domingo, 11 de janeiro de 2026

O SANTO

 

O Santo! 

Antônio Silvino, considerado por muitos o primeiro rei do cangaço, atravessou as terras paraibanas de maneira constante, deixando pelo caminho um rastro de medo e insegurança. Por onde passava, o ambiente se transformava. A Paraíba que ele percorreu tornou-se um território instável, onde sua ânsia pelo saque crescia sem freios. Na prática, vivia-se ali um verdadeiro reino de terror, onde a única lei reconhecida era a do punhal e do bacamarte. Bastava alguém ouvir o nome Antônio Silvino para que o coração apertasse. Homens e mulheres de bem sentiam medo, angústia e apreensão. A Sombra da Morte, o Rifle de Ouro, o Terror do Sertão conhecia bem esse sentimento e sabia explorá-lo como poucos. Usava o pavor como ferramenta e, assim, conseguia sem esforço realizar suas chamadas “coletas”, receber “doações” e até obter “empréstimos”, tudo sem resistência. Na realidade, essas coletas, doações e empréstimos nada mais eram do que roubos e extorsões praticados de forma descarada, mas envoltos em um discurso quase cínico. Silvino ainda fazia questão de afirmar que não agia por gosto, mas por necessidade, alegando que o governo não lhe permitia trabalhar. Um argumento que, repetido tantas vezes, acabou encontrando eco em parte da sociedade. O mais impressionante é que esse mesmo homem, responsável por espalhar medo e violência, foi alçado por cordelistas e por setores da imprensa à condição de herói, chegando até a ser tratado como uma espécie de chefe de Estado. E, de certo modo, era mesmo: um rei, sim, mas soberano de um reino construído à base do terror. Um exemplo emblemático foi o ocorrido no povoado de São Vicente Ferrer, em Pernambuco. Ali, Antônio Silvino foi recebido com banda de música, festas e honrarias oferecidas pelos poderosos locais. Curiosamente, pouco tempo antes, o bispo de Olinda, autoridade máxima da Igreja na região, à qual o povoado pertencia, então chamado apenas de São Vicente, havia passado por ali sem receber nem de longe o mesmo tratamento. A pompa reservada ao cangaceiro dizia muito sobre o poder que ele exercia. Cenas como essa se repetiram em diversos outros pontos dos quatro estados por onde Antônio Silvino mais andou. E, para encerrar este relato, não se pode deixar de mencionar suas famosas macacas. Uma delas era conhecida como “560”, feita de couro cru, com nós nas pontas. Silvino, rindo, dizia que servia para “dar banho em gente ruim”. A outra, mais elaborada, bem trabalhada em couro e enfeitada com fitas coloridas, era usada para “enrolar gente boa”. No fim das contas, a verdade era uma só: todo mundo apanhava, fosse bom ou ruim. E ainda há a curiosa história da famosa macaca batizada de Rosa e Silva, uma homenagem ao senador pelo estado de Pernambuco Francisco de Assis Rosa e Silva. Não me perguntem agora qual foi o motivo dessa escolha, pois talvez nem o próprio Silvino soubesse explicar direito. Como dizia o eterno Tom Jobim: O Brasil não é para amadores! 

Até o próximo texto sobre Antônio Silvino. 

Autor: Julierme do Nascimento Wanderley

CRIANÇAS X PETS

 

CRIANÇAS X PETS



Até que enfim achei alguém que tem o mesmo pensamento sobre o assunto, igual ao meu. Vivo pelo meio do mundo, proclamando a desvalorização do ser humano em detrimento aos animais de estimação.       

            Movimento de proteção aos animais sensibilizam muitos segmentos da sociedade, no entanto, incontáveis pessoas permanecem indiferentes a milhões de crianças, anciãos e enfermos que morrem de fome cada ano, não por falta de alimento que o planeta fornece, mas por ausência total de compaixão e de solidariedade.

 Extraído do livro Transição Planetária de Manoel Fhilomeno de Miranda (espírito) e psicografado por Divaldo Franco.

            Vamos ver outras opiniões sobre esse triste tema.

