sábado, 20 de dezembro de 2025

AULA DE CAMPO OU AVENTURA

 Campina Grande, 29 de novembro de 2021.

Aula de Campo ou Aventura?

Só hoje, cinco anos após, resolvi relatar essa aventura, com certeza a maior quer vivi enquanto

professor do Centro de Ciências Agrárias (CCA), juntos a parte dos meus alunos do semestre letivo 2016.1.

Pra quem não sabe, sou professor da disciplina Fisiologia Vegetal do Departamento de Biociências

do CCA/UFPB em Areia-PB. Geralmente, no final da disciplina, juntamos as três turmas e ministramos uma

aula de campo no Cariri Paraibano sobre Estresse Hídrico.

Tenho o costume de solicitar o ônibus para aula de campo com antecedência. Dessa vez não foi

diferente, em 04/10/16 solicitei o ônibus para quem em 26/11/16 pudesse “Levar alunos para o Cariri

Paraibano, mais precisamente na Zona Rural de Cabaceiras, onde seria ministrada uma aula prática sobre

Estresse Hídrico e as adaptações dos vegetais a escassez de água”. Lembrem-se bem dessa justificativa de

viagem.

Como tenho moradia em Campina Grande-PB, geralmente saio de minha residência, enquanto o

ônibus sai do CCA e ambos vamos em direção ao posto de combustível da entrada da cidade de Boa Vista-

PB, esse posto que ainda será objeto de nossa aventura, para de lá seguirmos juntos ao destino. Por sorte,

um amigo e a então noiva que moravam em Natal, estavam em Campina Grande e quiseram nos

acompanhar, por coincidência e por bom gosto dos pais dele, seu nome também é Mário, que aqui vou

chamar de Mário Guillian para não lhes confundir. Eles foram em seu carro e minha esposa e meu filho, que

sempre me acompanha nessas aulas, foram comigo em nosso automóvel. Mário Guillian e sua noiva

Agerlane mal saberiam que seriam nossa salvação. Kkkkk.

O ônibus com cerca de 30 alunos deve ter chegado ao Posto de Combustível, nosso ponto de

encontro, por volta das 08:30h, de onde seguiríamos em direção ao Hotel Fazenda Pai Mateus, pois de lá

iríamos a campo para nossa aula, voltaríamos para o hotel, almoçaríamos e, por volta das 16h, quando o sol

baixasse, iríamos levar os alunos para conhecer o famoso Lajedo do Pai Mateus e entender como aqueles

matacões de formaram. Logo que entramos na estrada de terra, vi que o ônibus ficou pra trás, esperei e

nada, então decidi voltar, foi quando visualizei o ônibus parado logo na entrada dessa estrada. Parei o carro

e fui conversar com o motorista, foi a partir daí que nossa persistência foi colocada à prova.

O motorista relatou que como aquele era o ônibus novo, não poderia entrar na estrada de terra, só

poderia rodar por asfalto (1º obstáculo). Eu não sabia dessa recomendação, mas argumentei que na

requisição de transporte eu teria solicitado transporte para “Zona Rural de Cabaceiras” e eu não conhecia

nenhuma zona rural seu acesso em asfalto. Lembrei também que tinha mais dois ônibus, bem velhos na

verdade, mas que poderiam trafegar nessas estradas, só que não caberia a mim escolher qual transporte.

Ele disse que não tinha ordem para seguir e que eu resolvesse com o chefe do setor de transporte ou com o

diretor. Liguei para o referido chefe que disse que ordenaria o seguimento da viagem se eu me

responsabilizasse por qualquer dano ao ônibus, o que não o fiz é lógico, pois alguma peça poderia estar

prestes a quebrar e eu não iria assumir esse risco. Depois de várias argumentações por parte dos dois

lados, a saída menos danosa que nos propuseram, foi deixar os alunos ali, voltar ao CCA para trocar o

ônibus e vir buscar a turma ao final do dia.

Diante das possibilidades, aceitei a proposta, mas pra isso tinha antes que conseguir um transporte

para levar os alunos com segurança ao ponto de apoio, ou seja, o Hotel Fazenda Pai Mateus, distante cerca

de 20 km dali. Não poderia deixá-los na estrada, pois estávamos no cariri em pleno mês de novembro,

debaixo daquele sol escaldante.

Nesse momento passou uma pick up, perguntei ao motorista se conhecia alguma van para

transportar os alunos e ele me disse apenas que por R$ 700,00 levaria todos. Não aceitei por dois motivos

óbvios, o alto valor e o inadequado transporte, pois uma viagem dessa em carro aberto levanta uma

quantidade absurda de poeira.

