sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

CAVALOCÍPEDE

 

CAVALOCÍPEDE

 

Anfrozino era um cavalocípede, como chamava meu pai aquelas pessoas desregradas, animalescas nas refeições, completamente analfabetas na moral, estúpidos no raciocínio e por aí vai essa classificação...

O cara era metido a enxerido e a frequentar as casas sem ser convidado. Todos os domingos o bicho maquinava a casa de uma vítima para filar o almoço do domingo e as boas sobremesas como era costume nas boas famílias.

A cidade de Bela Vista, situada num recanto desguarnecido de estradas “reais”; as pessoas tinham ainda o costume de receber as visitas com uma boa recepção, seja quem fosse.

Povo esmerado na educação, nos costumes de antanho, famílias esmeradamente católicas. Povo bom e honesto, as vezes fácil de ser lubridiado, pois acreditava plenamente nas pessoas, pela primeira vez e principalmente nas suas as aparências e os bonitos palavreados.

Anfrozino se aproveitava disso e metia o garfo nos banquetes ao domingo ou dias santos. A casa na rua ou nos sítios já estavam escalonadas. Sempre dava um espaço grande de tempo entre uma e outra. Com isso esperava que a turma esquecesse da sua incomoda visita.

Sua próxima vítima seria a fazenda do seu Zeferino. Esperou o vendedor de leite da fazenda e avisou. Diga ao coronel que domingo chego por lá.

Domingo amanheceu com o céu lindo, sol manso, nuvens passageiras azuladas com fiapos brancos que pareciam cumulus. Antes de pôr os pés fora de casa, tinha o cuidado de olhar o céu em direção a sua vítima e ver qual vestimenta e acessórios teria que levar.

Nesse dia, achava que Deus estava do seu lado. Havia dormido muito bem, acordado tranquilamente e com uma fome de lascar. Arrumou-se e danou-se de mundo a fora com um cigarro no bico. Não sabia que a paciência e a raiva pelo desaforo do sujeito tinham se esgotado pela população que vinha sendo explorada há muito tempo. A combinação havia sido feita dias antes na saída da missa. Vamos empanturrar esse cabra de peia de comida pesada e carregada até na pimenta malagueta e outros temperos ferozes.

Enquanto Anfrozino jogava conversa fora com os empregados do sítio, a cozinha preparava o atentado violento, temperado com muita algazarra e da certeza da vitória contra o vilão das panelas. Dessa vez ele ia tirar o choco longe das redondezas, lá para as bandas onde o vento faz a volta e se dana para o fim do mundo. Sujeito metido a besta e pensa que a boa vontade é sinal de fraqueza.

Botaram os mocotós, a buchada de bode, o picado de porco, a feijoada do domingo anterior, a dobradinha, fizeram um pirão com a gordura dos mocotós, tudo requentado no grande fogão a lenha. Suco de jenipapo misturado com sapoti, arranjaram uma cana chamada poca ói e chamaram Anfrozino ao trabalho. Botaram o bicho no meio da mesa, a propósito, para que todos pudessem servir, como haviam combinado. Não era para ele parar de comer.

O tirinete começou com uma bicada da cana feita com o resto do caxixi destinada aos porcos. Engoliu e por cima ainda estalou os beiços.

- Sirva-se seu Zino, como era chamado na intimidade.

- Primeiro o dono da casa.

- Não aqui quem primeiro se serve são os convidados especiais.

Não se fez de rogado. Tome feijoada. Antes de terminar, dona zumira encheu o prato fundo com pirão de mocotó, Berlinda ao lado, completou com uma buchada e uma concha de maxixe fervendo. Seu Bento encheu o copo da pinga malvada. Nina perguntou se ele gostava de picado e sem poder falar balançou afirmativamente com a cabeça.

- Tome um copo de suco para ajudar a descer.

 Virou de uma só golada.

Quando menos se espera, Tonhão dana duas conchas de dobradinha.

- Dobradinha só presta com farinha seu Zino – disse Zefa, e sem que o guloso pudesse decidir, atolou duas conchas feita de alumínio, em cima do feijão branco com picadinhos de miúdos de boi.

O danado já começava a mostrar a força da cozinha de Mãe Véia. O suor começava a escorrer por cima das grossas sobrancelhas e caindo nos olhos.

- Seu Zino parece que está com fastio hoje, está mastigando devagar, não está gostando do pobre almoço?

- Tá bom demais da conta, isto é que uma fartura. Casa de gente rica é assim mesmo.

Terezinha chega da cozinha trazendo um jarro e diz – fiz só para o senhor esse ponche, e encheu o copo de uma meropéia da gota serena.

Outra caieba, mais uma concha da farta mesa, e Anfrozino não abria do tempo. Trouxeram bananas anãs, danou pra dentro umas quatro. Veio uma tigela de jerimum de leite, engoliu umas três fatias e nada do homem desistir.

- Levo as sobremesas, gritou alguém lá de dentro.

Pudim de leite, bolo de milho, doce de mamão com rapadura, mel de engenho e mais uma infinidade de petiscos.  Anfrozino provava de tudo e cada um era um elogio. Encerrado a ágape. O dono da casa convidou para repousarem nas redes lá no terraço.

Como fora tudo combinado e muito bem tramado, apareceu um meninote que começou a balançar a rede do convidado. No começo dos balanços reclamou, mas o dando do moleque nem ligava. E tome balanço. Seu Zino foi ficando meio enjoado, tentava levantar a cabeça da rede para reclamar, porem a barriga cheia não permitia e a coisa foi ficando feia. Deu primeiro uma tontura, começou depois um suor frio, na pança sentiu uns tremores diferentes e querendo subir para a goela, gritou: pare seu danado. Vou vomitar. Ajudem aqui minha gente que não posso sair da rede.

Era o que todos já esperavam. Levantaram o pantagruélico para debaixo de um pé de seriguela no terreiro e o sentaram num banco velho e saíram de perto. Começou o inferno para seu Zino, cada vomitada era um urro, um berro que até os cachorros correram.

De camarote a turma se deliciava com o quadro do bobo da corte do rei de espada.

O camarada cortinava abandonado no pátio gemendo e botando bezerros enormes.

- Me acudam pelo amor de Deus. Vou morrer minha gente, tenham piedade de um ser humano que está morrendo à míngua.

O dono da casa, de cima do terraço, fazia gestos com as mãos e a cabeça para não o acudirem. Porém dona Catarina sentindo piedade, pediu que fossem socorrerem.

Sentaram o bicho numa espreguiçadeira quase nas vascas da agonia. O danado do menino que fora contratado para balançar a rede, foi chamado para trazer o abano de palha lá da cozinha e ficasse aliviando a agonia que poderia se transformar numa indigestão cavalar e até o levar à morte.

Dona Catarina gritou para trazerem rápido um copo grande de chá de losna outro de erva doce, macela e de boldo.