            Visão geral criada por IA

            A tendência de preferir animais de estimação em vez de crianças é um fenômeno global, com jovens adultos optando por pets devido à busca por liberdade, estabilidade financeira e a sensação de companhia sem as grandes responsabilidades da parentalidade humana, transformando-os em "filhos de estimação", enquanto estudos sugerem que, para alguns, os pets podem ser um "passo prévio" para a paternidade, avaliando a capacidade de cuidar.

            Por Que Essa Tendência Acontece?

             Sociais e Econômicas: Menor pressão social para casar e ter filhos, preocupações econômicas e busca por flexibilidade na carreira.

            Benefícios Emocionais: Pets proporcionam companhia, amor incondicional e reduzem estresse, liberando ocitocina e melhorando o bem-estar, sem as demandas de um filho humano.

            Humanização dos Pets: Animais são cada vez mais vistos como membros da família, recebendo cuidados e mimos semelhantes aos de crianças, com produtos e serviços pet-friendly crescendo no mercado. "Filhos de Estimação" ou "Filhos de Prática"?

            Maternidade Não Convencional: Mulheres e casais veem os pets como uma forma de exercer o instinto de cuidar, como a veterinária Raiane Mantovani.

            Teste para a Paternidade: Um estudo sugere que cuidar de um cão pode ser um "efeito filho de prática", onde a experiência positiva aumenta a confiança para ter filhos humanos.

             Diferente: Pets oferecem um amor constante e uma presença que, para alguns, é mais duradoura que a de filhos que crescem e saem de casa, diz UOL Notícias.

Implicações Sociais

            Famílias Multiespécies: Casais com dupla renda (DINKWAD - Double Income, No Kids, With a Dog) adotam cães como foco central da família, sendo uma realidade crescente em cidades como Tóquio, Milão e Los Angeles, e também no Brasil e Argentina, observa Globo.

            Aumento da População Pet: O Brasil tem uma das maiores populações de pets do mundo, superando a população de crianças pequenas, e com uma demanda por produtos e serviços cada vez maior, segundo o UOL Notícias.

            Em Resumo: A escolha por pets em vez de filhos reflete uma mudança cultural, onde animais preenchem o papel de companheiros e "filhos", oferecendo afeto e satisfazendo a necessidade de cuidar, embora alguns estudos sugiram que essa experiência possa, paradoxalmente, preparar para a paternidade humana, segundo a Terra.

            Os animais de estimação estão substituindo os filhos? Um estudo sugere justamente o contrário

            Não é renúncia, é espera: o animal de estimação é sintoma de uma estabilidade econômica que não chega

            Recentemente, a onda de cachorros transportados em carrinhos de bebê tomou conta de espaços públicos, como shoppings e parques. Essa imagem se tornou símbolo de algo mais profundo: a sensação de que, em sociedades envelhecidas, os animais de estimação estão ocupando um lugar que antes pertencia aos filhos.

            Mas e se essa leitura estiver incompleta — ou diretamente errada? E se, longe de substituir os filhos, os pets estiverem desempenhando outro papel na vida familiar? Um novo estudo acadêmico põe em dúvida uma crença amplamente difundida.

            Para começar, os números ajudam a entender por que essa suspeita se instalou no debate público. Na Espanha, segundo a Rede Espanhola de Identificação de Animais de Companhia (REIAC), em 2023, havia mais de dez milhões de cães registrados, contra menos de dois milhões de crianças de 0 a 4 anos. Uma diferença tão grande que convida, quase automaticamente, a pensar em uma substituição dentro dos lares.

            Cenas que chegam de fora reforçam essa impressão. A Coreia do Sul cruzou um limiar simbólico: já se vendem mais carrinhos para cães do que para bebês. Não é exagero, é o reflexo estatístico de um país em emergência demográfica. A tendência pegou tanto que até a fé se adaptou. Em templos japoneses como o de Ichigaya Kamegaoka, o ritual milenar do Shichi-Go-San — antes exclusivo para crianças — passou a se encher de focinhos e coleiras. Na falta de crianças, os santuários abençoam animais de estimação para evitar que suas liturgias fiquem sem protagonistas.

