COMER
CARNEIRO, COM RESPONSABILIDADE
João José da Silva Carneiro, vulgo
João Ligeirinho, era homem do eito, trabalhava em tudo que aparecesse fosse
onde fosse. Não tinha lugar certo para viver. Dizia – que o mundo era sua casa.
Já caminhava para os trinta anos e dez convivência com Maria Vitória, mulher
parideira das boas, nunca perdeu um amarelinho, como chamava seus rebentos. Nos
dez anos de amancebamento tinha colocado no mundo onze crianças, saudáveis,
bonitas e da cor do sertão na seca braba, tudo acinzentado. Era uma danada para
saber tirar leite de pedra e fazer uma boa alimentação para seus nazarenos.
Eram umas máquinas para trabalhar sem descanso. Ele no meio do mundo trazendo o
de-comer e ela nos afazeres domésticos em benefícios da grande prole sempre
limpas, coradas, bem vestidas e educadas. Mãe exemplar.
João Ligeirinho, a outra parte da
engrenagem, era a peça mágica para que tudo isso pudesse acontecer. Trabalhava
sem pantim, fazia o diabo a quatro para os bichinhos não passarem necessidades.
Não fumava, não bebia e não jogava, o dinheiro suado não dava para enganação.
Um dia o destino o chamou para as
bandas dos engenhos e dos coronéis. Tudo verde e se chovia, tinha trabalho e
fartura. Danou-se de estrada a fora com sua cambada de meninos e sua velha
companheira. De banda levava um jumento com suas tralhas e um cachorro a tira
colo, bom todo na caça, cada latido avisava qual bicho estava acuando.
Estrada demorada, parecia que o
destino lhe engana, mas quase sem esperar aparece lá no finzinho do poente uma
porteira pintada de azul e em cima num portal a inscrição - Engenho Carga
D’Água. Não pesou duas vezes, emburacou sem medo nas terras estranhas, sempre
fora desaforado.
- Menino meu não passa fome!
Andou um bom pedaço, meio receoso,
mas confiante no Padim Cíço, foi em frente até que se descortinou numa curva um
casarão pintado todo de branco com portas e janelas pintadas de um azul celeste.
- Casa de gente importante pensou,
Deve ser coronel.
Ninguém nos aceiros e nem na casa.
Um silencio danado. Hora da madorna dos ricos e pobres não devia se atrever a
perturbar. Arreou seus mangaios debaixo de uma quixabeira e cautelosamente se
acomodaram na sombra, a espera que aparecesse algum vivente.
De
repente, ouviu-se um tinido repetidamente, vindo da casa. Ligeirinho levantou a
cabeça e avistou um homem vestido de terno branco, chapéu tipo Panama
esparramado na cabeça branca, batendo num pedaço de trilho no alto da varanda.
O coronel vendo aquela arrumação,
debaixo da quixabeira, mandou seu Aprígio saber do que se travava.
- Coronel, é um povo de fora, muita
gente, família grande e quer trabalho, pelo visto, são do eito.
- Volte e traga o cabra, conheço
gente pelo cheiro e pelo pisar no chão, se presta ou se não vale um peido de uma
gata.
- Bom dia coronel, entrei sem
permissão nas suas terras, por atrevimento de uma família atrás de trabalho
para não ver os meninos chorando com fome, coisa muito triste de se ver. Mas se
mandar volto em cima da bucha pra trás.
- Vem de onde, gosta de trabalhar
com quê?
- Cidadão pra dizer a verdade, sou
de todo canto, faço de um tudo, menos roubar e matar um cristão.
- Pois bem, estou precisando de
gente para um adjutório nas novas roças. Aprígio vai levar vocês para se
arrancharem lá no cercado dos Angicos, casa aconchegante. Converse com ele das
suas precisões. Passe no barracão e pegue o necessário para começar.
O tempo foi andando sem cobrar juros
e nem dar prazo. A luta no campo não para, é um core corre da gota serena.
Se João José pudesse perguntar como
faria para parar o tempo ao Platão ele diria “tempo é uma cópia imperfeita e
fluida do mundo eterno e imóvel das Ideias, um receptáculo vazio, para os
eventos”; ao Aristóteles seria assim: “O
tempo não é o movimento em si, mas sua medida, a quantidade de antes e depois
nos eventos, exigindo uma mente que possa mensurar”; ao Heráclito, falaria
desse jeito: “Uma força dinâmica de constante mudança e impermanência, onde
tudo flui"; Kant responderia mais ou menos assim: “O tempo é uma intuição
pura da nossa sensibilidade, uma estrutura mental que organiza as experiências,
não algo em si fora de nós”; O Leibniz afirmaria categoricamente que: “tempo
não existe independentemente dos fenômenos; é a ordem sucessiva das coisas e
sua mensuração depende do referencial do observador, como na Teoria da
Relatividade”; Já Zé Cachorro, sorrindo falava que “Todos os momentos (passado,
presente e futuro) são igualmente reais, e o fluxo do tempo é uma ilusão ou
projeção da consciência, não uma propriedade fundamental da realidade”.
- O que tá pensando Joca, -
perguntou sua mulher.
- Pensando besteiras e como poderia
parar o tempo, bicho danado que não espera por ninguém e aguardando que o
jumento do coronel diga o tempo de me levantar e cair no mundo, pois o galo de
campina já avisou que passa das cinco da manhã. Correr atrás do de-comer dos
meninos.
O tempo foi passando e os meses
correndo até que um dia...
- Bom dia coronel – falou o capataz
Aprígio.
- O que foi que houve para vir dar
bom dia tão cedo?