Empurraram de goela a dentro, copo atrás de copo até o cabra começar a arrotar, sinal de melhora. Quando se viu mais aliviado, e dando grandes arrotos, olhou para um lado e outro, encarando todos os expectadores e disse cinicamente:

- Quem já se viu servi chá sem uma bolachinha! Povo sovino e sem coração!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 10 de junho de 2024

EPAMINODAS

 

EPAMINONDAS

Já nasceu trabalhando. Ou rastejando pelo chão, pelo menos aperreava o pai quando este fazia algum trabalho em casa.

Nasceu de uma família pobre e honesta. Operários de fábrica de tecelagem. Prole grande e todos bulindo quando a idade dava para o serviço na velha fábrica na beira do Rio São Francisco.

Epaminondas cresceu nesse sistema de trabalho árduo e continuo, onde um dia de serviço não valia o suor do cabra. Era o sistema antigo da exploração da mão de obra do semianalfabeto. Das cinco da manhã as cinco da tarde. A boia do meio dia o acompanhava, fria e pouca. Dona Madalena acordava cedo para preparar os farnéis da turma e ficava até à tardinha ao pé do fogão esperando o retorno do chefe da casa e dos filhos mais crescidos para a ceia de costume.

Camisa aberta ao peito, calça arregaçada até o meio da canela; Epaminondas abria a portinha da sua bodega, que dava para uma rua importante e sentado num tamborete a beira do balcão, além de vender umas poucas bugigangas fazia trabalhos artesanais para aumentar a renda família.

Nunca parava de trabalhar. Era um incansável opífice.

As folgas eram sábado a tarde e o domingo. A tarde do sábado era arranjar sua bodega e remendar sua casa para caber cada ano mais um filho. O domingo era de Deus. Missa as cinco no convento mais próximo, vestido todo de branco e após suas devoções cumpridas. Pegava as velas de uma canoa, as tralhas de pesca e descia ao porto mais próximo para alugar uma pequena canoa e se danar rio acima a procura do peixe para dona Madalena preparar o de comer da família.

Era uma máquina! Ajudava quem podia com suas mãos fortes e sadias. Vizinho tinha problema, lá ia Epaminondas consertar, de graça. Não bebia, não fumava, não chamava nome feio, não desejava mal a ninguém. Vida decente como mandava o figurino da Igreja.

Trabalhou nesse rojão durante quase setenta anos sem um dia de folga, sem reclamar do trabalho que Deus lhe dera. Era um homem agradecido.

Mas, um dia o cabra quebra mesmo na emenda. Estourou pelas costas de tanto trabalhar, como diz o ditado popular.

Desde menino aos pés do padre, coroinha, acólito e depois pertencia as inúmeras irmandades:  as do Santíssimo Sacramento, da Misericórdia e da Santa Cruz dos Militares e quando ia a missa portava uma medalha dourada dependurada por uma faixa azul.

Tava com o lugar reservado no céu. Tinha certeza disso.

Bateu as botas e quando acordou já foi aos pés de Pedro.

Encantado de ver a iluminação etérea. Caiu de joelho de cabeça baixa, aguardava a ordem de entrar no paraíso.

- Filho – disse Pedro, tenho acompanhado todo a sua vida desde sua ida para a terra até seu glorioso retorno a casa do pai. Cumpriu toda a determinação que lhe foi dada. Parabéns.

Abriu um livro e começou a ler silenciosamente, página por página.

- Filho aqui conta toda sua luta e acho que você vai continua com toda sua experiência de trabalho incansável para o desenvolvimento aqui do céu. Já tínhamos um lugar reservado para você. Você vai trabalhar no setor onde se quebrar pedra de corisco por sua inesgotável força de vontade ao trabalho divino.

 

sábado, 18 de maio de 2024

Saudosismo

 

Saudosismo

Ainda hoje, mesmo com tanta discrepância nos valores de outrora, continuo firmemente e elegantemente (às vezes enlevado pelo vício do deus baco) romântico e boêmio. Procurando aqui e ali encontrar reminiscências que tragam do profundo âmago poético esses valores que só os espíritos evoluídos souberam produzir.

Segue aí a história do esquecido poeta sofredor, que não soube amar ou então por ser mestiço deixou fugir    sua cara metade; a Amélia, que talvez não fosse “a mulher de verdade”. Depois do leite derramado, haja choro e dor de cotovelo...

 Grijalva 18/05/2024


Se se morre de amor


Se se morre de amor! – Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n’alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve e no que vê prazer alcança!

Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d’amor arrebentar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro

Clarão, que as luzes ao morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,
D’amor igual ninguém sucumbe à perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração – abertos
Ao grande, ao belo, é ser capaz d’extremos,
D’altas virtudes, té capaz de crimes!

Compreender o infinito, a imensidade
E a natureza e Deus; gostar dos campos,
D’aves, flores, murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre!

Amar, é não saber, não ter coragem
Pra dizer que o amor que em nós sentimos;
Temer qu’olhos profanos nos devassem
O templo onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis d’lusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!

Gonçalves Dias

domingo, 21 de abril de 2024

 

Aniversário de Augusto

Filho de Alexandre Rodrigues dos Anjos e de Córdula de Carvalho Rodrigues dos Anjos, Augusto dos Anjos nasceu em 20 de abril de 1884, no antigo engenho Pau D'Arco, no município de Sapé – Paraíba. Completaria hoje 140 anos de nascimento.

Identificado como o único poeta pré-modernista brasileiro, revelava em seus poemas desesperança e angústia, opinião dos grandes intelectuais, porém no meu modesto e insignificante conhecimento do mundo da sinceridade e a simplicidade, juntamente com o filósofo Zé Cachorro, achamos que ele era o Cara!

Escolhemos para representar neste dia, um dos sonetos mais conhecidos e lidos.

 

Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de sua última quimera.

Somente a Ingratidão – esta pantera –

Foi tua companheira inseparável!

 

Acostuma-te à lama que te espera!

O homem, que, nesta terra miserável,

Mora, entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera.

 

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

 

Se alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nessa boca que te beija!

 

Grijalva e Zé

Campina Grande 20 de abril de 2024

sábado, 17 de fevereiro de 2024

SOU RICO NA PARAÍBA - BLOG DO GRIJALVA MARACAJÁ HENRIQUES CONTANDO HISTÓRIAS

 

SOU RICO NA PARAÍBA

 

Zé Cilibrina, cabra metido a namorador, ainda novo, lá pelos dezesseis anos mal vividos. Vivia às custas dos pais e de vez enquando, trabalhava pegando um bico aqui e acola no município de Jardim Ceará. Seu pai desde cedo lutava nos trabalhos dos engenhos de rapaduras que ali tinha demais.

O bicho arranjou uma namorada das bandas da rua, Cacete Armado. Lugar onde após o sol se pôr por cima das Cacimbas, o pau sempre quebrava. Tinha sempre famílias honestas e honradas morando nas vizinhanças. Mas, fama é fama. Muitas mocinhas desmanteladas tiravam onda de “Flor do meu Bairro”.

Porém, seu Marcolino e dona Juventina, batiam o pé e não aceitava aquela história de ter uma nora nascida e batizada num ambiente de tanta promiscuidade. Onde a cana, a zinebra, o vinho de jurubeba, o aluá e até a famosa gengibirra se esparramava pelos becos fecundos e infinitos, alegrando, no começo e depois vinha os acertos de contas dos desatinos relembrados.

