domingo, 11 de janeiro de 2026

CRIANÇAS X PETS

 

CRIANÇAS X PETS



Até que enfim achei alguém que tem o mesmo pensamento sobre o assunto, igual ao meu. Vivo pelo meio do mundo, proclamando a desvalorização do ser humano em detrimento aos animais de estimação.       

            Movimento de proteção aos animais sensibilizam muitos segmentos da sociedade, no entanto, incontáveis pessoas permanecem indiferentes a milhões de crianças, anciãos e enfermos que morrem de fome cada ano, não por falta de alimento que o planeta fornece, mas por ausência total de compaixão e de solidariedade.

 Extraído do livro Transição Planetária de Manoel Fhilomeno de Miranda (espírito) e psicografado por Divaldo Franco.

            Vamos ver outras opiniões sobre esse triste tema.

            Visão geral criada por IA

            A tendência de preferir animais de estimação em vez de crianças é um fenômeno global, com jovens adultos optando por pets devido à busca por liberdade, estabilidade financeira e a sensação de companhia sem as grandes responsabilidades da parentalidade humana, transformando-os em "filhos de estimação", enquanto estudos sugerem que, para alguns, os pets podem ser um "passo prévio" para a paternidade, avaliando a capacidade de cuidar.

            Por Que Essa Tendência Acontece?

             Sociais e Econômicas: Menor pressão social para casar e ter filhos, preocupações econômicas e busca por flexibilidade na carreira.

            Benefícios Emocionais: Pets proporcionam companhia, amor incondicional e reduzem estresse, liberando ocitocina e melhorando o bem-estar, sem as demandas de um filho humano.

            Humanização dos Pets: Animais são cada vez mais vistos como membros da família, recebendo cuidados e mimos semelhantes aos de crianças, com produtos e serviços pet-friendly crescendo no mercado. "Filhos de Estimação" ou "Filhos de Prática"?

            Maternidade Não Convencional: Mulheres e casais veem os pets como uma forma de exercer o instinto de cuidar, como a veterinária Raiane Mantovani.

            Teste para a Paternidade: Um estudo sugere que cuidar de um cão pode ser um "efeito filho de prática", onde a experiência positiva aumenta a confiança para ter filhos humanos.

             Diferente: Pets oferecem um amor constante e uma presença que, para alguns, é mais duradoura que a de filhos que crescem e saem de casa, diz UOL Notícias.

Implicações Sociais

            Famílias Multiespécies: Casais com dupla renda (DINKWAD - Double Income, No Kids, With a Dog) adotam cães como foco central da família, sendo uma realidade crescente em cidades como Tóquio, Milão e Los Angeles, e também no Brasil e Argentina, observa Globo.

            Aumento da População Pet: O Brasil tem uma das maiores populações de pets do mundo, superando a população de crianças pequenas, e com uma demanda por produtos e serviços cada vez maior, segundo o UOL Notícias.

            Em Resumo: A escolha por pets em vez de filhos reflete uma mudança cultural, onde animais preenchem o papel de companheiros e "filhos", oferecendo afeto e satisfazendo a necessidade de cuidar, embora alguns estudos sugiram que essa experiência possa, paradoxalmente, preparar para a paternidade humana, segundo a Terra.

            Os animais de estimação estão substituindo os filhos? Um estudo sugere justamente o contrário

            Não é renúncia, é espera: o animal de estimação é sintoma de uma estabilidade econômica que não chega

            Recentemente, a onda de cachorros transportados em carrinhos de bebê tomou conta de espaços públicos, como shoppings e parques. Essa imagem se tornou símbolo de algo mais profundo: a sensação de que, em sociedades envelhecidas, os animais de estimação estão ocupando um lugar que antes pertencia aos filhos.

            Mas e se essa leitura estiver incompleta — ou diretamente errada? E se, longe de substituir os filhos, os pets estiverem desempenhando outro papel na vida familiar? Um novo estudo acadêmico põe em dúvida uma crença amplamente difundida.

            Para começar, os números ajudam a entender por que essa suspeita se instalou no debate público. Na Espanha, segundo a Rede Espanhola de Identificação de Animais de Companhia (REIAC), em 2023, havia mais de dez milhões de cães registrados, contra menos de dois milhões de crianças de 0 a 4 anos. Uma diferença tão grande que convida, quase automaticamente, a pensar em uma substituição dentro dos lares.

            Cenas que chegam de fora reforçam essa impressão. A Coreia do Sul cruzou um limiar simbólico: já se vendem mais carrinhos para cães do que para bebês. Não é exagero, é o reflexo estatístico de um país em emergência demográfica. A tendência pegou tanto que até a fé se adaptou. Em templos japoneses como o de Ichigaya Kamegaoka, o ritual milenar do Shichi-Go-San — antes exclusivo para crianças — passou a se encher de focinhos e coleiras. Na falta de crianças, os santuários abençoam animais de estimação para evitar que suas liturgias fiquem sem protagonistas.

            O Japão está ficando sem crianças, então os cachorros estão assumindo seu lugar nos rituais

            Sobre esse pano de fundo, proliferaram interpretações políticas e morais. Em 2022, o Papa Francisco classificou como “egoístas” aqueles que preferem ter animais em vez de filhos. Na Coreia do Sul, o então ministro do Trabalho, Kim Moon-soo, chegou a afirmar que os jovens “amam seus cães” em vez de formar famílias. Um diagnóstico forte, mas que se baseava mais em símbolos e percepções culturais do que em dados verificados.

