terça-feira, 23 de dezembro de 2025

COMER CARNEIRO COM RESPONSABILIDADE

 

COMER CARNEIRO, COM RESPONSABILIDADE

 

                      João José da Silva Carneiro, vulgo João Ligeirinho, era homem do eito, trabalhava em tudo que aparecesse fosse onde fosse. Não tinha lugar certo para viver. Dizia – que o mundo era sua casa. Já caminhava para os trinta anos e dez convivência com Maria Vitória, mulher parideira das boas, nunca perdeu um amarelinho, como chamava seus rebentos. Nos dez anos de amancebamento tinha colocado no mundo onze crianças, saudáveis, bonitas e da cor do sertão na seca braba, tudo acinzentado. Era uma danada para saber tirar leite de pedra e fazer uma boa alimentação para seus nazarenos. Eram umas máquinas para trabalhar sem descanso. Ele no meio do mundo trazendo o de-comer e ela nos afazeres domésticos em benefícios da grande prole sempre limpas, coradas, bem vestidas e educadas. Mãe exemplar.

                      João Ligeirinho, a outra parte da engrenagem, era a peça mágica para que tudo isso pudesse acontecer. Trabalhava sem pantim, fazia o diabo a quatro para os bichinhos não passarem necessidades. Não fumava, não bebia e não jogava, o dinheiro suado não dava para enganação.  

                      Um dia o destino o chamou para as bandas dos engenhos e dos coronéis. Tudo verde e se chovia, tinha trabalho e fartura. Danou-se de estrada a fora com sua cambada de meninos e sua velha companheira. De banda levava um jumento com suas tralhas e um cachorro a tira colo, bom todo na caça, cada latido avisava qual bicho estava acuando.

                      Estrada demorada, parecia que o destino lhe engana, mas quase sem esperar aparece lá no finzinho do poente uma porteira pintada de azul e em cima num portal a inscrição - Engenho Carga D’Água. Não pesou duas vezes, emburacou sem medo nas terras estranhas, sempre fora desaforado.

                      - Menino meu não passa fome!

                      Andou um bom pedaço, meio receoso, mas confiante no Padim Cíço, foi em frente até que se descortinou numa curva um casarão pintado todo de branco com portas e janelas pintadas de um azul celeste.

                      - Casa de gente importante pensou, Deve ser coronel.

                      Ninguém nos aceiros e nem na casa. Um silencio danado. Hora da madorna dos ricos e pobres não devia se atrever a perturbar. Arreou seus mangaios debaixo de uma quixabeira e cautelosamente se acomodaram na sombra, a espera que aparecesse algum vivente.

                     De repente, ouviu-se um tinido repetidamente, vindo da casa. Ligeirinho levantou a cabeça e avistou um homem vestido de terno branco, chapéu tipo Panama esparramado na cabeça branca, batendo num pedaço de trilho no alto da varanda.

                      O coronel vendo aquela arrumação, debaixo da quixabeira, mandou seu Aprígio saber do que se travava.

                      - Coronel, é um povo de fora, muita gente, família grande e quer trabalho, pelo visto, são do eito.

                      - Volte e traga o cabra, conheço gente pelo cheiro e pelo pisar no chão, se presta ou se não vale um peido de uma gata.

                      - Bom dia coronel, entrei sem permissão nas suas terras, por atrevimento de uma família atrás de trabalho para não ver os meninos chorando com fome, coisa muito triste de se ver. Mas se mandar volto em cima da bucha pra trás.

                      - Vem de onde, gosta de trabalhar com quê?

                      - Cidadão pra dizer a verdade, sou de todo canto, faço de um tudo, menos roubar e matar um cristão.

                      - Pois bem, estou precisando de gente para um adjutório nas novas roças. Aprígio vai levar vocês para se arrancharem lá no cercado dos Angicos, casa aconchegante. Converse com ele das suas precisões. Passe no barracão e pegue o necessário para começar.

                      O tempo foi andando sem cobrar juros e nem dar prazo. A luta no campo não para, é um core corre da gota serena.

                      Se João José pudesse perguntar como faria para parar o tempo ao Platão ele diria “tempo é uma cópia imperfeita e fluida do mundo eterno e imóvel das Ideias, um receptáculo vazio, para os eventos”; ao  Aristóteles seria assim: “O tempo não é o movimento em si, mas sua medida, a quantidade de antes e depois nos eventos, exigindo uma mente que possa mensurar”; ao Heráclito, falaria desse jeito: “Uma força dinâmica de constante mudança e impermanência, onde tudo flui"; Kant responderia mais ou menos assim: “O tempo é uma intuição pura da nossa sensibilidade, uma estrutura mental que organiza as experiências, não algo em si fora de nós”; O Leibniz afirmaria categoricamente que: “tempo não existe independentemente dos fenômenos; é a ordem sucessiva das coisas e sua mensuração depende do referencial do observador, como na Teoria da Relatividade”; Já Zé Cachorro, sorrindo falava que “Todos os momentos (passado, presente e futuro) são igualmente reais, e o fluxo do tempo é uma ilusão ou projeção da consciência, não uma propriedade fundamental da realidade”.

                      - O que tá pensando Joca, - perguntou sua mulher.

                      - Pensando besteiras e como poderia parar o tempo, bicho danado que não espera por ninguém e aguardando que o jumento do coronel diga o tempo de me levantar e cair no mundo, pois o galo de campina já avisou que passa das cinco da manhã. Correr atrás do de-comer dos meninos.

                      O tempo foi passando e os meses correndo até que um dia...

                      - Bom dia coronel – falou o capataz Aprígio.

                      - O que foi que houve para vir dar bom dia tão cedo?