Como podia uma moça criada nesse meio ser uma boa esposa. Não! Tinha que tirar Cilibra, como era carinhosamente chamado pelos familiares, desse abismo incomensurável.

Todas as noites, após os labores da luta improfícuas na terra mãe, ia até a bica mais próxima, se banhava na cabeça e os pés, comia um arrozinho, às vezes com pequi e se danava para a rua, a procura do seu amor.

O danado do menino tinha um medo de alma condenado, aí sua tia Jurbeli, teve uma ideia macabra.

- Pessoal, vamos preparar um medo nesse danado que nunca mais ele sai à noite.

Todos acharam uma boa ideia, por enquanto.

Seu Marcolino combinou que na volta da rua iria ficar de tocai na vereda, em baixo de uns pés de burras leiteiras, mulungus, seriguelas, dos dois lados, formando de dia uma boa sombra, mas a noite, para o medroso era temeroso passar sem se benzer e rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria para o Padim Cíço. Até diziam que ali, em tempos passados um cabra havia morrido de uma queda de burra que empancou e cismou em passar, como diz a história que animal vê alma de outro mundo.

 Seu Marcolino na hora determinada, desceu para o local assombrado, vestido por cima da roupa um lençol branco, um velho chapéu preto e ficou a escuta do filho querido.

Cilibrina depois dos arrochos na namorada, agoniado pela hora avançada, partia, meio cismado, em direção a casa velha amarela dos pais. Ao se aproximar do local fatídico, começou logo a rezar debulhando seu rosário azul e branco comprado em Juazeiro. No local onde era, diziam que antigamente existia uma velha cruz, fechava os olhos e de peito aberto, respirando forte, acelerou os passos, quando de repente, seu pai sai de trás dos troncos velhos e enrugados, fazendo um latomia dos infernos.

O cabra cai de joelhos e grita:

- Não me mate, sou rico na Paraíba e tenho um caminhão rodando no sul.

 

 

domingo, 4 de fevereiro de 2024

UM AMIGO DE INFÂNCIA

 

UM AMIGO DE INFÂNCIA

Do livro Memórias e Memórias Inacabadas de Humberto de Campos.

                NO dia seguinte ao da mudança para a nossa pequena casa dos Campos, em Parnaíba, em 1896, toda cheirando ainda a cal, a tinta e a barro fresco, ofereceu-me a natureza, ali, um amigo. Entrava eu no banheiro tosco, próximo ao poço, quando os meus olhos descobriram no chão, no interstício das pedras grosseiras que o calçavam, uma castanha de caju que acabava de rebentar, inchada, no desejo vegetal de ser árvore. Dobrado sobre si mesmo o caule parecia mais um verme, um caramujo a carregar a sua casca do que uma planta em eclosão. A castanha guardava, ainda, as duas primeiras folhas úmidas e avermelhadas, as quais eram como duas joias flexíveis que tentassem fugir do seu cofre. – Mamãe, olhe o que eu achei! – grito, contente, sustendo na concha das mãos curtas e ásperas o monstrengo que ainda sonhava com o sol e com a vida. – Planta, meu filho... Vai plantar... Planta no fundo do quintal, longe da cerca... Precipito-me, feliz, com a minha castanha viva. A trinta ou quarenta metros da casa, estaco. Faço com as mãos uma pequena cova, enterro aí o projeto de árvore, cerco-o de pedaços de tijolo e telha. Rego-o. Protejo-o contra a fome dos pintos e a irreverência das galinhas. Todas as manhãs, ao lavar o rosto, é sobre ele que tomba a água dessa ablução alegre. Acompanho com afeto a multiplicação das suas folhas tenras. Vejo-as mudar de cor, na evolução natural da clorofila. E cada uma, estirada e limpa, é como uma língua verde móbil, a agradecer-me o cuidado que lhe dispenso, o carinho que lhe voto, a água gostosa que lhe dou. O meu cajueiro sobe, desenvolve-se, prospera. Eu cresço, mas ele cresce mais rapidamente do que eu. Passado um ano, estamos do mesmo tamanho. Perfilamo-nos um junto do outro, para ver qual é mais alto. É uma árvore adolescente, elegante, graciosa. Quando eu completo doze 136 Humberto de Campos anos, ele já me sustenta nos seus primeiros galhos. Mais uns meses e vou subindo, experimentando a sua resistência. Ele se balança comigo como um gigante jovem que embalasse nos braços o seu irmão de leite. Até que, um dia, seguro da sua rijeza hercúlea, não o deixo mais. Promovo-o a mastro do meu navio, e, todas as tardes, lhe subo ao galho mais empinado onde, com o braço esquerdo cingindo o caule forte, de pé, solto, alto e sonoro, o canto melancólico da Chegança, que é, por esse tempo, a festa popular mais famosa de Parnaíba: Assobe, assobe, gajeiro, naquele tope real... Para ver se tu avistas, Otolina, Areias de Portugal! Mão direita aberta sobre os olhos como quem devassa o horizonte equóreo, mas devassando, na verdade, apenas os quintais vizinhos, as vacas do curral de Dona Páscoa e os jumentos do sr. Antônio Santeiro, eu próprio respondo, com minha voz gritada, que a ventania arrasta para longe, rasgando-a, como uma camisa de som, nas palmas dos coqueiros e nas estacas das cercas velhas, enfeitadas de melão São Caetano: Alvíssaras, meu capitão, Meu capitão-general! Que avistei terras de Espanha, Otolina, Areias de Portugal! A memória fresca e límpida reproduz, uma a uma, fielmente, todas as passagens épicas, todas as canções melancólicas e singelas da velha lenda marítima com que o majestoso mulato Benedito Guariba, uma vez por ano, à frente dos seus caboclos improvisados em marujos portugueses, alvoroça as ruas arenosas da Parnaíba. O vento forte, vindo das bandas da Amarração, dá-me a impressão de brisa do oceano largo. O meu camisão branco, de menino da roça, paneja, estalando, como uma bandeira solta. O cajueiro novo, oscilando comigo, dá-me a sensação de um mastro erguido nas ondas. E eu, sugestionado pela imaginação, via – eu via! – as vagas Memórias 137 rolando diante de mim, na curva do horizonte, onde o céu e o mar se beijam e misturam, as terras claras de Espanha, e areias de Portugal. Pouco a pouco, a noite vem descendo. Um véu de cinza envolve docemente os coqueiros dos quintais próximos. Os bezerros de Dona Páscoa berram com mais tristeza. As vacas, apartadas deles, respondem com mais saudade. Os jumentos do sr. Antônio Santeiro zurram as cinco vogais e o estribilho ipsilon marcando sonoramente as seis horas. Os do sr. Antônio de Monte, ao longe, conferem e confirmam o zurro, o focinho para o alto, olhando o milho de ouro das primeiras estrelas. E eu, gajeiro de uma nau ancorada na terra, desço, tristemente, do folhudo mastro do meu cajueiro, sonhando com o oceano alto, invejando a vida tormentosa dos marinheiros perdidos, que não tinham, pelo menos, a obrigação de estudar, à luz de um lampião de querosene, a lição do dia seguinte. Aos treze anos da minha idade, e três da sua, separamo-nos, o meu cajueiro e eu. Embarco para o Maranhão, e ele fica. Na hora, porém, de deixar a casa, vou levar-lhe o meu adeus. Abraçando-me ao seu tronco, aperto-o de encontro ao meu peito. A resina transparente e cheirosa correlhe do caule ferido. Na ponta dos ramos mais altos abotoam os primeiros cachos de flores miúdas e arroxeadas como pequeninas unhas de crianças com frio. – Adeus, meu cajueiro! Até à volta! Ele não diz nada, e eu me vou embora. Da esquina da rua, olho ainda, por cima da cerca, a sua folha mais alta, pequenino lenço verde agitado em despedida. E estou em São Luís, homem-menino, lutando pela vida, enrijando o corpo no trabalho bruto e fortalecendo a alma no sofrimento, quando recebo uma comprida lata de folha acompanhando uma carta de minha mãe: “Receberás com esta uma pequena lata de doce de caju, em calda. São os primeiros cajus do teu cajueiro. São deliciosos, e ele te manda lembranças...” há, se bem me lembro, uns versos de Kipling, em que o Oceano, o Vento e a Floresta palestram e blasfemam. E o mais desgraçado dos três é a Floresta, porque, enquanto as ondas e as rajadas percorrem terras e costas, ela, agrilhoada ao solo com as raízes das árvores, braceja, grita, esgrime com os galhos furiosos, e não pode fugir nem viajar... Recebendo a carta de minha mãe, choro, sozinho. Choro, pela delicadeza da sua ideia. 138 Humberto de Campos E choro, sobretudo, com inveja do meu cajueiro. Por que não tivera eu, também, raízes como ele, para me não afastar nunca, jamais, do quintal em que havíamos crescido juntos, da terra em que eu, ignorando que o era, havia sido feliz? Volto, porém. O meu cajueiro estende, agora, os braços, na ânsia cristã de dar sombra a tudo. A resina corre-lhe do tronco mas ele se embala, contente, à música dos mesmos ventos amigos. Os seus galhos mais baixos formam cadeiras que oferece às crianças. Tem flores para os insetos faiscantes e frutos de ouro pálido para as pipiras morenas. É um cajueiro moço e robusto. Está em toda a força e em toda a glória ingênua da sua existência vegetal. Um ano mais, e parto novamente. Outra despedida; outro adeus mais surdo, e mais triste: – Adeus, meu cajueiro! O mundo toma-me nos seus braços titânicos, arrepiados de espinhos. Diverte-se comigo como a filha do rei de Brobdingnag com a fragilidade do capitão Gulliver. O monstro maltrata-me, fere-me, tortura-me. E eu, quase morto, regresso a Parnaíba, volto a ver minha casa, e a rever o meu amigo. – Meu cajueiro, aqui estou! Mas ele não me conhece mais. Eu estou homem: ele está velho. A enfermidade cava-me o rosto, altera-me a fisionomia, modifica-me o tom da voz. Ele está imenso e escuro. Os seus galhos ultrapassam a cerca e vão dar sombra, na rua, às cabras cansadas, aos mendigos sem pouso, às galinhas sem dono... Quero abraçá-lo, e já não posso. Em torno ao seu tronco fizeram um cercado estreito. No cercado imundo, mergulhado na lama, ressona um porco... Ao perfume suave da flor, ao cheiro agreste do fruto, sucederam, em baixo, a vasa e a podridão! – Adeus, meu cajueiro! E lá me vou outra vez e para sempre, pelo mundo largo, onde hoje vivo, como ele, com os pés na lama, dando, às vezes, sombra aos porcos, mas, também, às vezes, doirado de sol lá em cima, oferecendo frutos aos pássaros e pólen ao vento, e, no milagre divino do meu sonho, sangrando resina cheirosa, com o espírito enfeitado de flores que o vento leva, e o coração, aqui dentro, cheio de mel, e todo ressoante de abelhas...

