sábado, 25 de julho de 2026

O ENCANGAMENTO

 

O ENCANGAMENTO DE PREQUETÉ COM A BELINHA

- História sem pé e nem cabeça -

Zé Pandora chegou em casa abufelado, emburrado, contrariado, indignado, bufando pelas ventas, chutando o que via pela frente.

- Mariquinha abra a danada desta porta que hoje não estou de brincadeira. Como pode se viver numa terra dessa, sem lei e sem dono. Todo cafajeste agora quer mandar e desmandar, um bando de mulheres que em invés de tomar conta de casa fica pelas calçadas donde opinião do que não sabe. Colocando ordem e lei do que não entendem. Um bando de despreparadas. Magote de fuinha. Bando de cabra de peia. O mundo está perdido. Bem que meu velho avô dizia que a roda grande, um dia ia passar por dentro da roda pequena. O diabo que desconjure. Dá vontade de me socar aqui no mato e nunca mais botar as fuças na rua.

- Mas, Doba, o que foi que aconteceu, mataram algum parente seu ou lhe roubaram?

- Roubar o quê? O que diabo tenho para ser tirado, só tenho você e este pedaço de chão com essa velha casa amarela que herdamos do meu pai e que meu pai herdou do meu avô. Mesmo assim numa situação de cai não cai. Entra governo e sai governo e nada muda. Tudo conversa de miolo de pote. As vezes penso em desaparecer, cair no oco do mundo, evaporar, me escafeder para não ver tanta falta de vergonha, safadeza. Às vezes acho que Deus saiu dessa terra sem lei.

- Meu nego, entre para dentro de casa, venha tomar um gole d’água, uma garapa. Você pode ter um faniquito se não desabafar.

Entrou, sentou-se na sua espreguiçadeira, desabotoou a camisa e recebeu um caneco de alumínio com uma garapa bem docinha. Com o tempo acalmou-se.

- Pois não é Mariquinha que a presepada que vi hoje na rua é do cabra não se conter.

- Desabafe tudo.

- Sabe o filho de compadre Izodoro, aquele que é meio abestalhado, cismou de alugar uma bicicleta do seu Basto, aquele da borracharia, que vive explorando as crianças, alugando bicicletas por minutos. O velho safado sabia que o menino não tem a cachola boa e mesmo assim permitiu que saísse na danada.

            Toinho que de doido só tinha a metade, saiu empurrando até sair da visão do seu Basto. Encostou a bicha numa calçada, subiu, enganchou os cambitos nos pedais e num impulso medonho conseguiu dar partida.

            - Eu assisti tudo, pois estava ajeitado a frente da casa de dona margarida, mesmo onde aconteceu a queda.

            A cidade de Macaíba era pequena. Talvez uns três mil habitantes. Situada no meio da Paraíba. Nem era Litoral, nem Zona da Mata, nem Agreste, nem Curimataú, nem Cariri e muito menos Sertão. Lugar esquisito. Da estrada principal até a cidade dava uns trinta km. De lá não tinha para onde ir, era só voltar de onde veio. O povo vivia de uma maneira corriqueira como em muitas cidades do interior. Prefeito, vice, vereadores, secretários, a metade dos funcionários era babões (eleitores) do atual governo. Alguns comerciantes lutando para sobreviver, pouco fazendeiros e o resto da população, ficava entre o bolsa família e trabalhadores de aluguel que tinha perdido a ajuda governamental por ser do candidato derrotado. A vida corria mansa.

            Macaíba só tinha uma rua principal dividida por um canteiro plantado com algaroba, e umas pequenas ruelas adjacentes.

Não sei por que o prefeito tinha colocado diversos quebra-molas nesta bendita avenida.

Toinho, desembestado na bicicleta, partiu em direção ao maldito quebra-molas, sentindo pela primeira vez o ar batendo na sua cara de alegria, olhando para os lados como se dissesse estou voando minha gente. De repente passou sobre o desacelerador de velocidade perdeu o controle da máquina terrível.

 Neste momento, por ironia do destino ia passando a cachorra da professora Ida, filha natural da cidade de Macaíba que ia chegando do trabalho. Que tempos atrás tinha ido estudar na capital para professora e no término do curso trouxera dois diplomas, um enrolado nas mãos e outro dentro do bucho.

Edileusa, desse tempo para cá, nunca mais gostou de criança. Sofreu que só bode embarcado.  Perdeu a criança, talvez pelo sofrimento que a sociedade lhe impingiu. Vivia com a mãe e uma cachorra que parecia com uma Pequinês, aquela que só vive rindo, troço mais feio do mundo, cruzamento talvez com timbu.

Dormia na cama dela, tinha tigela para água e comida de louça. Roupa para as noites frias. Era a xodó dela. Belinha!

