quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

VANDALISMO

 

O MAIOR POETA DO MUNDO

 

VANDALISMO

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas,
Cintilações de lâmpadas suspensas,
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais,
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos…

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a Imagem dos meus próprios sonhos!

Pau d'Arco – 1904.
Augusto dos Anjos
            Vamos ver o que a inteligência artificial tem a dizer desse poema, considerado um dos mais belos e significativos, que uma mente humana pode externar um sentimento em tão poucas palavras...

            "Vandalismo" é um famoso poema de Augusto dos Anjos, inserido no Pré-Modernismo, que descreve a destruição de ideais e sentimentos puros (as "catedrais" e "sonhos") por uma força avassaladora, como a paixão ou o desejo, personificada por um "nume de amor" que se torna um "iconoclasta", quebrando suas próprias ilusões e confraternizando com a realidade cruel e desiludida, refletindo a complexidade da alma humana e a desilusão.

Resumo do Poema:

            As Catedrais Internas: O eu lírico descreve seu coração como catedrais imensas, cheias de crenças e luzes, um lugar de amor e pureza.

            A Entrada do Vandalismo: Ele entra nesses templos como um Templário medieval, com espadas (gládios) e lanças, um ato de destruição iconoclasta.

A Destruição dos Sonhos: Ele quebra as imagens dos próprios sonhos, representando a ruptura com o idealismo e a aceitação de uma realidade mais sombria e visceral.

            Conflito Interno: O poema explora o conflito entre o amor idealizado e a paixão arrebatadora, onde o desejo destrói a pureza, e o eu lírico se torna o agente dessa própria destruição, um ato de auto-vandalismo.”

            Agora vamos ouvi o Chico Viana, professor e doutor em letras, com tese sobre o poeta.

            Vandalismo” é o único poema com características simbolistas que aparece no “Eu”. Os outros o poeta deixou de lado, e os críticos hoje lhe dão razão: embora tecnicamente bem-feitos, eles pouco acrescentam à obra do paraibano. Refletem uma temática comum à época e apresentam um estoque de imagens que estão longe de caracterizar o Augusto dos Anjos que viríamos a conhecer e admirar.

            O tema de “Vandalismo” é a perda da crença. É a “mágoa” subsequente ao desencanto que a descrença traz. Lembremos os versos, muito conhecidos por sinal:
            O soneto reflete um estado de espírito típico do final do século 19, quando as ideias científicas advindas do Positivismo ameaçavam os anseios de transcendência e espiritualidade. Augusto voltaria a tema semelhante em “A ilha de Cipango”, mas com uma dicção pré-moderna.

            Por que o poeta manteve “Vandalismo” no “Eu” apesar do seu claro acento simbolista, que se evidencia no léxico raro, precioso, próximo da “estética da sugestão”? Esse léxico, afinal, está muito distante do vocabulário prosaico e “científico” que lhe permeia a obra.

            Talvez a escolha tenha mesmo um valor... simbólico. Se “Monólogo de uma Sombra” antecipa alguns dos temas caros ao poeta (como a culpa melancólica, a contestação do Positivismo e a rejeição à sexualidade), “Vandalismo” é um momento de ruptura. Há também nele, graças sobretudo à força das aliterações, uma rispidez expressionista que vai se constituir numa das marcas do seu estilo. Uma rispidez que faz lembrar a “poética por estampidos” apontada por Manuel Bandeira.
            A iconoclastia que o eu lírico refere no último terceiro se reforça, fonicamente, nos “gládios” e “hastas” que se “erguem” para destruir um ideal. Um ideal não religioso, mas estético, representado pela concepção da poesia como pura música, evanescência que tranquiliza o espírito.

            Os versos do último terceto constituem uma antítese à estrofe imediatamente anterior, na qual se fala em “templos claros risonhos”, e soam como o anúncio de uma nova opção estética. Uma opção que fará com que no “Eu” prevaleça não a claridade, mas a Sombra. E se nele algum riso houver, será de ironia ou sarcasmo.

 

 

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