A CABRA
MENTIROSA
José Francisco ou Chiquinho ou mesmo
Zé Bedégua. morava na fazenda Pé de Cana, do coronel José Caiana, no município
de Cana Brava, como encarregado geral. Cabra simples, corajoso, trabalhador e
muito inocente. Acreditava em tudo e em todos. Era um tolo consumado. Um Zé
Mané da vida. Solteirão. Tinha uma cara abusada e desconcertada, voz rouca que
quando falava mais parecia um bodejar; por isso, acho que nunca arranjava uma
companheira. Quando pensava no assunto sempre dizia que ia morrer como cachorro,
sem sogra.
Nascera na passagem do cometa Halley,
em 1986. Na hora que o bicho rastejou pelos céus do nordeste, alumiando o céu e
a terra, dona Mocinha, estrebuchou e botou o corisco para fora.
No começo o Chiquinho não demonstrou
nada de anormal. Vivia brincando com os irmãos e os animais no terreiro de
casa. Na época da escola, coitado, não aprendia nada, demorava muito para
discernir as menores lições. Foi ficando para trás. Quando viram que não tinha
coco para aprender como os outros, deixaram Zé nos afazeres de casa.
Dona Mocinha sempre dizia – foi o
danado do cão com seu rabo luminoso que levou o juízo do meu Zezinho.
Com o passar do tempo, desenvolveu
outras aptidões. Foi desarnando e se tornou um com trabalhador braçal. Trabalhava
no campo e dava conta de tudo que fosse do mato.
De vez por outra, alguém tirava sarro
com sua vagareza no pensar, porém nem ligava. Foi vivendo e se sustentando com
o seu trabalho no dia a dia. Todo mundo queria uns dias de trabalhos. Sabiam
que não embromava no serviço contratado ou na diária. Até que um dia o coronel
teve conhecimento do José Francisco e o contratou, definitivamente, para tomar
conta da sua propriedade.
O coronel homem abastardo que vivia
na capital e só aparecia na fazenda de quinze em quinze dias. Para olhar os
seus animais e fazer o pagamento do Chiquinho. Homem viajado, sempre pelo meio
do mundo, tratando dos negócios rentáveis. Sempre viajava para o exterior e
sempre trazia as novidades, coisas que por aqui as vezes não tinha dado
chegada.
De uma feita trouxe um pequeno
gravador que cabia no bolso do paletó. Novidade para muita gente e
principalmente para o povo do mato. O pobre Zé Bedégua não conhecia nada que
não fosse o seu rádio RCA, presente do patrão.
O coronel, homem muito espirituoso,
sempre vivia pegando peças nos amigos e nos cabras besta e a metido a besta. Lembrou-se
de fazer uma brincadeira com o Chiquinho.
Chamou seu filho Bitonho e combinou
de gravar fazendo perguntas aos animais e o filho imitando os bichos que
existiam na fazendo, respondendo.
Dia de visitar a fazenda não esqueceu
de levar o gravador preparado para conversar com os animais.
- Bom dia seu Chico, tudo em ordem,
como vão as coisas, tem chovido, algum animal doente, alguma novidade para me
contar?
- Não senhor. Tudo sobre as graças de
Deus e das onze mil virgens. Como foi de viagem?
- Chegamos em paz graças ao Bom
Jesus. Foi bom perguntar. No estrangeiro aprendi a falar com os animais e eles
me entendem e respondem.
Vou lhe mostrar de fato que é
verdade. Depois de tanto tempo os homens conseguiram se entender com os irmãos
animais.
Vamos ali falar com o jumento
Biscoito.
Chiquinho de repente ficou meio
agoniado, amarelou, gaguejando e perdeu até o jeito de andar.
- O que está acontecendo com você
homem. Está tendo algum troço?
- Não senhor, fiquei meio engasgado
com a saliva.
- Pois é, vamos perguntar alguma
coisa ao jumento nosso irmão.
- Biscoito, como está sendo tratado
na minha ausência?
Bitonho já pronto com o gravador
apertou o dedo na tecla e a voz sofrida saiu:
- Sim senhor. Muito bem. O Chiquinho
não deixa faltar comida e nem água. Não bota muito peso no meu lombo. Gosto
muito dele. Ótima pessoa seu coronel.
- Vamos conversar um pouco com a vaca
malhada; vá buscar, mas não converse nada com ela. Não previna de nada.
- Bom dia meinha boa vaca, tá tudo em
paz, como lhe tratam quando não estou presente?
- Ave maria. Sou tratada a pão de ló
como o senhor manda. O Chico é um bom ser humano. Cabra desse é difícil de
encontrar. Sofri muito por aí na mão de vaqueiros que não tinha amor a Deus.
Sou mais cuidado do que muita gente por aí. O senhor está de parabéns por ter
esse homem ao seu lado.
- Chiquinho, traga o cavalo para a
gente ver suas conclusões a respeito do trato dado por você.
Chega Sem Destino, bem escovado,
lavado, ripado, pelo que reluzia quando o sol batia nele, gordo e satisfeito,
parecia que vinha rindo.
- Bom dia meu velho companheiro de
tantas viagens por esses caminhos maus traçados, que sem cara feia e nem choro
me levou por muito tempo. Como tem passado junto com o amigo Chiquinho?
- Não tenho do quer reclamar, capim
na hora certa, água limpa em abundancia, banhos e escovação todos os dias, sal
mineral e ração na quantidade certa e o melhor de tudo, sem fazer nada. Nunca
mais levei sela no lombo. Nota dez para o meu tratador.
Vamos agora lá para o chiqueiro das
galinhas, vamos saber como andam as saborosas e botadeiras de ovos.
- Bom dia minhas queridas galináceas,
como está a vida de vocês sem minha presença. Como está postura, alguma doença,
dormem bem agasalhadas?
- O senho nem imagina. Tudo nos
trinques, milho a vontade, água sobrando e fresquinha, a pintalhada cada vez
aumentando; os gaviões, teiús, cobras pretas sempre espantados pelo cuidadoso
amigo Chiquinho.
- Muito bem seu Chiquinho, vejo que
acertei em confiar em você na direção da fazenda. Continue assim e terá todo
meu apreço e garantia de um aumento esse mês.
Nisso, vem se aproximando uma cabra
de sangue puro da raça anglo nubiana, que tinha sido adquirida numa exposição
por grande valor, acompanhada por seus dois borregos gordos e bonitos.
- Eita, já ia me esquecendo da
cheirosa, e se encaminhado para mais perto para ser ouvida por ela, quando de
repente, Chiquinho eleva a voz e diz muito nervoso.
- Dr. Coronel, o senhor nem pode
imaginar como um animal pode mudar de caráter nesse mundo de meu Deus. Essa
danada de certos tempos para cá tem feito coisas estranhas, parece que está com
o diabo no couro. Pois é tenho conversado com ela, dando muto conselhos e nada,
a bicha deu para mentir que só vendo. Não acredite em nada que ela disser.
10/09/2025 Grijalva
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