quarta-feira, 28 de outubro de 2026

OUTRAS DO AUGUSTO DOS ANJOS

 

O ÚLTIMO NÚMERO - Augusto dos Anjos

 (do livro Eu e Outras Poesias, 1920)

 

Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado,

A Ideia estertorava-se... No fundo

Do meu entendimento moribundo

Jazia o último Número cansado.

 

Era de vê-lo, imóvel, resignado,

Tragicamente de si mesmo oriundo,

Fora da sucessão, estranho ao mundo,

Com o reflexo fúnebre do Incriado:

 

Bradei: - Que fazes ainda no meu crânio?

E o Último Número, atro e subterrâneo,

Parecia dizer-me: "E tarde, amigo!

 

Pois que a minha antogênica Grandeza

Nunca vibrou em tua língua presa,

Não te abandono mais! Morro contigo!

 

Agora comparem com esses versos escritos depois de morto e psicografado pro Chico Xavier em 1932 no livro Parnaso de além Túmulo.

 

Sístoles e diástoles derradeiras

No hirto peito, rígido e gelado;

E eu via o Último Número extenuado,

Estertorando sobre as montureiras.

 

Interregno, escuridão, ânsia e inferneiras;

Depois o ar, o oxigênio eterizado,

E depois do oxigênio o ilimitado

Resplendente clarão de horas primeiras.

 

Busquei a última visão das vistas foscas

O Derradeiro Número entre as moscas,

À camada telúrica adstrito;

 

E eu, vítima dútil da desgraça,

Vi que cada minuto que se passa

É a nova luz do Número Infinito.

 

 

 

 

 

 

 


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