A condenada, toda vez que a mãe ia chegando perto da casa, corria feito uma louca para receber os carinhos costumeiros.

Nesse exato momento, o desgovernado ciclista – como sempre acontece, parece que o obstáculo à frente atrai quem vem pilotando; partiu diretamente em direção a abestada da Belinha.

Bicicleta para um lado, a abestalhada para outro, o berreiro da professora e a plateia que viviam sentada nas calçadas, falando da vida alheia, gritando impropérios contra o pobre do Toinho, que sem saber de nada, choramingava com as dores nos joelhos e cotovelos sangrando e um galo na testa, camisa rasgada e o medo da zoada de que o seu basto ia fazer quando visse a bicicleta naquele estado.

A que mais latomia fazia era dona Bertina, gorda, solteirona, feia e desengonçada e dona de um gato chamado Prequeté amarelado e manhoso que só vivia nos braços da reporte da vida alheia.

- Fez de propósito, eu vi com meus próprios olhos de que a terra há de comer. O moleque botou por cima mesmo. Foi de vontade própria, o bicho é ruim, só vive fazendo o que não presta pelo meio da rua.

- Chame o cabo Tenório e mande prender esse danado.

- Isso mesmo, se faz de doido para maltratar os animais da gente. Tem que ser punido.

- Segurem ele se não foge. Outro dia eu o vi dar um chute num cachorro que correu para morder as canelas dele. Menino dos diabos.

- Parece que não tem nem pai e nem mãe, só vive perambulando pelo meio do mundo.

Nisso, agarraram o pobre, levaram para a calçada à espera das autoridades.

De repente, grita lá do outro lado da rua o sacristão Eubório – Deixem esse menino em paz bando de carola pecadoras. Eu vi tudo, o menino não teve culpa, a danada da cachorra da professora, que não pode ver ninguém na rua que corre atrás e o gato veio de dona Bertina, que nem rato sabe caçar, foram os causadores da queda da criança. Pegou o menino e o levou para sua casa onde prestou os primeiros curativos.

O barulho foi desfeito, cada um para suas cadeiras nas calçadas e o Toinho, com muita dificuldade apanhou a bicicleta e se danou para entregar a magrela ao dono.

- Pois é mulher, me dá na cabeça a vontade de fazer uma presepada com aquela gente metida a besta que só valoriza animais em vez de parir e tomar uma criança nos braços, vivem agarradas e cheirando o mixo e o coco dos bichos. Vejam só o que que iam fazer com o pobre do doidinho do compadre.

Os dias se passaram, a turma da fuxicaria foi esquecendo, o doidinho nunca mais passou pela rua. Porém seu Zé Pandora não tinha, ainda, tirado da cachola o nefasto acontecimento. A noite, os miolos catucavam sussurrando como preparar uma vingança.

            - Já sei! -Disse ao se levantar.

            - O que danado tu já sabes homem, estás sonhando, ainda não despertou?

            - Aquela história da cachorra lá na rua. Nunca mais saiu da minha mente. Arranjei um jeito de me vingar daquelas detetives da vida alheia. Vou combinar com o comadre e pôr em prática meu plano.

Certo dia, na mesma rua, as mesmas personagens, encamisoladas, descontroladas, e ao nascer do sol, as donas do gato e do cachorro nas portas das suas casas gritam uma para a outra

            - Mulher, pela o amor de Deus, você viu meu bichano? Acordei e não estava como sempre na minha cama. Já procurei por todo canto e nada.

            - Oxente. Saí para ver se minha paixão tinha saído às escondidas. Dorme agarradinho comigo e ao me virar na cama para me levantar, senti um vazio.

            Nesse vai e vem, procura e não acha. Sobe e desce rua. Acusa todo mundo. O mato abriu e fechou.

            Lá pelo meio-dia, onde quase todos tiram uma madorna depois de encherem o bucho, alguém gritou.

            - Meu Deus, venham ver a desgraça. Quem foi o miserável que fez isso. Coisa de gente doida mesmo. Aí foram botando a cara de fora, os poucos transeuntes foram se juntando e a zuada parecia com um enxame de abelhas.

            No meio da rua em frente, onde o pobre Toinho tinha sido atropelado, estavam encangados, amarrados rabo com rabo com fita isolante, os dois desaparecidos. Era um verdadeiro arranca rabo. Cada um por seu lado e entre miados latidos, ninguém conseguia chegar perto para desatar e nesse moído todo, sobe rua e desce rua, ora o gato puxava, ora o cão para seu lado e nisso, veio a camionete uma Chevrolet Brasil de ano 1956 de cor branco do Dr. Daniel e abreviou a agonia dos dois.

Grijalva

25/07/2026

 

 

 

 

 

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