            A ideia de que os animais de estimação substituem os filhos acaba de ser desmentida pela pesquisa acadêmica. O estudo Cats, Dogs, and Babies, liderado pelos pesquisadores Kuan-Ming Chen e Ming-Jen Lin, da Universidade Nacional de Taiwan, analisou por mais de uma década o comportamento de milhões de lares.

            A pesquisa chegou à conclusão de que pessoas que adotam um cachorro têm até 33% mais probabilidade de ter um filho do que aquelas que não o fazem. Longe de deslocar a paternidade, o animal parece atuar como um passo prévio. É o que os autores chamam de “efeito filho de prática”. Segundo Chen e Lin, muitos casais usam a experiência de cuidar de um cachorro para avaliar sua disposição de assumir responsabilidades — rotinas, gastos e vínculos afetivos. Se a experiência é positiva, aumenta a confiança para dar o próximo passo rumo à paternidade humana.

             Entanto, não há uma mudança à vista. Nem o estudo taiwanês nem os especialistas que analisam o inverno demográfico sustentam que o aumento de animais de estimação vá se traduzir, por si só, em uma recuperação da natalidade. O próprio trabalho acadêmico alerta que se trata de uma análise centrada em um país específico e que os padrões podem variar conforme o contexto cultural, econômico e social.

            O estudo não propõe os animais de estimação como resposta ao declínio demográfico, mas como uma pista sobre como hoje se adiam as decisões de cuidado em um contexto de incerteza econômica e existencial. A queda da natalidade responde a fatores estruturais amplamente documentados: precariedade no trabalho, encarecimento da moradia, dificuldades de conciliação, atraso na saída da casa dos pais e uma maternidade cada vez mais tardia. Nesse cenário, os pets não substituem os filhos; ocupam o espaço deixado por um projeto de vida adiado.

            Japão encontrou o número ideal de filhos por mulher para evitar a extinção demográfica: dois terços do planeta estão muito longe disso

            Por isso, a imagem do cachorro no carrinho resume bem essa ambiguidade. Como explica o Dr. Jerry Klein, veterinário-chefe do American Kennel Club, esses carrinhos podem ter uma função prática em certos casos: “Oferecem a cães idosos, com artrite ou problemas de mobilidade, uma forma de aproveitar o ar livre sem se esforçar”. Plataformas veterinárias como Dialvet e ToeGrips concordam que eles podem ajudar a proteger as patas do asfalto quente ou auxiliar cães pequenos que não conseguem acompanhar longas caminhadas.

            No entanto, outros especialistas pedem cautela. Carlos Carrasco, da DOS Adiestramiento, alerta que “um cachorro não é uma criança com pelos” e que levar um animal saudável em um carrinho pode ser uma “humilhação” que o desnatura. Na mesma linha, a etóloga Isabel Jiménez, diretora da La Manada de Iris, afirma na IM Veterinária que a humanização excessiva “anula o cachorro como espécie e o adoece emocionalmente”. Um estudo publicado na revista Animals (MDPI) reforça essa ideia, alertando que o antropomorfismo pode gerar ansiedade e estresse no animal ao não respeitar suas necessidades biológicas básicas, como farejar e caminhar.

            Por fim, o auge dos animais de estimação não explica por si só o inverno demográfico, mas revela como as formas de afeto e responsabilidade estão sendo reconfiguradas em sociedades onde ter filhos se tornou mais complexo. O estudo taiwanês não oferece soluções milagrosas, mas traz um alerta claro: colocar pets e filhos como se fossem opções excludentes simplifica demais uma realidade muito mais matizada.

https://www.xataka.com.br/ciencia/os-animais-estimacao-estao-substituindo-os-filhos-um-estudo-sugere-justamente-contrario




quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

VANDALISMO

 

O MAIOR POETA DO MUNDO

 

VANDALISMO

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas,
Cintilações de lâmpadas suspensas,
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais,
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos…

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a Imagem dos meus próprios sonhos!

Pau d'Arco – 1904.
Augusto dos Anjos
            Vamos ver o que a inteligência artificial tem a dizer desse poema, considerado um dos mais belos e significativos, que uma mente humana pode externar um sentimento em tão poucas palavras...

            "Vandalismo" é um famoso poema de Augusto dos Anjos, inserido no Pré-Modernismo, que descreve a destruição de ideais e sentimentos puros (as "catedrais" e "sonhos") por uma força avassaladora, como a paixão ou o desejo, personificada por um "nume de amor" que se torna um "iconoclasta", quebrando suas próprias ilusões e confraternizando com a realidade cruel e desiludida, refletindo a complexidade da alma humana e a desilusão.

Resumo do Poema:

            As Catedrais Internas: O eu lírico descreve seu coração como catedrais imensas, cheias de crenças e luzes, um lugar de amor e pureza.

            A Entrada do Vandalismo: Ele entra nesses templos como um Templário medieval, com espadas (gládios) e lanças, um ato de destruição iconoclasta.

A Destruição dos Sonhos: Ele quebra as imagens dos próprios sonhos, representando a ruptura com o idealismo e a aceitação de uma realidade mais sombria e visceral.

            Conflito Interno: O poema explora o conflito entre o amor idealizado e a paixão arrebatadora, onde o desejo destrói a pureza, e o eu lírico se torna o agente dessa própria destruição, um ato de auto-vandalismo.”

            Agora vamos ouvi o Chico Viana, professor e doutor em letras, com tese sobre o poeta.

            Vandalismo” é o único poema com características simbolistas que aparece no “Eu”. Os outros o poeta deixou de lado, e os críticos hoje lhe dão razão: embora tecnicamente bem-feitos, eles pouco acrescentam à obra do paraibano. Refletem uma temática comum à época e apresentam um estoque de imagens que estão longe de caracterizar o Augusto dos Anjos que viríamos a conhecer e admirar.