Decidi ir à Cidade de Boa Vista saber se alguém poderia fazer esse serviço. Entrei no meu carro,

girei a chave e...... nada, nem a luz do painel acendeu (2º obstáculo). Desconfiei da bateria e tomando meu

pai como exemplo, sempre ando com um cabo para fazer chupeta (ligar a bateria descarregada a outra

carregada). Mário Guillian alinhou seu carro com o meu, colocamos o cabo, ligou o carro dele, girei

novamente a chave e ...... nada. Isso mesmo, nem assim conseguimos fazer a bateria pegar um pouco de

carga.

Como não tínhamos o que fazer, um aluno e eu entramos no carro de Mário Guillian, deixamos o

ônibus e meu carro na estrada com os nossos familiares e alunos e nos dirigimos ao centro da cidade de

Boa Vista procurar transporte para os alunos e uma bateria para o meu carro. Minha prioridade era

inicialmente procurar o transporte para só depois que liberasse o ônibus, tentar resolver a situação do meu

carro. Logo que entrei na cidade dei de cara com uma loja que vendia bateria de automóvel, relatei meu

caso e o proprietário, Sr. Ginaldo, me disse que alguém da loja iria ao local. O aluno ficou pra seguir com o

funcionário até onde estava o carro. Falei também da necessidade de um transporte para os alunos e me

orientaram a ir à casa do Sr. André, então vice prefeito, que acabara de ser eleito para assumir a prefeitura

em pouco mais de um mês.

Ainda em direção a casa do Sr. André, tentamos conseguir alguém que tivesse uma van e pudesse

nos ajudar, mas fomos informados que naquele dia 26/11 seria a tradicional festa de padroeiro, creio que

da Comunidade do Bom Jesus dos Martírios e todos os donos de transportes alternativos estariam se

preparando para participarem na procissão, sendo improvável conseguir um transporte naquele dia (3º

obstáculo).

Fomos bem recebidos quando chegamos na casa do Sr. André, mas a informação que ele nos deu

era que nada poderia fazer. Afirmou que, caso eu quisesse, poderia falar com o prefeito, Sr. Edvan, que

naquele horário era bem provável que estivesse no Posto de Combustível de sua propriedade. Perguntei

qual posto seria e ele me disse que era o único que tinha na cidade, ou seja, nosso ponto de encontro

inicial.

Diante da negativa do vice prefeito e da informação de que os donos de transportes alternativos

não iriam rodar naquele dia, fomos em direção ao referido posto de combustível em busca do prefeito de

Boa Vista. Ao chegar, perguntei quem era o Sr. Edvan e um rapaz me disse: - É aquele senhor ali que está

indo embora. Gritei como se o conhecesse de anos, kkkk: Sr. Edvan!!!! Percebi um olhar de alguém que se

indagasse “de onde conheço esse doido?”, kkkk.

O cumprimentei e relatei todo o ocorrido, pedindo sua ajuda na qualidade de prefeito para levar os

alunos em segurança pra o Hotel Fazenda Pai Mateus enquanto tentava resolver a questão do meu carro. O

Sr. Edvan prontamente ligou para uma pessoa e disse: - Você tá bebendo? Não? Então venha aqui no posto

agora com o ônibus pra levar uns alunos ali. Nessa hora senti um alívio enorme. Até hoje acho que se não

fosse esse gesto do Sr. Edvan, tínhamos voltado para o CCA e de certa forma teríamos causado uma grande

frustação nos alunos.

O ônibus chegou, vi que o motorista não estava tão satisfeito, mas quem era doido de não cumprir

uma ordem do prefeito? Kkkk. Os alunos subiram e foram para o Hotel enquanto eu iria tentar resolver a

bronca da bateria. Isso já era por volta das 11:00h e ainda iríamos ter aula. Quando cheguei no meu carro,

o rapaz da loja disse que o problema realmente era a bateria, mas não tinha nenhuma com as mesmas

dimensões, embora poderia adaptar, mesmo que ficasse fora do local específico. Só assim conseguiria

seguir viagem. Solicitei que adaptasse e os Mários novamente foram na loja de baterias para acertar com

Sr. Ginaldo, pois o comércio iria fechar ao meio-dia.