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

BLOGO DO GRIJALVA - CADERNO DO AGRICULTOR - O CAJUEIRO - Agº. JOÃO HENRIQES

 

CADERNO DO AGRICULTOR

O CAJUEIRO

Agrº. João Henriques

O cajueiro é uma das plantas mais belas e mais úteis da flora tropical. Nativo nas zonas costeiras nordestinas, propagou-se pelo interior, sobretudo levado pelos índios cariris e outras tribos que migravam pelo litoral na época das safras desse excelente fruto. Aliás, o fruto verdadeiro é a castanha.

Dentre as numerosas utilidades do cajueiro, enumeraremos as seguintes, bastante para definir o seu valor. A castanha nos dá a amêndoas, alimento dos mais ricos, produz óleo comestível e de sua casca extrai-se outro tipo de óleo de valor industrial. O caju, além de ser um fruto de excelente paladar, contendo, sobretudo alto teor de vitaminas C e sais minerais, dele se retira o suco, para o preparo da afamada cajuína, fabricação de vinhos e licores.

Da polpa fabrica-se doce apreciadíssimos. E quando não é utilizado para esse fim, é empregada como forragem ou na fertilização das terras.

A árvore serve para magnífica arborização dos campos e pátios das fazendas, presta-se para estacas vivas, produz lenha e ainda é a árvore ideal para plantio de pimenta do reino, infelizmente, tão pouco cultivada entre nós. Serve, igualmente, de arrimo nas plantações de maracujá. A resina é empregada, na roça, como sucedâneo da goma arábica. Por outro lado, é planta medicinal e, portanto, totalmente aproveitável da raiz à sobra que nos dá.

A Paraíba e o Ceará que industrializam intensamente o caju, tem realizado grandes plantações maciças, com êxito excepcional. Atualmente em Alagoas, fundou-se a primeira fábrica para aproveitamento das castanhas e, segundo estamos informados, surpreendentemente, essa nova indústria já adquiriu durante a safra que termina, mais de 700 toneladas de castanha. Aparentemente isso, deveria parecer impossível, mas aí está o grande valor de uma iniciativa.

A cooperativa da colonização de Penedo está intensificando a plantação de cajueiros, utilizando sementes selecionadas. Ali já se observam cajueiros em f formação, como início da campanha que a Cooperativa está fazendo para implantação de indústria de aproveitamento de frutas tropicais, As zonas dos municípios de Igreja Nova, São Sebastião, Junqueiro, Arapiraca e outas áreas circunvizinhas em direção norte e oeste, são excelentes para a produção de caju. Vamos, pois, intensificar a cultura dessa planta tradicional, útil e amiga.

 

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

PROMESSA É PROMESSA - GRIJALVA MARACAJÁ HENRIQUES - BLOG CONTANDO HISTÓRIAS

 

José Peregrino era um rapaz pacato, atencioso, trabalhador e bom filho. Morava num povoado chamado Carrapicho à beira de um grande rio. Porém, muito acanhada no seu desenvolvimento econômico e social, o que sempre acontece com essas cidades que são satélites de outras mais desenvolvidas.