            O tema de “Vandalismo” é a perda da crença. É a “mágoa” subsequente ao desencanto que a descrença traz. Lembremos os versos, muito conhecidos por sinal:
            O soneto reflete um estado de espírito típico do final do século 19, quando as ideias científicas advindas do Positivismo ameaçavam os anseios de transcendência e espiritualidade. Augusto voltaria a tema semelhante em “A ilha de Cipango”, mas com uma dicção pré-moderna.

            Por que o poeta manteve “Vandalismo” no “Eu” apesar do seu claro acento simbolista, que se evidencia no léxico raro, precioso, próximo da “estética da sugestão”? Esse léxico, afinal, está muito distante do vocabulário prosaico e “científico” que lhe permeia a obra.

            Talvez a escolha tenha mesmo um valor... simbólico. Se “Monólogo de uma Sombra” antecipa alguns dos temas caros ao poeta (como a culpa melancólica, a contestação do Positivismo e a rejeição à sexualidade), “Vandalismo” é um momento de ruptura. Há também nele, graças sobretudo à força das aliterações, uma rispidez expressionista que vai se constituir numa das marcas do seu estilo. Uma rispidez que faz lembrar a “poética por estampidos” apontada por Manuel Bandeira.
            A iconoclastia que o eu lírico refere no último terceiro se reforça, fonicamente, nos “gládios” e “hastas” que se “erguem” para destruir um ideal. Um ideal não religioso, mas estético, representado pela concepção da poesia como pura música, evanescência que tranquiliza o espírito.

            Os versos do último terceto constituem uma antítese à estrofe imediatamente anterior, na qual se fala em “templos claros risonhos”, e soam como o anúncio de uma nova opção estética. Uma opção que fará com que no “Eu” prevaleça não a claridade, mas a Sombra. E se nele algum riso houver, será de ironia ou sarcasmo.

 

 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

COMER CARNEIRO COM RESPONSABILIDADE

 

COMER CARNEIRO, COM RESPONSABILIDADE

 

                      João José da Silva Carneiro, vulgo João Ligeirinho, era homem do eito, trabalhava em tudo que aparecesse fosse onde fosse. Não tinha lugar certo para viver. Dizia – que o mundo era sua casa. Já caminhava para os trinta anos e dez convivência com Maria Vitória, mulher parideira das boas, nunca perdeu um amarelinho, como chamava seus rebentos. Nos dez anos de amancebamento tinha colocado no mundo onze crianças, saudáveis, bonitas e da cor do sertão na seca braba, tudo acinzentado. Era uma danada para saber tirar leite de pedra e fazer uma boa alimentação para seus nazarenos. Eram umas máquinas para trabalhar sem descanso. Ele no meio do mundo trazendo o de-comer e ela nos afazeres domésticos em benefícios da grande prole sempre limpas, coradas, bem vestidas e educadas. Mãe exemplar.

                      João Ligeirinho, a outra parte da engrenagem, era a peça mágica para que tudo isso pudesse acontecer. Trabalhava sem pantim, fazia o diabo a quatro para os bichinhos não passarem necessidades. Não fumava, não bebia e não jogava, o dinheiro suado não dava para enganação.  

                      Um dia o destino o chamou para as bandas dos engenhos e dos coronéis. Tudo verde e se chovia, tinha trabalho e fartura. Danou-se de estrada a fora com sua cambada de meninos e sua velha companheira. De banda levava um jumento com suas tralhas e um cachorro a tira colo, bom todo na caça, cada latido avisava qual bicho estava acuando.

                      Estrada demorada, parecia que o destino lhe engana, mas quase sem esperar aparece lá no finzinho do poente uma porteira pintada de azul e em cima num portal a inscrição - Engenho Carga D’Água. Não pesou duas vezes, emburacou sem medo nas terras estranhas, sempre fora desaforado.

                      - Menino meu não passa fome!

                      Andou um bom pedaço, meio receoso, mas confiante no Padim Cíço, foi em frente até que se descortinou numa curva um casarão pintado todo de branco com portas e janelas pintadas de um azul celeste.

                      - Casa de gente importante pensou, Deve ser coronel.

                      Ninguém nos aceiros e nem na casa. Um silencio danado. Hora da madorna dos ricos e pobres não devia se atrever a perturbar. Arreou seus mangaios debaixo de uma quixabeira e cautelosamente se acomodaram na sombra, a espera que aparecesse algum vivente.

                     De repente, ouviu-se um tinido repetidamente, vindo da casa. Ligeirinho levantou a cabeça e avistou um homem vestido de terno branco, chapéu tipo Panama esparramado na cabeça branca, batendo num pedaço de trilho no alto da varanda.

                      O coronel vendo aquela arrumação, debaixo da quixabeira, mandou seu Aprígio saber do que se travava.

                      - Coronel, é um povo de fora, muita gente, família grande e quer trabalho, pelo visto, são do eito.

                      - Volte e traga o cabra, conheço gente pelo cheiro e pelo pisar no chão, se presta ou se não vale um peido de uma gata.

                      - Bom dia coronel, entrei sem permissão nas suas terras, por atrevimento de uma família atrás de trabalho para não ver os meninos chorando com fome, coisa muito triste de se ver. Mas se mandar volto em cima da bucha pra trás.

                      - Vem de onde, gosta de trabalhar com quê?

