O MAIOR
POETA DO MUNDO
VANDALISMO
Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.
Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas,
Cintilações de lâmpadas suspensas,
E as ametistas e os florões e as pratas.
Como os velhos Templários medievais,
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos…
E erguendo os gládios e brandindo as
hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a Imagem dos meus próprios sonhos!
Pau d'Arco – 1904.
Augusto dos Anjos
Vamos ver o que a inteligência
artificial tem a dizer desse poema, considerado um dos mais belos e
significativos, que uma mente humana pode externar um sentimento em tão poucas
palavras...
"Vandalismo" é um famoso
poema de Augusto dos Anjos, inserido no Pré-Modernismo, que
descreve a destruição de ideais e sentimentos puros (as "catedrais" e
"sonhos") por uma força avassaladora, como a paixão ou o desejo,
personificada por um "nume de amor" que se torna um
"iconoclasta", quebrando suas próprias ilusões e confraternizando com
a realidade cruel e desiludida, refletindo a complexidade da alma humana e a
desilusão.
Resumo do Poema:
As Catedrais Internas: O eu
lírico descreve seu coração como catedrais imensas, cheias de crenças e luzes,
um lugar de amor e pureza.
A Entrada do Vandalismo: Ele
entra nesses templos como um Templário medieval, com espadas (gládios) e
lanças, um ato de destruição iconoclasta.
A Destruição dos
Sonhos: Ele quebra as imagens dos próprios sonhos, representando a ruptura
com o idealismo e a aceitação de uma realidade mais sombria e visceral.
Conflito Interno: O poema
explora o conflito entre o amor idealizado e a paixão arrebatadora, onde o
desejo destrói a pureza, e o eu lírico se torna o agente dessa própria
destruição, um ato de auto-vandalismo.”
Agora vamos ouvi o Chico Viana,
professor e doutor em letras, com tese sobre o poeta.
Vandalismo” é o único poema com
características simbolistas que aparece no “Eu”. Os outros o poeta deixou de
lado, e os críticos hoje lhe dão razão: embora tecnicamente bem-feitos, eles
pouco acrescentam à obra do paraibano. Refletem uma temática comum à época e
apresentam um estoque de imagens que estão longe de caracterizar o Augusto dos
Anjos que viríamos a conhecer e admirar.
O tema de “Vandalismo” é a perda da
crença. É a “mágoa” subsequente ao desencanto que a descrença traz. Lembremos
os versos, muito conhecidos por sinal:
O soneto reflete um estado de
espírito típico do final do século 19, quando as ideias científicas advindas do
Positivismo ameaçavam os anseios de transcendência e espiritualidade. Augusto
voltaria a tema semelhante em “A ilha de Cipango”, mas com uma dicção
pré-moderna.
Por que o poeta manteve “Vandalismo”
no “Eu” apesar do seu claro acento simbolista, que se evidencia no léxico raro,
precioso, próximo da “estética da sugestão”? Esse léxico, afinal, está muito
distante do vocabulário prosaico e “científico” que lhe permeia a obra.
Talvez a escolha tenha mesmo um
valor... simbólico. Se “Monólogo de uma Sombra” antecipa alguns dos temas caros
ao poeta (como a culpa melancólica, a contestação do Positivismo e a rejeição à
sexualidade), “Vandalismo” é um momento de ruptura. Há também nele, graças
sobretudo à força das aliterações, uma rispidez expressionista que vai se
constituir numa das marcas do seu estilo. Uma rispidez que faz lembrar a
“poética por estampidos” apontada por Manuel Bandeira.
A iconoclastia que o eu lírico
refere no último terceiro se reforça, fonicamente, nos “gládios” e “hastas” que
se “erguem” para destruir um ideal. Um ideal não religioso, mas estético,
representado pela concepção da poesia como pura música, evanescência que
tranquiliza o espírito.
Os versos do último terceto
constituem uma antítese à estrofe imediatamente anterior, na qual se fala em
“templos claros risonhos”, e soam como o anúncio de uma nova opção estética.
Uma opção que fará com que no “Eu” prevaleça não a claridade, mas a Sombra. E
se nele algum riso houver, será de ironia ou sarcasmo.
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