O cara era muito estudioso e sempre sonhava em ser bancário; Banco do Brasil e Banco do Nordeste, os dois melhores empregos que existiam por aquelas bandas.

Estudava dia e noite nas Apostilas vendidas nos Correios, onde todos os anos adequaria as atualizadas, esperando os concursos dos dois bancos. Sempre era reprovado. Mas, não desistia do seu grande sonho.

Os amigos os chamavam para participara de festinhas, bate-papos no coreto da pracinha.  Achavam que o cabra era abilolado. Não tinha acordo, não tinha tempo nem para namorar. Tinha que estudar para os concursos que já estavam sendo novamente anunciado pelas rádios da região.

Seu pai artesão de cerâmica sempre contradizia essa sua mania.

- Filho. Venha me ajudar a amassar o barro e aprender uma arte honesta. Essa mania de viver com a cara metida nesses livros não vai levar a lugar algum. Precisamos aumenta a nossa produção e eu sozinho com sua mãe não estamos mais aguentando. De vez enquanto dava na veneta e participava na olaria nos serviços mais pesados, não tinha aprendido a arte dos pais. Modelagem de jarros, quartinhas, potes, comedores para aves, alguidares de todos tamanhos e mais uma infinidade utensílios tirado do barro amarelado da região. Era um dos mais procurados pelo bom acabamento.

Sempre ouvia dos colegas e da família que tivesse mais fé em Deus e nos santos. Sua mãe sempre rezava e aconselhava sobre esse assunto religioso e a importância da fé naqueles que as pessoas não veem, porém existem de verdade.

- Meu filho, tome meus conselhos vá procurar o frei Simão lá em Penedo, converse com ele, se confesse, conte seus sonhos de vida. Ele é um homem muito sábio, quase um milagreiro.

Peregrino, pegou uma lancha, atravessou o rio e foi bater na igreja Nossa Senhora da Corrente. Entrou e sentou-se num dos bancos antigos, esperando que alguém aparecesse. Certo tempo depois, aparece uma senhora vindo lá dos fundos com um espanador, limpando as imagens nos seus nichos.

- Minha senhora eu queria falar com o frei Simão, ele está?

- Está terminando suas obrigações e daqui a pouco aparece. Sente-se aí e espere.

Logo mais aparece um sujeito muito esquisito, vestindo uma batina marrom, de cavanhaque ruivo, careca de cima a baixo, uns olhos esbugalhados, alpercatas de couro, um rosário do tamanho do mundo amarrado na cintura.

- Pronto frei Simão, esse rapaz que falar com o senhor.

- Diga meu filho o que deseja?

- Minha mãe mandou que eu viesse falar com o senhor sobre como fazer uma promessa. Estou estudando para concurso dos bancos há muito tempo e ainda não consegui êxito. Aí minha mãe que sempre se confessa com o senhor e pediu que eu falasse contando meus sonhos de trabalhar em banco para ver se Deus me ajudava a passar nas provas.

-  Vá ali para o confessionário!

Peregrino continuou sua vida do mesmo jeito. Estudos, olaria e agora não perdia uma missa na igreja do Frei Simão.

 Até que enfim marcaram o dia do novo concurso. O cabra preparou-se logo cedo e partiu para a cidade vizinha onde seria realizado as provas. Mês depois saiu o resultado.

Aprovado!!!

O cabra quase endoidece de tanta alegria, saía gritando sua vitória. De casa em casa, de rua em rua. Todos davam parabéns pela vitória depois de tantas derrotas.

O tempo foi passando e as pessoas logo se esqueceram da vida de Peregrino. O homem desaparecera das ruas e da vida na vila de Carrapicho Estrelado. Todos pensavam que tinha sido nomeado para uma cidade longe, fora do Estado talvez.

Benevides, antigo amigo e as vezes crítico e metido a gaiato, um dia foi passar uma semana na capital Maceió e participar do conhecido banho de mar a fantasia, festa realizada no carnaval.

Como todo turista, Benevides, após a ressaca da festa, começou a visitar os pontos importantes da cidade. Praias, Lagoas, monumentos, prédios governamentais, suas igrejas e conventos.

Entra no Convento Sagrado Coração de Jesus, convento dos Capuchinhos, que estava completamente vazia e num silencio sepulcral. Senta-se num dos bancos e fica orando com os olhos fechados. De repente ouve passos arrastados e abre os olhos. Depara-se com um frade de batina marrom, barba fechada, cabisbaixo e agarrado num rosário enorme, debulhando as Ave-Marias e os Pais-Nossos. Ao se aproximar mais um pouco, Benevides tem um susto medonho ao ver aquela cara.

- Peregrino, é você meu amigo ou estou sonhando acordado?

O frade que estava muito compenetrado, também se assustou com a indagação. Virando-se em direção ao banco onde se encontrava Benevides disse.

- Meu velho amigo, o que o trazes aqui? Sou eu mesmo!

- Mas homem, o que está fazendo nessa batina, e o banco?

Apertaram as mãos e o frade sentou-se ao lado do amigo.

- É uma história difícil de contar. Minha mãe pediu que fosse me confessar com o frei Simão e contasse sobre minha situação nos estudos.

Ele muito gentilmente disse que era falta de fé e que eu fizesse uma promessa muito difícil de pagar para alcançar minha graça. Assim fiz!

Prometi a meu Deus, a Nossa Senhora e ao Santo Antônio de Pádua que se passasse no concurso eu iria virar frade e aí está a promessa cumprida. Promessa é promessa!

 

 

 

 

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

IDALINA CONTO DE JOÃO HENRIQUES DA SILVA


 

 IDALINA

 

Idalina era a menina mais triste da pensão de dona Marialva. Olhava para as pessoas como se estivesse com vontade de chorar. Quando lhe perguntavam o motivo, respondia invariavelmente:

- Nada, nada não!

Nunca se vira uma beleza tão triste. E por isto mesmo era Idalina a atração daquela casa de mulheres. Todos que a viam desejavam saber por que uma menina tão nova ainda e bonita como era, podia ser tão triste. Uma tristeza comovente. A tristeza passeava nos olhos de Idalina como um cisne sozinho num lago, solitário. E os frequentadores da Pensão, juraram descobrir a causa. Saía com um, saía com outro e todos procuravam entrar-lhe de alma adentro para descobrir o segredo.

- Nada não, gente. É porque sou assim mesmo. Nasci assim, com este ar de tristeza.

Para uma mariposa, aquela tristeza, infinda era inexplicável. E nem se podia compreender como se atrevera uma pessoa tão triste, vir para o ambiente das mulheres alegres. Um verdadeiro contra senso. Mas a verdade é que Idalina estava ali e era tão disputada. E também nunca se tinha visto tanta beleza nuns olhos tão tristes. E nem jamais a tristeza dera tanta sorte a uma criatura de vida livre.