                      - Cidadão pra dizer a verdade, sou de todo canto, faço de um tudo, menos roubar e matar um cristão.

                      - Pois bem, estou precisando de gente para um adjutório nas novas roças. Aprígio vai levar vocês para se arrancharem lá no cercado dos Angicos, casa aconchegante. Converse com ele das suas precisões. Passe no barracão e pegue o necessário para começar.

                      O tempo foi andando sem cobrar juros e nem dar prazo. A luta no campo não para, é um core corre da gota serena.

                      Se João José pudesse perguntar como faria para parar o tempo ao Platão ele diria “tempo é uma cópia imperfeita e fluida do mundo eterno e imóvel das Ideias, um receptáculo vazio, para os eventos”; ao  Aristóteles seria assim: “O tempo não é o movimento em si, mas sua medida, a quantidade de antes e depois nos eventos, exigindo uma mente que possa mensurar”; ao Heráclito, falaria desse jeito: “Uma força dinâmica de constante mudança e impermanência, onde tudo flui"; Kant responderia mais ou menos assim: “O tempo é uma intuição pura da nossa sensibilidade, uma estrutura mental que organiza as experiências, não algo em si fora de nós”; O Leibniz afirmaria categoricamente que: “tempo não existe independentemente dos fenômenos; é a ordem sucessiva das coisas e sua mensuração depende do referencial do observador, como na Teoria da Relatividade”; Já Zé Cachorro, sorrindo falava que “Todos os momentos (passado, presente e futuro) são igualmente reais, e o fluxo do tempo é uma ilusão ou projeção da consciência, não uma propriedade fundamental da realidade”.

                      - O que tá pensando Joca, - perguntou sua mulher.

                      - Pensando besteiras e como poderia parar o tempo, bicho danado que não espera por ninguém e aguardando que o jumento do coronel diga o tempo de me levantar e cair no mundo, pois o galo de campina já avisou que passa das cinco da manhã. Correr atrás do de-comer dos meninos.

                      O tempo foi passando e os meses correndo até que um dia...

                      - Bom dia coronel – falou o capataz Aprígio.

                      - O que foi que houve para vir dar bom dia tão cedo?

                      - Não queria nem dizer, mas se é pra falar vou contar. Os carneiros gordos do senhor estão desaparecendo, só os mais gordos. Faz dias que desconfio e andei no rastro e nada. Nem sinal. Nada de nada. É como tivessem se envultados.

                      - Bando de cabras safados e molengas, como já se viu, carneiro não voa e nem se encanta. Vou cuspir no chão para vocês descobrirem o furto dos meus bichinhos.

                      Não deu outra. A cambada caiu em campo dia e noite e nada. Chamaram um rastejador vizinho e com três dias, desencantou o mistério.

                      - Boa noite patrão, trago notícias dos carneirinhos desaparecidos.

                      - Diga logo homem, estou sem dormi há dias com saudades dos meu estimados animais.

                      - Foram comidos pelo João José, o amarelo lá do sertão.

                      - Não acredito. Vão buscar imediatamente esse desaforado, traga de todo jeito.

                      - Pronto coronel, o homem veio sem arrodeio.

                      - Subam e sente ele nessa espreguiçadeira e não saiam de perto.

                      - Hermenegilda, traga a macaca de couro cru que está atras da porta da sala.

                      - Mas homem, fiz tudo por você e sua família e vosmecê apronta essa comigo, onde você estava com a cabeça, pra fazer uma desgraça dessa, você é doido ou tem um irmão que comer bosta. Chegou com essa carinha de besta, inocente se fazendo de sonso, coberto com uma manta de cordeiro, mas debaixo era uma raposa doida de atirar pedra. Veio do inferno das cuias desaforar um coronel, fazendeiro, honesto, respeitador da ordem, religioso, bom pagador do que deve, mas, contudo, não guardo desaforo de fela da puta nenhum.

                      Tá vendo essa macaca aqui, nunca negou fogo. É melhor do que muitos padres, pois na confissão o cabra conta tudo direitinho, o que não fez, o que fez e o que ia fazer.

                      Vou pedir uma explicação, mesmo sabendo que não tem, do absurdo que você fez na minha cara e diante desse magote de cabra mole que vive as minhas custas e não vê um safado comer meus melhores animais como num passe de mágica.

                     - Primeiramente coronel, bom dia para o senhor e sua dignifica família. Sou analfabeto de pai e de mãe. Estou errado como o senhor mesmo falou. Mas tem uma coisa, que não vai explicar e nem me defender dos meus erros.

                     - A fome doutor é um bicho que não espera, tem pressa, provoca uma agonia danada no cabra, tira toda vontade de trabalhar, a preguiça toma conta da gente, os pensamentos na cachola só levam para o ruim da vida, menino chorando por falta de comida, doutor, dói demais. Ver o fogo acesso e nada nas panelas, até as lombrigas arengam dentro das tripas dos meninos, coisa triste seu coronel. Que Deus, Nosso Senhor e as Onze Mil Virgens nunca permita que isso aconteça na sua santa família.

                     O dinheiro da semana trabalhada fica todo no barracão, por mais que a gente se limite, no feijãozinho de corda, farinha, rapadura para adoçar o café, milho para o cuscuz, não sobra para a carne ou peixe salgado. É triste a gente ver onze meninos seminu choramingar todos os dias pela mistura que nunca chega. É melhor morrer na faca peixeira, no cassete, numa picada de cobra, duma caganeira, de uma doença braba, de vergonha do que morrer de fome.