Ao chegar no estabelecimento, relatei que a bateria não encaixava no suporte do Civic, mas teria

que ficar com ela, pois era a única opção para o momento. Sr. Ginaldo perguntou se eu esperaria ele

conseguir uma da que estava precisando em Campina Grande, mas só chegaria por volta das 15h. Eu disse

que também residia em campina Grande, mas não poderia esperar, pois tinha compromisso com os alunos.

Então ele me fez uma proposta que me surpreendeu.......... disse que eu fosse embora, na segunda-feira eu

comprasse a bateria própria para o meu carro em Campina Grande e entregasse essa que estaria me

emprestando na Loja Macena, pois chegaria até ele. Perguntei se queria que deixasse algum valor e ele

disse que não. Perguntei se deixaria algum documento como garantia e ele também disse que não. Aí

perguntei como ele confiaria em uma pessoa que nunca viu, foi quando Sr. Ginaldo me respondeu: - Faz

tempo que eu lido com pessoas e a gente já percebe quem tem boa índole. Vá para seu compromisso, não

precisa deixar nada. Segunda-feira você se preocupa com isso. Fiquei surpreso e muitíssimo grato com a

atitude que serviu também como aprendizado pra mim. Antes de continuar relatando essa aventura,

adianto que na segunda-feira dia 28/11 a primeira coisa que fiz foi comprar uma nova bateria e entregar a

do Sr. Ginaldo no local acordado.

Agora sim, fomos rumo ao Hotel, a essa altura já tínhamos perdido a manhã toda e estávamos

suando mais que tampa de chaleira, como se diz aqui no Nordeste. Kkkk. Tivemos que alterar nosso

planejamento e fazer tudo logo após o almoço, ou seja, almoçar e cair em campo. Afinal de contas,

Agrônomos, Biólogos e Zootecnistas não estão se graduando para ficarem em uma sala com arcondicionado.

Kkkk.

Após o almoço, esperamos cerca de meia hora e fomos ao local da aula de campo, embaixo de um

Umbuzeiro, uma das árvores símbolo do nosso cariri. Mas como ir a campo sem o ônibus pra levar os

alunos? (4º obstáculo). Mais uma vez Mário Guillian me ajudou, pois

cada um de nós demos três ou quatro viagens em nossos carros levando

os alunos para o local da aula de campo. Tivemos nossa aula e depois

fomos andando para o Lajedo do Pai Mateus, pois se distanciava cerca

de 1 km dali. Meu filho David, companheiro das aulas nas pedrinhas,

como ele mesmo fala, na época com três anos, acompanhou tudo.

Quando chegamos no Lajedo o guia e amigo Ribamar apresentou toda a história daquele local aos

alunos e turistas que ali estavam. Tinha também uma equipe da TV Paraíba, cujo repórter Hidelbrando

Neto estava liderando, para gravar uma reportagem para o programa “COMO SERÁ?” apresentado por

Sandra Annenberg e que vai ao ar aos sábados pela manhã. A reportagem ainda entrevistou dois alunos e a

mim como professor, como podemos ver nas fotos.

Esperamos o sol se pôr e descemos o lajedo, nessa altura o ônibus que poderia rodar em estrada de

terra já estava à espera dos alunos. kkkk. Antes de seguir viagem de volta ao CCA, passamos pelo hotel para

que os alunos pudessem ir ao banheiro e comprar água.

Após me despedir dos alunos e liberar o ônibus, já estava indo embora quando fui cumprimentar o

amigo, e proprietário do Hotel Fazenda Pai Mateus, o Sr. Duda Lucena, que nos convidou para participar de

um jantar de confraternização a ser realizado naquela noite. Rodrigo Hilbert, também presente nesse jantar

estava hospedado no Hotel Fazenda Pai Mateus, pois também gravara um programa de culinária, acho que

para a GNT. Agradecemos e aceitamos o convite para encerrar esse dia totalmente fora do padrão.

Após o jantar, voltamos pra casa com a certeza do dever cumprido, embora tivéssemos que superar

vários desafios.

Depois de alguns dias, ao pegar um bloco de notas que deixo no porta luvas do meu carro,

encontrei essa mensagem da última foto, escrita por minha esposa Danuska no momento que estava no

nosso carro, surpreendentemente paciente, à espera de que resolvêssemos tudo o que relatei aqui.

Obs.:

1) Por tudo que ocorreu em um único dia, dá pra entender o motivo de não ter postado antes. Kkkk.

2) Nenhum dos citados aqui sabem dessa história completamente.

UFA

Mário Luiz Farias Cavalcanti

Biólogo. Prof. DB/CCA/UFPB – Campus II

mariolfcavalcanti@yahoo.com.br

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