Idalina passou a ser conhecida pela menina dos olhos tristes. Todas as outras mulheres foram se enchendo de ciúmes por Idalina. Porque aquela preferência, que chegava ao ponto de esperarem que ela saísse de seu apartamento para voltar a ele logo em seguida ainda cheirando a outro? Que filtro possuía Idalina, que jeito ela dava no corpo para ser assim tão requisitada, bonita ela era, nova também, mas outras possuíam os mesmos encantos. Havia de desvendar o milagre de tanta sorte na prostituição.

Pois não era, Idalina se enchia de dinheiro, depositando as sobras na Caixa Econômica, quando muitas havia, que mal conseguiam para as despesas obrigatórias. E, além disso, não passava de uma menina triste, recolhida dentro de si mesma, como se não houvesse e nem quisesse amar.

Enquanto as demais se enfeitavam, perfumavam, e procurava exibir a máxima sensualidade, Idalina permanecia no seu cantinho com a timidez de uma virgem. Outras mulheres procuravam imitar os seus hábitos, mas sem resultado. É que nenhuma possuía aqueles olhos lindos e tristes que lhe davam uma expressão irresistível. Quem, por acaso já vira olhos mais belos e atraentes num rosto de mulher. E as companheiras chegavam a ter a impressão que Idalina deveria ser um demônio na cama. Só podia ser para enfeitiçar a todos. A inveja crescia e não adiantava procurar recanta-la.

A procura era a mesma. Sempre aquele – Vamos Idalina. E ela levantava-se com um sorriso feiticeiro e vitorioso.

No ato comportava-se como se fosse sempre a primeira vez. E como não descobriam o mistério daquela procura ansiosa, as companheiras resolveram aproximar-se de Idalina na intenção de alguma revelação daquele intrincado mistério nos seus amores.

- Não meninas, não tenho nada demais e nem faço nada de especial. Eu é que não sei por que sou tão assediada. Mas essa fase passa. Perguntem aos que me procuram. Vocês sabem que sou uma criatura triste, sem graça na vida. Aquele risinho que desprendo quando vou com alguém, é uma pura formalidade. Também seria impossível receber os amigos com secura total. Eles me pagam bem e tenho que me comportar como uma verdadeira amante. Se sou boa no quarto, só eles sabem. Cada uma usa os artifícios que podem e sabem. Um relacionamento, embora sem nenhum prazer, tem que ser agradável aos companheiros. Disso vocês sabem muito mais do que eu, uma quase estreante na arte de enganar os homens. Chego às vezes até a chorar, fingindo um prazer imenso e diabólico. Estou lhes confessando essas bobagens porque estarei pouco tempo mais nesta profissão miserável e suja. Já possuo economias para dedicar-me a outras coisas menos sórdidas. Por que tenho tido também sorte, não sei. E quero deixar de ser mulher de todo mundo antes que a sorte me abandone.

- E com tanta sorte, porque tens esse aspecto permanente de tristeza. Sempre fostes assim, ou isto é coisa calculada. Não há dúvida de que esses teus olhos tristes são encantadores, aliás, uma coisa estranha.

- E o que pretendes fazer. Largar tanta sorte por uma aventura qualquer.

- Nada disto. Não era triste assim. A tristeza veio depois. Esperem mais um pouco e contarei tudo. Quando eu estiver com as malas prontas e o dinheiro economizado na bolsa. Quando tiver a felicidade de pisar pela última vez os batentes de uma pensão de mulheres e não ter que ir para a cama com um desconhecido, fingir amor. Estou chegando ao fim do meu plano. Ninguém é triste porque quer. A tristeza entra nos olhos da gente como um ladrão, força a porta de um apartamento. Entra, leva tudo e deixa a casa vazia. Pois é. Entraram em minha vida e me esvaziaram. Só sobrou apenas esta mulher triste que conhecem. Pensei em suicídio até, mas a morte nada resolve. Morrer é covardia, medo de enfrentar a vida, mergulhar no nada. Ser enterrado numa cova fria e ali apodrecer como um fruto já bichado. Seria uma forma de fuga, mas uma fuga inútil e estúpida. Preferi enfrentar o mundo como ele é. E tive que tomar esta direção, talvez o pior, ou quem sabe, o que o destino ingrato me reservava para me pôr à prova. Descer até o último degrau da degradação humana, vender minhas emoções, o meu corpo, como se vende uma mercadoria deteriorada e esperando quem o queira a qualquer preço, sem ajuste, esperando pela generosidade do comprador. E o pior é que é uma mercadoria que muitas vezes se entrega com repugnância, com nojo do comprador, mas procurando agradá-lo sempre.

Como mulher de pensão, tenho sido feliz na infelicidade da profissão. Posso imaginar a amargura de algumas mulheres que além de tudo, ainda não tem sorte pelo menos para ter o suficiente às suas necessidades primárias. Criaturas que vão envelhecendo sem um níquel amealhado e na perspectiva de se apresentarem como mendigas ou simples piniqueiras em uma pensão qualquer de mulheres. Chega-se, assim, a estrema degradação social. Ser puta e nem mais isto poder ser, por que ninguém as quer mais.

Estou preste a abandonar esta profissão infame. Irei voltar para minha família, da qual me afastei para não a envergonhar. E não culpo ninguém por este acidente na minha vida.  Casei-me contra a vontade de todos. Casei fugida. Nasceu uma menina a mais linda criatura que já vi. Meu marido tornou-se estúpido e violento. Fugi dele. Agora sei que ele morreu de um colapso cardíaco. Procurava-me para vingar-se. Havia de liquidar comigo. E o fantasma da morte, me apavorava. Escondida aqui, mesmo assim tinha medo. E até antes de morrer, jurava acabar com minha vida.

Era odiento e irresponsável. Minha filha eu a deixei com minha mãe, onde ainda está. Se tivesse ouvido os conselhos de minha família, os seus apelos, suas advertências, não seria a Idalina que sou, esta moça triste que vocês conhecem, vivendo da prostituição, coisa que nem chega a ser uma profissão e se fosse seria a mais desclassificada de todas. Tenho hoje, no meu corpo marca abjeta de todos esses homens que me levaram a saciar os seus desejos. Marcas que não se desfarão nunca. Jamais senti prazer com nenhum deles. O bem querer que fingia cada vez que me procuravam, era uma nova ferida que não cicatrizava. Era apenas uma espécie de deposito onde se despeja liquido sujo dos prazeres dos outros.

Eu seria a Berenice dos anjos, aquela moça criada com mimo, de alma limpa e coração puro. Minha família, no meu entender, não sabia o que era o amor. E eu amava, inocentemente, um animal indomável e coiceiro. A estupidez chegava às raias da monstruosidade. Cada gesto era uma patada, cada palavra um coice. Fugi numa de suas ausências. Deixei as escondidas minha filhinha e uma carta à porta da casa de meus pais. E deixei uma amiga para me informar dos acontecimentos.

Enfim chegou o dia da sua liberdade daquele antro pernicioso.

- Vou despedir-me de todas vocês. Sejam felizes e que tenha um futuro venturoso.