                     - Toinho, meu filho mais taludinho, olhou pra mim um dia desse e falou, pai – pia os urubus comendo carne daquele carneiro que a cobra matou, porque a gente também não come? Quase chorei de dor coronel.

                     - Deixe de converseira besta, de lenga, lenga e confesse como era feito o furto, coisa que ninguém desconfiava; não pense que vai se livrar da Maria Bonita, toda ensebada e com saudade de trabalhar no espinhaço de ladrão.

                     - Noite triste sem lua e mais um dia a gente ia dormir desconsolados com o bucho oco. Danei-me com os meninos mais crescidos para o curral de cima. Coisa que sabia que era o satanás que mandava fazer uma asneira dessa. Entramos com muito cuidado para não espantar os pobrezinhos que estavam sossegados. Cercamos o primeiro que tava no meio do rebanho, era o mais pesado por sinal.  Jogamos uma toalha velha na cabeça e caímos todos em cima dele, até o bicho não se mexer mais. Levamos para casa, tiramos o couro e enterramos dentro do quarto junto com os miúdos, cabeça e as patas.

                     - Cabra velho safado, como teve a audácia de fazer um desmantelo desse dentro da minha fazenda centenária, nunca antes desmoralizada. Vem agora um amarelo safado do meio do mundo, ensinar como se furta.

                     - Zequinha levante esse danado, amarre as mãos e os pés e o prepare para apanhar até pagar todos os quilos dos meus sevados carneiros. Faça a conta de quantos bichos ele devorou e transforme em quilos. Cada quilo é uma lamborada com vontade, dessa que levante o lombo. Guardando meus carneiros para comer nos meus oitenta e três anos e vem esse desaforado e me tira o gosto da boca.

                     Outra coisa que não entendi ainda, seu salafrário, cabra de peia, descomungado, patife, velhaco, tratante, vigarista, canalha, ordinário. Como foi que você comeu meus carneiros?

                     - Homem de Deus, a gente fazia um foguinho com madeira de angico, para não mostrar fumaça, depois que o mundo tivesse calado, assava o danadinho e comia os pedacinhos com farinha; nunca mais os meninos dormiram com fome.

                     - Cabra de coragem, se você tivesse comido meus carneiros cozidos ou de outro jeito, ia apanhar até dizer basta. Solte o homem ele sabe realmente como se come carne de carneiro.

         

Campina Grande, 22/12/2025

Grijalva

 

                    

         

 

           

 

 

         

 

sábado, 20 de dezembro de 2025

AULA DE CAMPO OU AVENTURA

 Campina Grande, 29 de novembro de 2021.

Aula de Campo ou Aventura?

Só hoje, cinco anos após, resolvi relatar essa aventura, com certeza a maior quer vivi enquanto

professor do Centro de Ciências Agrárias (CCA), juntos a parte dos meus alunos do semestre letivo 2016.1.

Pra quem não sabe, sou professor da disciplina Fisiologia Vegetal do Departamento de Biociências

do CCA/UFPB em Areia-PB. Geralmente, no final da disciplina, juntamos as três turmas e ministramos uma

aula de campo no Cariri Paraibano sobre Estresse Hídrico.

Tenho o costume de solicitar o ônibus para aula de campo com antecedência. Dessa vez não foi

diferente, em 04/10/16 solicitei o ônibus para quem em 26/11/16 pudesse “Levar alunos para o Cariri

Paraibano, mais precisamente na Zona Rural de Cabaceiras, onde seria ministrada uma aula prática sobre

Estresse Hídrico e as adaptações dos vegetais a escassez de água”. Lembrem-se bem dessa justificativa de

viagem.

Como tenho moradia em Campina Grande-PB, geralmente saio de minha residência, enquanto o

ônibus sai do CCA e ambos vamos em direção ao posto de combustível da entrada da cidade de Boa Vista-

PB, esse posto que ainda será objeto de nossa aventura, para de lá seguirmos juntos ao destino. Por sorte,

um amigo e a então noiva que moravam em Natal, estavam em Campina Grande e quiseram nos

acompanhar, por coincidência e por bom gosto dos pais dele, seu nome também é Mário, que aqui vou

chamar de Mário Guillian para não lhes confundir. Eles foram em seu carro e minha esposa e meu filho, que

sempre me acompanha nessas aulas, foram comigo em nosso automóvel. Mário Guillian e sua noiva

Agerlane mal saberiam que seriam nossa salvação. Kkkkk.

O ônibus com cerca de 30 alunos deve ter chegado ao Posto de Combustível, nosso ponto de

encontro, por volta das 08:30h, de onde seguiríamos em direção ao Hotel Fazenda Pai Mateus, pois de lá

iríamos a campo para nossa aula, voltaríamos para o hotel, almoçaríamos e, por volta das 16h, quando o sol

baixasse, iríamos levar os alunos para conhecer o famoso Lajedo do Pai Mateus e entender como aqueles

matacões de formaram. Logo que entramos na estrada de terra, vi que o ônibus ficou pra trás, esperei e

nada, então decidi voltar, foi quando visualizei o ônibus parado logo na entrada dessa estrada. Parei o carro

e fui conversar com o motorista, foi a partir daí que nossa persistência foi colocada à prova.

O motorista relatou que como aquele era o ônibus novo, não poderia entrar na estrada de terra, só

poderia rodar por asfalto (1º obstáculo). Eu não sabia dessa recomendação, mas argumentei que na

requisição de transporte eu teria solicitado transporte para “Zona Rural de Cabaceiras” e eu não conhecia

nenhuma zona rural seu acesso em asfalto. Lembrei também que tinha mais dois ônibus, bem velhos na

verdade, mas que poderiam trafegar nessas estradas, só que não caberia a mim escolher qual transporte.

