, onde o
pobre Toinho tinha sido atropelado, estavam encangados, amarrados rabo com rabo
com fita isolante, os dois desaparecidos. Era um verdadeiro arranca rabo. Cada
um por seu lado e entre miados latidos, ninguém conseguia chegar perto para
desatar e nesse moído todo, sobe rua e desce rua, ora o gato puxava, ora o cão
para seu lado e nisso, veio a camionete uma Chevrolet Brasil de ano 1956 de cor
branco do Dr. Daniel e abreviou a agonia dos dois.
Grijalva
25/07/2026
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