CAVALOCÍPEDE
Anfrozino
era um cavalocípede, como chamava meu pai aquelas pessoas desregradas,
animalescas nas refeições, completamente analfabetas na moral, estúpidos no
raciocínio e por aí vai essa classificação...
O cara
era metido a enxerido e a frequentar as casas sem ser convidado. Todos os
domingos o bicho maquinava a casa de uma vítima para filar o almoço do domingo
e as boas sobremesas como era costume nas boas famílias.
A
cidade de Bela Vista, situada num recanto desguarnecido de estradas “reais”; as
pessoas tinham ainda o costume de receber as visitas com uma boa recepção, seja
quem fosse.
Povo
esmerado na educação, nos costumes de antanho, famílias esmeradamente
católicas. Povo bom e honesto, as vezes fácil de ser lubridiado, pois
acreditava plenamente nas pessoas, pela primeira vez e principalmente nas suas
as aparências e os bonitos palavreados.
Anfrozino
se aproveitava disso e metia o garfo nos banquetes ao domingo ou dias santos. A
casa na rua ou nos sítios já estavam escalonadas. Sempre dava um espaço grande de
tempo entre uma e outra. Com isso esperava que a turma esquecesse da sua
incomoda visita.
Sua
próxima vítima seria a fazenda do seu Zeferino. Esperou o vendedor de leite da
fazenda e avisou. Diga ao coronel que domingo chego por lá.
Domingo
amanheceu com o céu lindo, sol manso, nuvens passageiras azuladas com fiapos
brancos que pareciam cumulus. Antes de pôr os pés fora de casa, tinha o cuidado
de olhar o céu em direção a sua vítima e ver qual vestimenta e acessórios teria
que levar.
Nesse
dia, achava que Deus estava do seu lado. Havia dormido muito bem, acordado tranquilamente
e com uma fome de lascar. Arrumou-se e danou-se de mundo a fora com um cigarro
no bico. Não sabia que a paciência e a raiva pelo desaforo do sujeito tinham se
esgotado pela população que vinha sendo explorada há muito tempo. A combinação
havia sido feita dias antes na saída da missa. Vamos empanturrar esse cabra de
peia de comida pesada e carregada até na pimenta malagueta e outros temperos
ferozes.
Enquanto
Anfrozino jogava conversa fora com os empregados do sítio, a cozinha preparava
o atentado violento, temperado com muita algazarra e da certeza da vitória contra
o vilão das panelas. Dessa vez ele ia tirar o choco longe das redondezas, lá para
as bandas onde o vento faz a volta e se dana para o fim do mundo. Sujeito
metido a besta e pensa que a boa vontade é sinal de fraqueza.
Botaram
os mocotós, a buchada de bode, o picado de porco, a feijoada do domingo
anterior, a dobradinha, fizeram um pirão com a gordura dos mocotós, tudo
requentado no grande fogão a lenha. Suco de jenipapo misturado com sapoti,
arranjaram uma cana chamada poca ói e chamaram Anfrozino ao trabalho. Botaram o
bicho no meio da mesa, a propósito, para que todos pudessem servir, como haviam
combinado. Não era para ele parar de comer.
O
tirinete começou com uma bicada da cana feita com o resto do caxixi destinada
aos porcos. Engoliu e por cima ainda estalou os beiços.
-
Sirva-se seu Zino, como era chamado na intimidade.
-
Primeiro o dono da casa.
- Não
aqui quem primeiro se serve são os convidados especiais.
Não se
fez de rogado. Tome feijoada. Antes de terminar, dona zumira encheu o prato
fundo com pirão de mocotó, Berlinda ao lado, completou com uma buchada e uma
concha de maxixe fervendo. Seu Bento encheu o copo da pinga malvada. Nina
perguntou se ele gostava de picado e sem poder falar balançou afirmativamente
com a cabeça.
- Tome
um copo de suco para ajudar a descer.
Virou de uma só golada.
Quando
menos se espera, Tonhão dana duas conchas de dobradinha.
-
Dobradinha só presta com farinha seu Zino – disse Zefa, e sem que o
guloso pudesse decidir, atolou duas conchas feita de alumínio, em cima do
feijão branco com picadinhos de miúdos de boi.
O danado já começava a mostrar a força da cozinha de
Mãe Véia. O suor começava a escorrer por cima das grossas sobrancelhas e caindo
nos olhos.
- Seu Zino parece que está com fastio hoje, está
mastigando devagar, não está gostando do pobre almoço?
- Tá bom demais da conta, isto é que uma fartura. Casa
de gente rica é assim mesmo.
Terezinha chega da cozinha trazendo um jarro e diz –
fiz só para o senhor esse ponche, e encheu o copo de uma meropéia da gota
serena.
Outra caieba, mais uma concha da farta mesa, e
Anfrozino não abria do tempo. Trouxeram bananas anãs, danou pra dentro umas
quatro. Veio uma tigela de jerimum de leite, engoliu umas três fatias e nada do
homem desistir.
- Levo as sobremesas, gritou alguém lá de dentro.
Pudim de leite, bolo de milho, doce de mamão com
rapadura, mel de engenho e mais uma infinidade de petiscos. Anfrozino provava de tudo e cada um era um
elogio. Encerrado a ágape. O dono da casa convidou para repousarem nas redes lá
no terraço.
Como fora tudo combinado e muito bem tramado, apareceu
um meninote que começou a balançar a rede do convidado. No começo dos balanços
reclamou, mas o dando do moleque nem ligava. E tome balanço. Seu Zino foi
ficando meio enjoado, tentava levantar a cabeça da rede para reclamar, porem a
barriga cheia não permitia e a coisa foi ficando feia. Deu primeiro uma
tontura, começou depois um suor frio, na pança sentiu uns tremores diferentes e
querendo subir para a goela, gritou: pare seu danado. Vou vomitar. Ajudem aqui
minha gente que não posso sair da rede.
Era o que todos já esperavam. Levantaram o
pantagruélico para debaixo de um pé de seriguela no terreiro e o sentaram num
banco velho e saíram de perto. Começou o inferno para seu Zino, cada vomitada
era um urro, um berro que até os cachorros correram.
De camarote a turma se deliciava com o quadro do bobo
da corte do rei de espada.
O camarada cortinava abandonado no pátio gemendo e
botando bezerros enormes.
- Me acudam pelo amor de Deus. Vou morrer minha gente,
tenham piedade de um ser humano que está morrendo à míngua.
O dono da casa, de cima do terraço, fazia gestos com
as mãos e a cabeça para não o acudirem. Porém dona Catarina sentindo piedade,
pediu que fossem socorrerem.
Sentaram o bicho numa espreguiçadeira quase nas vascas
da agonia. O danado do menino que fora contratado para balançar a rede, foi
chamado para trazer o abano de palha lá da cozinha e ficasse aliviando a agonia
que poderia se transformar numa indigestão cavalar e até o levar à morte.
Dona Catarina gritou para trazerem rápido um copo
grande de chá de losna outro de erva doce, macela e de boldo.
Empurraram de goela a dentro, copo atrás de copo até o
cabra começar a arrotar, sinal de melhora. Quando se viu mais aliviado, e dando
grandes arrotos, olhou para um lado e outro, encarando todos os expectadores e
disse cinicamente:
- Quem já se viu servi chá sem uma bolachinha! Povo
sovino e sem coração!