- Não queria nem dizer, mas se é pra
falar vou contar. Os carneiros gordos do senhor estão desaparecendo, só os mais
gordos. Faz dias que desconfio e andei no rastro e nada. Nem sinal. Nada de
nada. É como tivessem se envultados.
- Bando de cabras safados e
molengas, como já se viu, carneiro não voa e nem se encanta. Vou cuspir no chão
para vocês descobrirem o furto dos meus bichinhos.
Não deu outra. A cambada caiu em
campo dia e noite e nada. Chamaram um rastejador vizinho e com três dias,
desencantou o mistério.
- Boa noite patrão, trago notícias
dos carneirinhos desaparecidos.
- Diga logo homem, estou sem dormi há
dias com saudades dos meu estimados animais.
- Foram comidos pelo João José, o
amarelo lá do sertão.
- Não acredito. Vão buscar
imediatamente esse desaforado, traga de todo jeito.
- Pronto coronel, o homem veio sem arrodeio.
- Subam e sente ele nessa
espreguiçadeira e não saiam de perto.
- Hermenegilda, traga a macaca de
couro cru que está atras da porta da sala.
- Mas homem, fiz tudo por você e sua
família e vosmecê apronta essa comigo, onde você estava com a cabeça, pra fazer
uma desgraça dessa, você é doido ou tem um irmão que comer bosta. Chegou com
essa carinha de besta, inocente se fazendo de sonso, coberto com uma manta de
cordeiro, mas debaixo era uma raposa doida de atirar pedra. Veio do inferno das
cuias desaforar um coronel, fazendeiro, honesto, respeitador da ordem,
religioso, bom pagador do que deve, mas, contudo, não guardo desaforo de fela
da puta nenhum.
Tá vendo essa macaca aqui, nunca
negou fogo. É melhor do que muitos padres, pois na confissão o cabra conta tudo
direitinho, o que não fez, o que fez e o que ia fazer.
Vou pedir uma explicação, mesmo
sabendo que não tem, do absurdo que você fez na minha cara e diante desse
magote de cabra mole que vive as minhas custas e não vê um safado comer meus
melhores animais como num passe de mágica.
-
Primeiramente coronel, bom dia para o senhor e sua dignifica família. Sou
analfabeto de pai e de mãe. Estou errado como o senhor mesmo falou. Mas tem uma
coisa, que não vai explicar e nem me defender dos meus erros.
-
A fome doutor é um bicho que não espera, tem pressa, provoca uma agonia danada
no cabra, tira toda vontade de trabalhar, a preguiça toma conta da gente, os
pensamentos na cachola só levam para o ruim da vida, menino chorando por falta
de comida, doutor, dói demais. Ver o fogo acesso e nada nas panelas, até as
lombrigas arengam dentro das tripas dos meninos, coisa triste seu coronel. Que
Deus, Nosso Senhor e as Onze Mil Virgens nunca permita que isso aconteça na sua
santa família.
O
dinheiro da semana trabalhada fica todo no barracão, por mais que a gente se
limite, no feijãozinho de corda, farinha, rapadura para adoçar o café, milho
para o cuscuz, não sobra para a carne ou peixe salgado. É triste a gente ver onze
meninos seminu choramingar todos os dias pela mistura que nunca chega. É melhor
morrer na faca peixeira, no cassete, numa picada de cobra, duma caganeira, de
uma doença braba, de vergonha do que morrer de fome.
-
Toinho, meu filho mais taludinho, olhou pra mim um dia desse e falou, pai – pia
os urubus comendo carne daquele carneiro que a cobra matou, porque a gente
também não come? Quase chorei de dor coronel.
-
Deixe de converseira besta, de lenga, lenga e confesse como era feito o furto,
coisa que ninguém desconfiava; não pense que vai se livrar da Maria Bonita,
toda ensebada e com saudade de trabalhar no espinhaço de ladrão.
-
Noite triste sem lua e mais um dia a gente ia dormir desconsolados com o bucho
oco. Danei-me com os meninos mais crescidos para o curral de cima. Coisa que
sabia que era o satanás que mandava fazer uma asneira dessa. Entramos com muito
cuidado para não espantar os pobrezinhos que estavam sossegados. Cercamos o
primeiro que tava no meio do rebanho, era o mais pesado por sinal. Jogamos uma toalha velha na cabeça e caímos
todos em cima dele, até o bicho não se mexer mais. Levamos para casa, tiramos o
couro e enterramos dentro do quarto junto com os miúdos, cabeça e as patas.
-
Cabra velho safado, como teve a audácia de fazer um desmantelo desse dentro da
minha fazenda centenária, nunca antes desmoralizada. Vem agora um amarelo
safado do meio do mundo, ensinar como se furta.
-
Zequinha levante esse danado, amarre as mãos e os pés e o prepare para apanhar
até pagar todos os quilos dos meus sevados carneiros. Faça a conta de quantos
bichos ele devorou e transforme em quilos. Cada quilo é uma lamborada com
vontade, dessa que levante o lombo. Guardando meus carneiros para comer nos
meus oitenta e três anos e vem esse desaforado e me tira o gosto da boca.
Outra
coisa que não entendi ainda, seu salafrário, cabra de peia, descomungado,
patife, velhaco, tratante, vigarista, canalha, ordinário. Como foi que você
comeu meus carneiros?
-
Homem de Deus, a gente fazia um foguinho com madeira de angico, para não
mostrar fumaça, depois que o mundo tivesse calado, assava o danadinho e comia
os pedacinhos com farinha; nunca mais os meninos dormiram com fome.
-
Cabra de coragem, se você tivesse comido meus carneiros cozidos ou de outro
jeito, ia apanhar até dizer basta. Solte o homem ele sabe realmente como se
come carne de carneiro.
Campina Grande, 22/12/2025
Grijalva
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