Partiu de verdade. Ganhou o oco do mundo, para um lugar mais perto dos seus, até tomar chegada de novo.

A turma da pensão, logo depois recebeu uma carta da colega que agora era uma borboleta livre.

- Meu ex-marido morreu. Mesmo assim, talvez ainda me ande procurando para uma vingança. Mas estou aliviada e sem medo. Aquela minha tristeza era saudade de minha filha e medo de ser surpreendida a qualquer momento. Tudo poderia acontecer. Agora estou livre e não esta mulher de vida livre que vocês conheceram, mas, livre para abraçar e beijar minha filha, meus pais e manos. Nunca terão de saber que me prostitui. Antes de encontrá-los, vou me confessar para expurgar-me. Em casa serei uma ex-empregada doméstica. Mentir para não dar mais desgosto à família. Se souberem que levava esta vida miserável, nem me receberiam. E há quanto tempo não tem notícias minhas. Eu tenho deles. E pelo que sei, nem têm coragem de perguntar por mim.

E quando, por acaso falam, apenas uns olham para os outros em silêncio. Sinal de desapontamento e tristeza. Mas vou chegar lá com esses meus olhos tristes, e que tanto sofreram. Não irei fazer surpresa. Já escrevi para casa. Meu ex-marido não me faz mais medo, pois não tenho medo de alma do outro mundo. Paguei caro minha desobediência. Quem não ouve pai e mãe, sempre se dá mal. Eu estava cega, mas não estava mouca.

Quero um abraço de todas vocês. Perdoem-me e sejam felizes. Deixem esta vida suja quando puder. Creio que não nos veremos mais.

Adeus,

Berenice.

 

Obs.

O ácido caprílico é o nome usual dado ao ácido graxo de cadeia normal aberta homogênea formada por oito carbonos, também conhecido como ácido octanóico. É encontrado em sua forma natural nos coqueiros e no leite materno. Consiste num líquido oleoso, de gosto desagradável e rançoso, e que é pouco solúvel em água.

G.M.H

 

 

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

COMUNICAÇÃO

 

Bulindo nos meus alfarrábios, agora a noite, encontrei essa beleza de página dentro de um dos livros velhos e cansados, de tanto ser indagado pelos energúmenos como eu.

Recebi de Jaqueline, uma sobrinha psicóloga, moradora das terras dos marechais.  Ri e ainda hoje quando li, cai na risada sem poder parar. Por isso estou danando aqui no meu pobre Blog, para que vocês também se divirtam com essa pequena pesquisa feita pela Consultoria & Treinamento.

Nas vésperas da chegada do Papa, numa determinada empresa, o Presidente falou para os diretores.

- Amanhã dispensaremos o pessoal que quiser ver o Papa e compensaremos no próximo sábado.

Aí começou a confusão.

- Amanhã dispensaremos o pessoal que quiser ver o papa e compensaremos no próximo sábado – disse um dos Diretores para o chefe de Pessoal.

- Amanhã dispensaremos o pessoal do Papa e conversaremos no próximo sábado – falou o chefe de Pessoal para os Gerentes.

- Amanhã será dispensado o pessoal do Papa e a gente só no próximo sábado – disse um dos gerentes para o chefe de Seção.

- Amanhã será dispensado o pessoal a tapa e os que mentem só no próximo sábado – disse um dos chefes de Seção aos auxiliares.

 E um auxiliar para o continuo.

- Amanhã todo mundo sairá daqui debaixo de tapa. Ordem é ordem.

 

Relações Interpessoais

Cícera Nascimento

Facilitadora

(Ocorreu antes da visita do Papa a Maceió tempos atrás)

Grijalva Maracajá Henriques

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 1 de outubro de 2023

DOMÉSTICA HUMILHADA

 

Doméstica humilhada

 

Lindalva, moça pobre, nascida numa pequeno arruado na beira do Rio são Francisco, hora e meia de lancha, rio acima, da cidade de Penedo nas Alagoas, queria ser gente, como se costuma dizer por aí. Vivia procurando aprender de um tudo. Recebia revisas, usadas de uma amiga que trazia da casa onde trabalhava. Capricho, Amiga, Contigo, Cinelândia, Sétimo Céu, Gente, Revistas do radio e tantas outras que aparecesse.  Pretendia ser uma moça da moda, atualizada, para quando fosse morar na rua, não passar vergonha.

Filha de pais exigentes e honestos. Criaram a filha como muito carinho e dedicação. Esperava que quando saísse da idade da boneca, arranjasse um bom casamento e desse prosseguimento ao mesmo ritmo de vida deles. Trabalhar em casa. Ser boa esposa e boa mãe.

Seu Berereu sempre dizia; - Minha filha, quero que você nos dê muitos netos, encha essa casa e nossa vidas com muitas alegrias.

Porém, Lindalva queria outra vida, cidade onde visse muita gente e conhecesse de tudo.

Pediu a Lurdinha que achasse um emprego para ela em Penedo, fosse de qualquer coisa, claro, mas que fosse honesto.

Num belo domingo recebeu a visita da amiga. Tinha certeza que trazia boas notícias.

- Nem te conto. Achei um lugar para trabalhar em casa de família. De um doutor, gente fina e rica. Acho que vai gostar do povo. Será que teu pai vai consentir? Acho muito difícil.

- Nega, vou inventar que quero estudar para ser professora, pois morando aqui não tenho como ir para a escola e trabalhando de dia a noite posso frequentar as aulas.

A peleja foi grande, dentro de casa, para convencer a família da nova vida que desejava viver na cidade.

Dia marcado para assumir o emprego desceu o rio na lancha Tupy que já vinha das bandas de Propriá. Lotada de beiradeiros que traziam suas mercadorias para vender na feira em Penedo. Esteiras feitas de taboa, bolsas de Ouricuri chamadas bocapiu, um bolo de nome má-casada, camarão saburica, pilombetas e rabo de jacaré salgadas, peças de barros da vila de carrapicho, frutas diversas e outros produtos da labuta desses comedores de farinha azeda.

De papel na mão com o endereço, Lindalva danou-se de ladeira acima a procura do Barro Duro, onde residia o tal do doutor.

Esse senhor de nome Alberto Siqueira Matos da Costa, era uma figura, como posso dizer: “subjetivamente classificado como mensoclítico, estrombólica, realpis, retombante, mediovagio, caviocárica, batráquio e estrogonoficamente sensível”. Repetindo ipsis litteris as palavras de um grande candidato a vereador da redondeza. No entanto não era doutor em nada, apenas um bom contador que saíra de uma vida simples e galgara uma posição social invejável. Subiu na vida levando também uma grande quantidade de arrogância, prepotência, bazófia, jactância, pedantismo e muita presunção. Os que não tinham muita aproximação com essa figura, os chamavam de Dr. Tolete. Era essa pessoa que a pobre da Lindalva ia trabalhar. Que Deus a protegesse!

Na casa da rua Getúlio Vargas, no número duzentos e vinte e três, Lindalva parou e receosamente bateu palmas. Uma, duas, três e quando ia mais uma vez chamar, uma voz lá de dentro gritou – Já vai!