Ele disse que não tinha ordem para seguir e que eu resolvesse com o chefe do setor de transporte ou com o

diretor. Liguei para o referido chefe que disse que ordenaria o seguimento da viagem se eu me

responsabilizasse por qualquer dano ao ônibus, o que não o fiz é lógico, pois alguma peça poderia estar

prestes a quebrar e eu não iria assumir esse risco. Depois de várias argumentações por parte dos dois

lados, a saída menos danosa que nos propuseram, foi deixar os alunos ali, voltar ao CCA para trocar o

ônibus e vir buscar a turma ao final do dia.

Diante das possibilidades, aceitei a proposta, mas pra isso tinha antes que conseguir um transporte

para levar os alunos com segurança ao ponto de apoio, ou seja, o Hotel Fazenda Pai Mateus, distante cerca

de 20 km dali. Não poderia deixá-los na estrada, pois estávamos no cariri em pleno mês de novembro,

debaixo daquele sol escaldante.

Nesse momento passou uma pick up, perguntei ao motorista se conhecia alguma van para

transportar os alunos e ele me disse apenas que por R$ 700,00 levaria todos. Não aceitei por dois motivos

óbvios, o alto valor e o inadequado transporte, pois uma viagem dessa em carro aberto levanta uma

quantidade absurda de poeira.

Decidi ir à Cidade de Boa Vista saber se alguém poderia fazer esse serviço. Entrei no meu carro,

girei a chave e...... nada, nem a luz do painel acendeu (2º obstáculo). Desconfiei da bateria e tomando meu

pai como exemplo, sempre ando com um cabo para fazer chupeta (ligar a bateria descarregada a outra

carregada). Mário Guillian alinhou seu carro com o meu, colocamos o cabo, ligou o carro dele, girei

novamente a chave e ...... nada. Isso mesmo, nem assim conseguimos fazer a bateria pegar um pouco de

carga.

Como não tínhamos o que fazer, um aluno e eu entramos no carro de Mário Guillian, deixamos o

ônibus e meu carro na estrada com os nossos familiares e alunos e nos dirigimos ao centro da cidade de

Boa Vista procurar transporte para os alunos e uma bateria para o meu carro. Minha prioridade era

inicialmente procurar o transporte para só depois que liberasse o ônibus, tentar resolver a situação do meu

carro. Logo que entrei na cidade dei de cara com uma loja que vendia bateria de automóvel, relatei meu

caso e o proprietário, Sr. Ginaldo, me disse que alguém da loja iria ao local. O aluno ficou pra seguir com o

funcionário até onde estava o carro. Falei também da necessidade de um transporte para os alunos e me

orientaram a ir à casa do Sr. André, então vice prefeito, que acabara de ser eleito para assumir a prefeitura

em pouco mais de um mês.

Ainda em direção a casa do Sr. André, tentamos conseguir alguém que tivesse uma van e pudesse

nos ajudar, mas fomos informados que naquele dia 26/11 seria a tradicional festa de padroeiro, creio que

da Comunidade do Bom Jesus dos Martírios e todos os donos de transportes alternativos estariam se

preparando para participarem na procissão, sendo improvável conseguir um transporte naquele dia (3º

obstáculo).

Fomos bem recebidos quando chegamos na casa do Sr. André, mas a informação que ele nos deu

era que nada poderia fazer. Afirmou que, caso eu quisesse, poderia falar com o prefeito, Sr. Edvan, que

naquele horário era bem provável que estivesse no Posto de Combustível de sua propriedade. Perguntei

qual posto seria e ele me disse que era o único que tinha na cidade, ou seja, nosso ponto de encontro

inicial.

Diante da negativa do vice prefeito e da informação de que os donos de transportes alternativos

não iriam rodar naquele dia, fomos em direção ao referido posto de combustível em busca do prefeito de

Boa Vista. Ao chegar, perguntei quem era o Sr. Edvan e um rapaz me disse: - É aquele senhor ali que está

indo embora. Gritei como se o conhecesse de anos, kkkk: Sr. Edvan!!!! Percebi um olhar de alguém que se

indagasse “de onde conheço esse doido?”, kkkk.

O cumprimentei e relatei todo o ocorrido, pedindo sua ajuda na qualidade de prefeito para levar os

alunos em segurança pra o Hotel Fazenda Pai Mateus enquanto tentava resolver a questão do meu carro. O

Sr. Edvan prontamente ligou para uma pessoa e disse: - Você tá bebendo? Não? Então venha aqui no posto

agora com o ônibus pra levar uns alunos ali. Nessa hora senti um alívio enorme. Até hoje acho que se não

fosse esse gesto do Sr. Edvan, tínhamos voltado para o CCA e de certa forma teríamos causado uma grande

frustação nos alunos.

O ônibus chegou, vi que o motorista não estava tão satisfeito, mas quem era doido de não cumprir

uma ordem do prefeito? Kkkk. Os alunos subiram e foram para o Hotel enquanto eu iria tentar resolver a

bronca da bateria. Isso já era por volta das 11:00h e ainda iríamos ter aula. Quando cheguei no meu carro,

o rapaz da loja disse que o problema realmente era a bateria, mas não tinha nenhuma com as mesmas

dimensões, embora poderia adaptar, mesmo que ficasse fora do local específico. Só assim conseguiria

seguir viagem. Solicitei que adaptasse e os Mários novamente foram na loja de baterias para acertar com

Sr. Ginaldo, pois o comércio iria fechar ao meio-dia.