            O Japão está ficando sem crianças, então os cachorros estão assumindo seu lugar nos rituais

            Sobre esse pano de fundo, proliferaram interpretações políticas e morais. Em 2022, o Papa Francisco classificou como “egoístas” aqueles que preferem ter animais em vez de filhos. Na Coreia do Sul, o então ministro do Trabalho, Kim Moon-soo, chegou a afirmar que os jovens “amam seus cães” em vez de formar famílias. Um diagnóstico forte, mas que se baseava mais em símbolos e percepções culturais do que em dados verificados.

            A ideia de que os animais de estimação substituem os filhos acaba de ser desmentida pela pesquisa acadêmica. O estudo Cats, Dogs, and Babies, liderado pelos pesquisadores Kuan-Ming Chen e Ming-Jen Lin, da Universidade Nacional de Taiwan, analisou por mais de uma década o comportamento de milhões de lares.

            A pesquisa chegou à conclusão de que pessoas que adotam um cachorro têm até 33% mais probabilidade de ter um filho do que aquelas que não o fazem. Longe de deslocar a paternidade, o animal parece atuar como um passo prévio. É o que os autores chamam de “efeito filho de prática”. Segundo Chen e Lin, muitos casais usam a experiência de cuidar de um cachorro para avaliar sua disposição de assumir responsabilidades — rotinas, gastos e vínculos afetivos. Se a experiência é positiva, aumenta a confiança para dar o próximo passo rumo à paternidade humana.

             Entanto, não há uma mudança à vista. Nem o estudo taiwanês nem os especialistas que analisam o inverno demográfico sustentam que o aumento de animais de estimação vá se traduzir, por si só, em uma recuperação da natalidade. O próprio trabalho acadêmico alerta que se trata de uma análise centrada em um país específico e que os padrões podem variar conforme o contexto cultural, econômico e social.

            O estudo não propõe os animais de estimação como resposta ao declínio demográfico, mas como uma pista sobre como hoje se adiam as decisões de cuidado em um contexto de incerteza econômica e existencial. A queda da natalidade responde a fatores estruturais amplamente documentados: precariedade no trabalho, encarecimento da moradia, dificuldades de conciliação, atraso na saída da casa dos pais e uma maternidade cada vez mais tardia. Nesse cenário, os pets não substituem os filhos; ocupam o espaço deixado por um projeto de vida adiado.

            Japão encontrou o número ideal de filhos por mulher para evitar a extinção demográfica: dois terços do planeta estão muito longe disso

            Por isso, a imagem do cachorro no carrinho resume bem essa ambiguidade. Como explica o Dr. Jerry Klein, veterinário-chefe do American Kennel Club, esses carrinhos podem ter uma função prática em certos casos: “Oferecem a cães idosos, com artrite ou problemas de mobilidade, uma forma de aproveitar o ar livre sem se esforçar”. Plataformas veterinárias como Dialvet e ToeGrips concordam que eles podem ajudar a proteger as patas do asfalto quente ou auxiliar cães pequenos que não conseguem acompanhar longas caminhadas.

            No entanto, outros especialistas pedem cautela. Carlos Carrasco, da DOS Adiestramiento, alerta que “um cachorro não é uma criança com pelos” e que levar um animal saudável em um carrinho pode ser uma “humilhação” que o desnatura. Na mesma linha, a etóloga Isabel Jiménez, diretora da La Manada de Iris, afirma na IM Veterinária que a humanização excessiva “anula o cachorro como espécie e o adoece emocionalmente”. Um estudo publicado na revista Animals (MDPI) reforça essa ideia, alertando que o antropomorfismo pode gerar ansiedade e estresse no animal ao não respeitar suas necessidades biológicas básicas, como farejar e caminhar.

            Por fim, o auge dos animais de estimação não explica por si só o inverno demográfico, mas revela como as formas de afeto e responsabilidade estão sendo reconfiguradas em sociedades onde ter filhos se tornou mais complexo. O estudo taiwanês não oferece soluções milagrosas, mas traz um alerta claro: colocar pets e filhos como se fossem opções excludentes simplifica demais uma realidade muito mais matizada.

https://www.xataka.com.br/ciencia/os-animais-estimacao-estao-substituindo-os-filhos-um-estudo-sugere-justamente-contrario




quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

VANDALISMO

 

O MAIOR POETA DO MUNDO

 

VANDALISMO

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas,
Cintilações de lâmpadas suspensas,
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais,
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos…

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a Imagem dos meus próprios sonhos!