Abriu-se a porta e apareceu uma moça muito elegante – parecida com aquelas das revistas que lia sempre.

- Pois não! O que deseja?

- Sou a moça que vem trabalhar aqui. Foi Lurdinha que trabalha aqui perto quem me mandou.

- Ah sim! Entre.

Ali começava o tirinete na vida da pobre moça. Humilhada, espezinhada, cobrada por tudo que existisse de errado na casa. Dormia pior do quer a Gata Borralheira, folga só uma vez no mês. A comida fornecida era a sobra da mesa. Contudo aguentava calada e obediente, não queria voltar com o rabo debaixo das pernas para casa. Esse martírio já tinha mais de seis meses e ela relutante sempre de cabeça baixa seguia seu destino, talvez sua vida se transformasse como nas revistas de novelas de repente.  Como nos contos onde um pretendente rico se enamorava de uma moça pobre.

Antônio Calazans, amigo, intimo e frequentador da mansão do dr. Matos, - era assim que queria que o chamasse. Um dia bebericando vinhos finos a beira da piscina, comentou cautelosamente com o amigo.

- Matos, essa moça que trabalha para vocês é muito prestativa, atenciosa, faz todos os seus mandados sem reclamar e sem se cansar. Acho que merecia um tratamento melhor de vocês. Só tratam com nomes pejorativos, gritando, xingando por qualquer demora no atendimento. Um dia ela não aguenta e vai embora e como se ver, está difícil arranjar outra assim com tempo integral.

Bebida vai e bebida vem, já meios amolengados pelo vício deixado por Baco, Dona Claudinete entrou na conversa e disse:

- É Calazans, você tem muita razão e eu já tenho conversando com Matos sobre isso. Ficar só tomando conta da casa eu não fico se ela for embora.
As outras nunca passaram mais de uma semana. O homem é muito abusado com as meninas.

Numa tomada inesperada e alcoolizada do patrão, resolveu mudar de ideia e acatar o pedido do amigo.

- Tá bom. Já que todo mundo está contra mim, vou aquiescer dessa vez. Chame Lindalva para a gente conversar sobre esse assunto. Empregado é empregado.

- Lindalva se aproxima dos patrões, já temendo mais uma enxurrada de nomes e pedidos urgentes.

- Minha jovem queria conversar com você diante dessas pessoas e que sejam também testemunhas. De agora em diante a gente vai manter um tratamento melhor com você. Acho que fui mesmo muito exigente, você sabe, chego do escritório aperreado com muitos problemas para resolver. Minha enxaqueca não me abandona nunca. Não paro de trabalhar. É um corre, corre, medonho. Queria lhe pedir desculpas e prometer que de agora em diante nunca mais vou lhe tratar com desdém. Você tem sido uma ótima companheira paras minha esposa, tomas conta da casa melhor do que todas as outras, por isso juro diante de todos que mudarei definitivamente meus abusos com você.

- Doutor Matos, reconheço tudo isso, sou uma pessoa necessitada. Saí do mato para vir estudar aqui em Penedo e como todo mundo saber que a vida não é fácil para se vencer. Jamais desistiria, mesmo sofrendo toda essa humilhação pelo senhor. Dona Claudinete sempre foi atenciosa comigo. Não chateava em nada. Tinha que resistir até onde meus nervos aguentasse e não endoidasse.

Queria também pedir desculpas ao senhor e jurar que nunca mais cuspirei e nem escarrarei dentro do copo da sua água de beber. Era um modo de me vingar do senhor. Não fazia por ruindade não, era apenas um modo de descontar.

 

Campina Grande 01 de outubro de 2023

Grijalva

 

 

 

 

domingo, 24 de setembro de 2023

 

Dia desse me lembrei do Bar do Relógio, lá da minha segunda “pátria”, Maceió. Que saudades!

Me lembrei porque li uma mensagem sobre a mulher; quando o marido chegava em casa e como devia prestigiar a querida esposa, depois de um dia e uma meia noite, no trabalho e na boemia.

Eu, Aldemaro Calheiros e Alfredinho, como de costume, de vez enquanto, com exceção do sábado e do domingo que era destinado aos fazeres compromissais das namoradas. Praias, cinemas e visitas aos parentes das pretendida para ver se éramos aprovados.

Eu e Alfredinho trabalhávamos, o Aldemaro, naquela época, falava sobre Cavalhadas, das suas vitórias e ensinado os bons manejos. Porém ao término do sol poente e fim do expediente cada qual tomava seu rumo. Eu assistia uma aula na Escola de Comércio de Maceió e apressadamente descia para o bairro do Poço atrás de uma morena bonita e bem feita, filha de um plantador e fornecedor de cana de açúcar, metido a rico e Semianalfabeto Tinha até piano na grande sala da frente. Foi aí que conheci o tal de Waldick Soriano que para deleite de todos cantou e tocou no danado do piano, que eu pensava que era só para enfeitar.

Aldemaro seguia atrás das suas paqueras. Alfredinho ficava por perto da Praça dos Martírios onde tinha um caso com uma das diversas namoradas.

Onze horas! Houvesse o que houvesse, os três periclitantes lisos e metidos a boêmios, largávamos tudo e seguíamos para o bar do relógio.

Local definido não sei por quem; ideal para o fim das noitadas dos notívagos e avulsos, prófugos, estroinas, temulentos e muitos mais eteceteras. Não sei em qual me enquadro.

A cachaça cantava por todos os lados. Violão, poesias, filosofias descritas por intelectuais já calibrados, dor de cotovelo. Era uma torre de babel da peste. Porém todo mundo se entendia. Ninguém saia de tomar umas, mesmo sem dinheiro. Ainda me lembro de um desses intelectuais que trazia o tira gosto de cenoura dentro do bolso do paletó.

O bar do relógio ficava na descida para a praia da Avenida, de lá se sentia o cheiro bom das águas espumantes do oceano atlântico como também erámos obrigado a ouvir a rádio Gazeta de Alagoas que por sinal era que determinava a hora do fechamento. Nos dozes badalares, o locutor danava Édith Piaf cantando Mea Culpa. Escutávamos empolgados e quando findava essa inesquecível música, o bicho do apresentador dizia:

- Vamos encerar nossa programação ao final dessa música, porém quando chegarem em casa dê um beijo no cachorro e um chute na mulher.

 Pronto estava encerrado a fase daquele saudoso encontro. Então fazíamos as contas para ver se dava para comer alguma coisa com mais sustança a caminho dos cabarés no velho Jaraguá. Era uma verdadeira festa aquela rua. Cheia de gente, boates em todos recatos; nas calçadas vendedores de tira-gosto, pipocas, e toda sorte de troço que a noite exigia; raparigas de segunda classe, bêbados e o diabo a quatro. As luzes cintilavam como chama para a orgia nas boates: Alhambra, Night and Day, Tabariz, São Jorge, as que me lembro. Marcávamos presença conversamos miolo de pote e subíamos em direção ao farol onde nos recolhíamos cansados, mas satisfeitos.