Ao chegar no estabelecimento, relatei que a bateria não encaixava no suporte do Civic, mas teria

que ficar com ela, pois era a única opção para o momento. Sr. Ginaldo perguntou se eu esperaria ele

conseguir uma da que estava precisando em Campina Grande, mas só chegaria por volta das 15h. Eu disse

que também residia em campina Grande, mas não poderia esperar, pois tinha compromisso com os alunos.

Então ele me fez uma proposta que me surpreendeu.......... disse que eu fosse embora, na segunda-feira eu

comprasse a bateria própria para o meu carro em Campina Grande e entregasse essa que estaria me

emprestando na Loja Macena, pois chegaria até ele. Perguntei se queria que deixasse algum valor e ele

disse que não. Perguntei se deixaria algum documento como garantia e ele também disse que não. Aí

perguntei como ele confiaria em uma pessoa que nunca viu, foi quando Sr. Ginaldo me respondeu: - Faz

tempo que eu lido com pessoas e a gente já percebe quem tem boa índole. Vá para seu compromisso, não

precisa deixar nada. Segunda-feira você se preocupa com isso. Fiquei surpreso e muitíssimo grato com a

atitude que serviu também como aprendizado pra mim. Antes de continuar relatando essa aventura,

adianto que na segunda-feira dia 28/11 a primeira coisa que fiz foi comprar uma nova bateria e entregar a

do Sr. Ginaldo no local acordado.

Agora sim, fomos rumo ao Hotel, a essa altura já tínhamos perdido a manhã toda e estávamos

suando mais que tampa de chaleira, como se diz aqui no Nordeste. Kkkk. Tivemos que alterar nosso

planejamento e fazer tudo logo após o almoço, ou seja, almoçar e cair em campo. Afinal de contas,

Agrônomos, Biólogos e Zootecnistas não estão se graduando para ficarem em uma sala com arcondicionado.

Kkkk.

Após o almoço, esperamos cerca de meia hora e fomos ao local da aula de campo, embaixo de um

Umbuzeiro, uma das árvores símbolo do nosso cariri. Mas como ir a campo sem o ônibus pra levar os

alunos? (4º obstáculo). Mais uma vez Mário Guillian me ajudou, pois

cada um de nós demos três ou quatro viagens em nossos carros levando

os alunos para o local da aula de campo. Tivemos nossa aula e depois

fomos andando para o Lajedo do Pai Mateus, pois se distanciava cerca

de 1 km dali. Meu filho David, companheiro das aulas nas pedrinhas,

como ele mesmo fala, na época com três anos, acompanhou tudo.

Quando chegamos no Lajedo o guia e amigo Ribamar apresentou toda a história daquele local aos

alunos e turistas que ali estavam. Tinha também uma equipe da TV Paraíba, cujo repórter Hidelbrando

Neto estava liderando, para gravar uma reportagem para o programa “COMO SERÁ?” apresentado por

Sandra Annenberg e que vai ao ar aos sábados pela manhã. A reportagem ainda entrevistou dois alunos e a

mim como professor, como podemos ver nas fotos.

Esperamos o sol se pôr e descemos o lajedo, nessa altura o ônibus que poderia rodar em estrada de

terra já estava à espera dos alunos. kkkk. Antes de seguir viagem de volta ao CCA, passamos pelo hotel para

que os alunos pudessem ir ao banheiro e comprar água.

Após me despedir dos alunos e liberar o ônibus, já estava indo embora quando fui cumprimentar o

amigo, e proprietário do Hotel Fazenda Pai Mateus, o Sr. Duda Lucena, que nos convidou para participar de

um jantar de confraternização a ser realizado naquela noite. Rodrigo Hilbert, também presente nesse jantar

estava hospedado no Hotel Fazenda Pai Mateus, pois também gravara um programa de culinária, acho que

para a GNT. Agradecemos e aceitamos o convite para encerrar esse dia totalmente fora do padrão.

Após o jantar, voltamos pra casa com a certeza do dever cumprido, embora tivéssemos que superar

vários desafios.

Depois de alguns dias, ao pegar um bloco de notas que deixo no porta luvas do meu carro,

encontrei essa mensagem da última foto, escrita por minha esposa Danuska no momento que estava no

nosso carro, surpreendentemente paciente, à espera de que resolvêssemos tudo o que relatei aqui.

Obs.:

1) Por tudo que ocorreu em um único dia, dá pra entender o motivo de não ter postado antes. Kkkk.

2) Nenhum dos citados aqui sabem dessa história completamente.

UFA

Mário Luiz Farias Cavalcanti

Biólogo. Prof. DB/CCA/UFPB – Campus II

mariolfcavalcanti@yahoo.com.br

sábado, 1 de novembro de 2025

FINADO

 

DIA DE FINADOS

Onde os poetas discordam da bíblia

 

            A Bíblia diz que todos irão ressuscitar, uns para a vida eterna e outros para a morte eterna (Dn 12.2). Quem tiver seu nome no livro da vida ressuscitará para a vida eterna, enquanto que aos demais, ressuscitarão para a perdição eterna, ou seja, para a segunda morte (Ap 20.11-15).

            Dia dos Fiéis Defuntos (em Portugal); Dia de Finados ou Dia dos Mortos (no Brasil), é uma data que a Igreja Católica dedica aos mortos e suas almas, no dia 2 de novembro de cada ano. É o terceiro e último dia da Estação de Todos os Santos.

            Desde o século II, alguns cristãos rezavam pelos falecidos quando visitavam os túmulos dos mártires. No século V, a Igreja dedicava um dia do ano para rezar por todos os mortos já esquecidos. O abade Odilo de Cluny, no final do século X, pedia aos monges que orassem pelos mortos. Desde o século XI os Papas Silvestre II (1009), João XVII (1009) e Leão IX (1015) obrigavam a comunidade a dedicar um dia aos mortos. No século XIII essa data passa a ser oficialmente celebrada em 2 de novembro, um dia após a Festa de Todos os Santos. A doutrina católica evoca algumas passagens bíblicas para fundamentar sua posição (cf. Tobias 12,12; Jó 1,18-20; Mt 12,32 e II Macabeus 12,43-46) e é suportada por uma prática de quase dois mil anos.

 

 

Vozes da morte

 

Agora, sim! Vamos morrer, reunidos,
Tamarindo de minha desventura,
Tu, com o envelhecimento da nervura
Eu, com o envelhecimento dos tecidos!

Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos!
E a podridão, meu velho! E essa futura
Ultrafatalidade de ossatura,
A que nos acharemos reduzidos!

Não morrerão, porém tuas sementes!
E assim, para o Futuro, em diferentes
Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos,

Na multiplicidade dos teus ramos,
Pelo muito que em vida nós amamos,
Depois da morte, inda teremos filhos!

Augusto dos Anjos

 

Solitário

Como um fantasma que se refugia

Na solidão da natureza morta,

Por trás dos ermos túmulos, um dia,

Eu fui refugiar-me à tua porta!

 

Fazia frio e o frio que fazia

Não era esse que a carne nos contorta...

Cortava assim como em carniçaria

O aço das facas incisivas corta!

 

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!

E eu saí, como quem tudo repele,

- Velho caixão a carregar destroços -

 

Levando apenas na tumba carcaça

O pergaminho singular da pele

E o chocalho fatídico dos ossos!

Augusto dos Anjos

 

 

A morte não é nada.

Eu somente passei

Para o outro lado do caminho.

Eu sou eu, vocês são vocês.

O que eu era para vocês,

Eu continuarei sendo.

Me deem o nome

Que vocês sempre me deram,

Falem comigo

Como vocês sempre fizeram.

Vocês continuam vivendo

No mundo das criaturas,

Eu estou vivendo

No mundo do Criador.

Não utilizem um tom solene

Ou triste, continuem a rir

Daquilo que nos fazia rir juntos.

Rezem, sorriem, pensem em mim.

Rezem por mim.

Que meu nome seja pronunciado

Como sempre foi,

Sem ênfase de nenhum tipo.

Sem nenhum traço de sombra

Ou tristeza.

A vida significa tudo

O que ela sempre significou,

O fio não foi cortado.

Porque eu estaria fora

De seus pensamentos,

Agora que eu estou apenas fora

De suas vistas?

Eu não estou longe,

Apenas estou

Do outro lado do caminho…

Você que aí ficou, siga em frente,

A vida continua, linda e bela

Como sempre foi.

Santo Agostinho

 

À MORTE

Ó morte, eu te adorei, como se foras

O fim da sinuosa e negra estrada,

Onde habitasse a eterna paz do Nada

Às agonias desconsoladoras.

 

Eras tu a visão idolatrada

Que sorria na dor das minhas horas,

Visão de tristes faces cismadoras,

Nos crepes do Silêncio amortalhada.

 

Busquei-te, eu que trazia a alma já morta,

Escorraçada no padecimento,

Batendo alucinado à tua porta;

 

E escancaraste a porta escura e fria,

Por onde penetrei no Sofrimento,

Numa senda mais triste e mais sombria.

Antero de Quental

 

Minha morte nasceu

 

Minha morte nasceu quando eu nasci.

Despertou, balbuciou, cresceu comigo...

E dançamos de roda ao luar amigo

Na pequenina rua em que vivi.

 

Já não tem mais aquele jeito antigo

De rir e que, ai de mim, também perdi!

Mas inda agora a estou sentindo aqui,

Grave e boa, a escutar o que lhe digo:

 

Tu que és a minha doce prometida,

Nem sei quando serão as nossas bodas,

Se hoje mesmo... ou no fim de longa vida...

 

E as horas lá se vão, loucas ou tristes...

Mas é tão bom, em meio às horas todas,

Pensar em ti... saber que tu existes!

Mário Quintana

 

 

 

A morte absoluta

 

 

Morrer.

Morrer de corpo e de alma.

Completamente.

 

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,

a exangue máscara de cera,

cercada de flores,

que apodrecerão – felizes! – num dia,

banhada de lágrimas

nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

 

Morrer sem deixar porventura uma alma errante…

A caminho do céu?

Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

 

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,

a lembrança de uma sombra

em nenhum coração, em nenhum pensamento,

em nenhuma epiderme.

 

Morrer tão completamente

que um dia ao lerem o teu nome num papel

perguntem: “Quem foi?…”

 

Morrer mais completamente ainda,

– sem deixar sequer esse nome.

Manoel Bandeira

 

 

A Morte

           

Oh! que doce tristeza e que ternura

No olhar ansioso, aflito dos que morrem...

De que âncoras profundas se socorrem

Os que penetram nessa noite escura!

 

Da vida aos frios véus da sepultura

Vagos momentos trêmulos decorrem...

E dos olhos as lágrimas escorrem

Como faróis da humana Desventura.

 

Descem então aos golfos congelados

Os que na terra vagam suspirando,

Com os velhos corações tantalizados.

 

Tudo negro e sinistro vai rolando

Báratro a abaixo, aos ecos soluçados

Do vendaval da Morte ondeando, uivando...

 Cruz e Sousa