                      - Não queria nem dizer, mas se é pra falar vou contar. Os carneiros gordos do senhor estão desaparecendo, só os mais gordos. Faz dias que desconfio e andei no rastro e nada. Nem sinal. Nada de nada. É como tivessem se envultados.

                      - Bando de cabras safados e molengas, como já se viu, carneiro não voa e nem se encanta. Vou cuspir no chão para vocês descobrirem o furto dos meus bichinhos.

                      Não deu outra. A cambada caiu em campo dia e noite e nada. Chamaram um rastejador vizinho e com três dias, desencantou o mistério.

                      - Boa noite patrão, trago notícias dos carneirinhos desaparecidos.

                      - Diga logo homem, estou sem dormi há dias com saudades dos meu estimados animais.

                      - Foram comidos pelo João José, o amarelo lá do sertão.

                      - Não acredito. Vão buscar imediatamente esse desaforado, traga de todo jeito.

                      - Pronto coronel, o homem veio sem arrodeio.

                      - Subam e sente ele nessa espreguiçadeira e não saiam de perto.

                      - Hermenegilda, traga a macaca de couro cru que está atras da porta da sala.

                      - Mas homem, fiz tudo por você e sua família e vosmecê apronta essa comigo, onde você estava com a cabeça, pra fazer uma desgraça dessa, você é doido ou tem um irmão que comer bosta. Chegou com essa carinha de besta, inocente se fazendo de sonso, coberto com uma manta de cordeiro, mas debaixo era uma raposa doida de atirar pedra. Veio do inferno das cuias desaforar um coronel, fazendeiro, honesto, respeitador da ordem, religioso, bom pagador do que deve, mas, contudo, não guardo desaforo de fela da puta nenhum.

                      Tá vendo essa macaca aqui, nunca negou fogo. É melhor do que muitos padres, pois na confissão o cabra conta tudo direitinho, o que não fez, o que fez e o que ia fazer.

                      Vou pedir uma explicação, mesmo sabendo que não tem, do absurdo que você fez na minha cara e diante desse magote de cabra mole que vive as minhas custas e não vê um safado comer meus melhores animais como num passe de mágica.

                     - Primeiramente coronel, bom dia para o senhor e sua dignifica família. Sou analfabeto de pai e de mãe. Estou errado como o senhor mesmo falou. Mas tem uma coisa, que não vai explicar e nem me defender dos meus erros.

                     - A fome doutor é um bicho que não espera, tem pressa, provoca uma agonia danada no cabra, tira toda vontade de trabalhar, a preguiça toma conta da gente, os pensamentos na cachola só levam para o ruim da vida, menino chorando por falta de comida, doutor, dói demais. Ver o fogo acesso e nada nas panelas, até as lombrigas arengam dentro das tripas dos meninos, coisa triste seu coronel. Que Deus, Nosso Senhor e as Onze Mil Virgens nunca permita que isso aconteça na sua santa família.

                     O dinheiro da semana trabalhada fica todo no barracão, por mais que a gente se limite, no feijãozinho de corda, farinha, rapadura para adoçar o café, milho para o cuscuz, não sobra para a carne ou peixe salgado. É triste a gente ver onze meninos seminu choramingar todos os dias pela mistura que nunca chega. É melhor morrer na faca peixeira, no cassete, numa picada de cobra, duma caganeira, de uma doença braba, de vergonha do que morrer de fome.

                     - Toinho, meu filho mais taludinho, olhou pra mim um dia desse e falou, pai – pia os urubus comendo carne daquele carneiro que a cobra matou, porque a gente também não come? Quase chorei de dor coronel.

                     - Deixe de converseira besta, de lenga, lenga e confesse como era feito o furto, coisa que ninguém desconfiava; não pense que vai se livrar da Maria Bonita, toda ensebada e com saudade de trabalhar no espinhaço de ladrão.

                     - Noite triste sem lua e mais um dia a gente ia dormir desconsolados com o bucho oco. Danei-me com os meninos mais crescidos para o curral de cima. Coisa que sabia que era o satanás que mandava fazer uma asneira dessa. Entramos com muito cuidado para não espantar os pobrezinhos que estavam sossegados. Cercamos o primeiro que tava no meio do rebanho, era o mais pesado por sinal.  Jogamos uma toalha velha na cabeça e caímos todos em cima dele, até o bicho não se mexer mais. Levamos para casa, tiramos o couro e enterramos dentro do quarto junto com os miúdos, cabeça e as patas.

                     - Cabra velho safado, como teve a audácia de fazer um desmantelo desse dentro da minha fazenda centenária, nunca antes desmoralizada. Vem agora um amarelo safado do meio do mundo, ensinar como se furta.

                     - Zequinha levante esse danado, amarre as mãos e os pés e o prepare para apanhar até pagar todos os quilos dos meus sevados carneiros. Faça a conta de quantos bichos ele devorou e transforme em quilos. Cada quilo é uma lamborada com vontade, dessa que levante o lombo. Guardando meus carneiros para comer nos meus oitenta e três anos e vem esse desaforado e me tira o gosto da boca.

                     Outra coisa que não entendi ainda, seu salafrário, cabra de peia, descomungado, patife, velhaco, tratante, vigarista, canalha, ordinário. Como foi que você comeu meus carneiros?

                     - Homem de Deus, a gente fazia um foguinho com madeira de angico, para não mostrar fumaça, depois que o mundo tivesse calado, assava o danadinho e comia os pedacinhos com farinha; nunca mais os meninos dormiram com fome.

                     - Cabra de coragem, se você tivesse comido meus carneiros cozidos ou de outro jeito, ia apanhar até dizer basta. Solte o homem ele sabe realmente como se come carne de carneiro.

         

Campina Grande, 22/12/2025

Grijalva

 

                    

         

 

           

 

 

         

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário