quarta-feira, 10 de setembro de 2025

A CABRA MENTIROSA

 

A CABRA MENTIROSA

 

José Francisco ou Chiquinho ou mesmo Zé Bedégua. morava na fazenda Pé de Cana, do coronel José Caiana, no município de Cana Brava, como encarregado geral. Cabra simples, corajoso, trabalhador e muito inocente. Acreditava em tudo e em todos. Era um tolo consumado. Um Zé Mané da vida. Solteirão. Tinha uma cara abusada e desconcertada, voz rouca que quando falava mais parecia um bodejar; por isso, acho que nunca arranjava uma companheira. Quando pensava no assunto sempre dizia que ia morrer como cachorro, sem sogra.

Nascera na passagem do cometa Halley, em 1986. Na hora que o bicho rastejou pelos céus do nordeste, alumiando o céu e a terra, dona Mocinha, estrebuchou e botou o corisco para fora.

No começo o Chiquinho não demonstrou nada de anormal. Vivia brincando com os irmãos e os animais no terreiro de casa. Na época da escola, coitado, não aprendia nada, demorava muito para discernir as menores lições. Foi ficando para trás. Quando viram que não tinha coco para aprender como os outros, deixaram Zé nos afazeres de casa.

Dona Mocinha sempre dizia – foi o danado do cão com seu rabo luminoso que levou o juízo do meu Zezinho.

Com o passar do tempo, desenvolveu outras aptidões. Foi desarnando e se tornou um com trabalhador braçal. Trabalhava no campo e dava conta de tudo que fosse do mato.

De vez por outra, alguém tirava sarro com sua vagareza no pensar, porém nem ligava. Foi vivendo e se sustentando com o seu trabalho no dia a dia. Todo mundo queria uns dias de trabalhos. Sabiam que não embromava no serviço contratado ou na diária. Até que um dia o coronel teve conhecimento do José Francisco e o contratou, definitivamente, para tomar conta da sua propriedade.

O coronel homem abastardo que vivia na capital e só aparecia na fazenda de quinze em quinze dias. Para olhar os seus animais e fazer o pagamento do Chiquinho. Homem viajado, sempre pelo meio do mundo, tratando dos negócios rentáveis. Sempre viajava para o exterior e sempre trazia as novidades, coisas que por aqui as vezes não tinha dado chegada.

De uma feita trouxe um pequeno gravador que cabia no bolso do paletó. Novidade para muita gente e principalmente para o povo do mato. O pobre Zé Bedégua não conhecia nada que não fosse o seu rádio RCA, presente do patrão.

O coronel, homem muito espirituoso, sempre vivia pegando peças nos amigos e nos cabras besta e a metido a besta. Lembrou-se de fazer uma brincadeira com o Chiquinho.

Chamou seu filho Bitonho e combinou de gravar fazendo perguntas aos animais e o filho imitando os bichos que existiam na fazendo, respondendo.

Dia de visitar a fazenda não esqueceu de levar o gravador preparado para conversar com os animais.

- Bom dia seu Chico, tudo em ordem, como vão as coisas, tem chovido, algum animal doente, alguma novidade para me contar?

- Não senhor. Tudo sobre as graças de Deus e das onze mil virgens. Como foi de viagem?

- Chegamos em paz graças ao Bom Jesus. Foi bom perguntar. No estrangeiro aprendi a falar com os animais e eles me entendem e respondem.

Vou lhe mostrar de fato que é verdade. Depois de tanto tempo os homens conseguiram se entender com os irmãos animais.

Vamos ali falar com o jumento Biscoito.

Chiquinho de repente ficou meio agoniado, amarelou, gaguejando e perdeu até o jeito de andar.

- O que está acontecendo com você homem. Está tendo algum troço?

- Não senhor, fiquei meio engasgado com a saliva.

- Pois é, vamos perguntar alguma coisa ao jumento nosso irmão.

- Biscoito, como está sendo tratado na minha ausência?

Bitonho já pronto com o gravador apertou o dedo na tecla e a voz sofrida saiu:

- Sim senhor. Muito bem. O Chiquinho não deixa faltar comida e nem água. Não bota muito peso no meu lombo. Gosto muito dele. Ótima pessoa seu coronel.

- Vamos conversar um pouco com a vaca malhada; vá buscar, mas não converse nada com ela. Não previna de nada.

- Bom dia meinha boa vaca, tá tudo em paz, como lhe tratam quando não estou presente?

- Ave maria. Sou tratada a pão de ló como o senhor manda. O Chico é um bom ser humano. Cabra desse é difícil de encontrar. Sofri muito por aí na mão de vaqueiros que não tinha amor a Deus. Sou mais cuidado do que muita gente por aí. O senhor está de parabéns por ter esse homem ao seu lado.

- Chiquinho, traga o cavalo para a gente ver suas conclusões a respeito do trato dado por você.

Chega Sem Destino, bem escovado, lavado, ripado, pelo que reluzia quando o sol batia nele, gordo e satisfeito, parecia que vinha rindo.

- Bom dia meu velho companheiro de tantas viagens por esses caminhos maus traçados, que sem cara feia e nem choro me levou por muito tempo. Como tem passado junto com o amigo Chiquinho?

- Não tenho do quer reclamar, capim na hora certa, água limpa em abundancia, banhos e escovação todos os dias, sal mineral e ração na quantidade certa e o melhor de tudo, sem fazer nada. Nunca mais levei sela no lombo. Nota dez para o meu tratador.

Vamos agora lá para o chiqueiro das galinhas, vamos saber como andam as saborosas e botadeiras de ovos.

- Bom dia minhas queridas galináceas, como está a vida de vocês sem minha presença. Como está postura, alguma doença, dormem bem agasalhadas?

- O senho nem imagina. Tudo nos trinques, milho a vontade, água sobrando e fresquinha, a pintalhada cada vez aumentando; os gaviões, teiús, cobras pretas sempre espantados pelo cuidadoso amigo Chiquinho.

- Muito bem seu Chiquinho, vejo que acertei em confiar em você na direção da fazenda. Continue assim e terá todo meu apreço e garantia de um aumento esse mês.

Nisso, vem se aproximando uma cabra de sangue puro da raça anglo nubiana, que tinha sido adquirida numa exposição por grande valor, acompanhada por seus dois borregos gordos e bonitos.

- Eita, já ia me esquecendo da cheirosa, e se encaminhado para mais perto para ser ouvida por ela, quando de repente, Chiquinho eleva a voz e diz muito nervoso.

- Dr. Coronel, o senhor nem pode imaginar como um animal pode mudar de caráter nesse mundo de meu Deus. Essa danada de certos tempos para cá tem feito coisas estranhas, parece que está com o diabo no couro. Pois é tenho conversado com ela, dando muto conselhos e nada, a bicha deu para mentir que só vendo. Não acredite em nada que ela disser.

10/09/2025 Grijalva

                                                                                                                                      

 

 

 

 

 

 

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