Pau d'Arco – 1904.
Augusto dos Anjos
            Vamos ver o que a inteligência artificial tem a dizer desse poema, considerado um dos mais belos e significativos, que uma mente humana pode externar um sentimento em tão poucas palavras...

            "Vandalismo" é um famoso poema de Augusto dos Anjos, inserido no Pré-Modernismo, que descreve a destruição de ideais e sentimentos puros (as "catedrais" e "sonhos") por uma força avassaladora, como a paixão ou o desejo, personificada por um "nume de amor" que se torna um "iconoclasta", quebrando suas próprias ilusões e confraternizando com a realidade cruel e desiludida, refletindo a complexidade da alma humana e a desilusão.

Resumo do Poema:

            As Catedrais Internas: O eu lírico descreve seu coração como catedrais imensas, cheias de crenças e luzes, um lugar de amor e pureza.

            A Entrada do Vandalismo: Ele entra nesses templos como um Templário medieval, com espadas (gládios) e lanças, um ato de destruição iconoclasta.

A Destruição dos Sonhos: Ele quebra as imagens dos próprios sonhos, representando a ruptura com o idealismo e a aceitação de uma realidade mais sombria e visceral.

            Conflito Interno: O poema explora o conflito entre o amor idealizado e a paixão arrebatadora, onde o desejo destrói a pureza, e o eu lírico se torna o agente dessa própria destruição, um ato de auto-vandalismo.”

            Agora vamos ouvi o Chico Viana, professor e doutor em letras, com tese sobre o poeta.

            Vandalismo” é o único poema com características simbolistas que aparece no “Eu”. Os outros o poeta deixou de lado, e os críticos hoje lhe dão razão: embora tecnicamente bem-feitos, eles pouco acrescentam à obra do paraibano. Refletem uma temática comum à época e apresentam um estoque de imagens que estão longe de caracterizar o Augusto dos Anjos que viríamos a conhecer e admirar.

            O tema de “Vandalismo” é a perda da crença. É a “mágoa” subsequente ao desencanto que a descrença traz. Lembremos os versos, muito conhecidos por sinal:
            O soneto reflete um estado de espírito típico do final do século 19, quando as ideias científicas advindas do Positivismo ameaçavam os anseios de transcendência e espiritualidade. Augusto voltaria a tema semelhante em “A ilha de Cipango”, mas com uma dicção pré-moderna.

            Por que o poeta manteve “Vandalismo” no “Eu” apesar do seu claro acento simbolista, que se evidencia no léxico raro, precioso, próximo da “estética da sugestão”? Esse léxico, afinal, está muito distante do vocabulário prosaico e “científico” que lhe permeia a obra.

            Talvez a escolha tenha mesmo um valor... simbólico. Se “Monólogo de uma Sombra” antecipa alguns dos temas caros ao poeta (como a culpa melancólica, a contestação do Positivismo e a rejeição à sexualidade), “Vandalismo” é um momento de ruptura. Há também nele, graças sobretudo à força das aliterações, uma rispidez expressionista que vai se constituir numa das marcas do seu estilo. Uma rispidez que faz lembrar a “poética por estampidos” apontada por Manuel Bandeira.
            A iconoclastia que o eu lírico refere no último terceiro se reforça, fonicamente, nos “gládios” e “hastas” que se “erguem” para destruir um ideal. Um ideal não religioso, mas estético, representado pela concepção da poesia como pura música, evanescência que tranquiliza o espírito.

            Os versos do último terceto constituem uma antítese à estrofe imediatamente anterior, na qual se fala em “templos claros risonhos”, e soam como o anúncio de uma nova opção estética. Uma opção que fará com que no “Eu” prevaleça não a claridade, mas a Sombra. E se nele algum riso houver, será de ironia ou sarcasmo.