O CHARUTO PSICÓLOGO
Estava impressa
no meu semicoco uma piada que meu pai sempre contava, ainda quando eu era
menino pequeno, isto é, quando piada simples tinha valor dentro do convívio
familiar. Como tudo fica gravado, hoje lembrei, não sei por quê. Mas vou botar
pra fora como acho que tinha acontecido num passado, lá pra trás.
Fui pesquisar nos
anos de 1950 o local onde a história, acho que tinha se passado, e achei
exatamente uma que tinha as mesmas características, como meu pai tinha
descrito.
Na grandiosa
Wanamaker’s Filadélfia dos anos de 1950, conhecida pela grandiosidade, órgão
monumental e luxo com múltiplos andares de mercadoria e até um salão de chá.
Fora uma cadeia
de lojas de departamento americana fundada em 1861 e extinta há, 31 anos em
1995 tinha de um tudo: roupas, calçados, utensílios domésticos, mobília,
brinquedos, joias, lençóis e uma infinidade de bugigangas que os americanos
gostam de gastar dinheiros em coisas fúteis.
Era mesmo que tá
vendo, grandes vitrines com vidros enormes, portas escancaradas de madeira de
lei com desenhos em alto relevo, chão impecavelmente limpo e brilhante, talvez
de mármore de Carrara, prateleiras de cima a baixo cheias de ilusões. Era uma
parafernália dos diabos, uma armadilha inexorável para os transeuntes inocentes
e pobres. Só os ricos se atreviam a subir os degraus dessa quimera.
Nisso, vem
passando descompassadamente uma singela senhora, acho que quase perdida pelo
meio da avenida, como se tivesse caído de um caminhão de mudança; puxando um
pirralho embirrento, quando de repente o moleque avistou na grande vitrine um
velocípede vermelho com rodas brancas.
Não se fez de rogado, soltou-se da mãe e como um raio, atravessou o
resto da rua, subiu os degraus, atravessou a grande porta, dirigiu-se a vitrine
por dentro, puxou o sonho de todo menino daquela época, colocou o danado no
salão e começou a pedalar pra cima e pra baixo, ziguezagueando
entre as pessoas e as vezes barroando nas canelas dos ricaços.
A pobre mãe
aflita com aquela situação inesperada, ficou sem saber o que fazer. O medo subjetivo e adjetivo que o
pobre tem do rico, fez com que o lado materno sobrepujasse a comédia humana que
havia dentro do âmago da raça tida como inferior, vencesse todas essas forças
primitivas e ufanamente de peito erguido, usando de gládios imaginários como
Dom Quixote, subisse atrás celeremente do seu querido filho. Amor de mãe é a
maior força constrita do universo.
Com muito afinco
consegui parar o glorioso diabinho.
- Filho desça
daí. Vamos para casa. O papai está esperando.
Cinco anos de
desobediência, não era fácil acabar de repente.
- Não desço, ele
é meu!
Vamos filhote
esse brinquedo é caro, não temos dinheiro para comprar, a mamãe quando chegar
em casa vai lhe dar cocada e mingau que você tanto gosta.
- Não saio, só
vou com ele.
- Meu bem, não
faça isso com a mamãe. Desça depressa daí.
- Não desço.
Desce não desce,
choro, esperneio, rogo da mãe, pedido e promessas a todos os santos e nada. Não
sabia mais o que fazer, vendo a hora chamarem as autoridades e serem expulsos
vergonhosamente como cachorros sem donos.
As pessoas
entravam e saiam sempre evitando aquele alvoroço feito por gente pobre.
Nisso aparece uma
vendedora do setor de brinquedos e calmamente tenta conversar com o danado do
menino; nada, irredutível.
- Não desço ele é
meu!
Chega à
supervisora do setor e não tem acordo. Chama o gerente do andar, nada de nada.
De repente aparece o gerente geral da loja e vendo aquela situação, manda
chamar a psicóloga.
- A doutora Corona vai resolver ligeiro. Meia
hora de conversa fiada e nada.
A mãe queria
tirar o menino a força, mas não deixaram, era contra as normas da loja e os fregueses
que estavam assistindo não iriam admitir.
De repente alguém
deu uma ideia – chamem mister Thompson lá do sexto andar, ele é quem resolve as
coisas impossíveis daqui.
O gerente
autorizou chamar o careca como era mais conhecido.
Logo mais, desce
do elevador um pequeno monstro de quase dois metros pesando 150 quilos, a
careca reluzente, um charuto enorme no canto da boca, de paletó e gravata e
pergunta: - Qual é o problema dessa vez.
- Essa criança
entrou na loja e se agradou desse velocípede e a mãe não tem condições de
comprar e já fizemos tudo para convencê-lo a desmontar e até agora nada, a
única esperança é você, isto é, sem usar a prorrogativa da força.
O careca coçou a
careca avermelhada, pensou um pouco, mandou que todos se afastassem do local e
se aproximando da criança que ainda relutava e gritava, não desço ele é meu;
abaixou-se o máximo que seu corpanzil permitisse e cochichou algumas palavras
no ouvido do menino encrenqueiro.
Como num passe de
mágica o guri desceu do velocípede rapidamente, correu até a mãe e disse –
vamos para casa mamãe.
Toda a plateia
ficou admirada do efeito que aquelas palavras ditas no pequeno ouvido causaram.
- Que será que
seu Montanha falou, todos queriam saber, mas o homem deu meia volta e sumiu entre
as grandes prateleiras.
O gerente geral
muito curioso foi procurar o Thompson.
Meu caro amigo,
conheço você há muito tempo, tem sido um bom profissional dedicado a empresa,
tem resolvido todo tipo de contratempo que ocorre aqui com bons resultados, porém
o de hoje, todos querem saber o que disse para aquela criança, até a psicóloga
está curiosa da sua resposta.
- Fiz o
corriqueiro, dei duas baforadas no charuto até o bicho mostrar a brasa, soprei
três vezes na ponta, mostrei para ele e disse: seu filhinho da puta, desça
dessa merda correndo se não enfio esse charuto no seu fiofó.
Grijalva
26/11/2026
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